O Globo
Uma adesão incondicional à política de Trump
só pode ser classificada como cegueira ideológica
Nestes anos democráticos, política externa
nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma
definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste
período tão conturbado?
Já tivemos a experiência de um tarifaço, que
veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do
mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.
Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma
grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra
contra o Irã.
É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.
Sua relação com aliados históricos é difícil.
Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o
continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra
o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo
que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do
fechamento.
Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais
problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os
Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande
insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.
Todos esses fatores o tornam um aliado pouco
confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua
decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear
o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump
apenas disse:
— Sounds good.
Ele não consultou seus estrategistas, não
submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.
Diante de tudo isso, fica claro que uma
oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como
segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo
parecem alguns elementos dessa política.
Uma diretriz de alinhamento acrítico não
corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser
extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o
regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão
grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.
O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra;
logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser
fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos
países do Golfo poderia ser atingida.
Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.

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