Valor Econômico
Conhecido pela desenvoltura nas redes, onde
já apareceu jogando bola, e até sambando, o presidente do Senado, Davi
Alcolumbre (União-AP), escondeu o gingado na festa junina da senadora Daniella
Ribeiro (PP-PB), ao recusar o convite da anfitriã para dançarem forró na ampla
pista de dança armada em uma casa no Lago Sul, onde ela promoveu um animado
“esquenta” do São João de Campina Grande.
Uma das mais tradicionais festas do Nordeste, o evento em Campina Grande (PB), reduto político da família da senadora, é anunciado como o “O Maior São João do Mundo”, tem 33 dias de duração, e, na edição deste ano, terá João Gomes, Roberto Carlos e Marisa Monte.
Mas a prévia da celebração promovida pela
senadora, na noite de terça-feira (26), já foi uma superprodução, com palco
profissional e shows de estrelas da música nordestina, como a
multi-instrumentista paraibana Lucy Alves. A sanfoneira-sensação lotou a pista,
vazia na maior parte do tempo, obrigando paletós, gravatas e saltos finos a se
mexerem, ao som de “Vou fazer tudo pra ganhar no Xenhenhem”.
O arraial atraiu a elite do poder. Passaram
por lá, além de Alcolumbre e do irmão da anfitriã, deputado Aguinaldo Ribeiro
(PP-PB), o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB) -
conterrâneo e aliado dos Ribeiro -, o procurador-geral da República, Paulo
Gonet, políticos do PL ao PT, e advogados, como Marco Aurélio de Carvalho e
Pierpaolo Bottini, do grupo Prerrogativas. Filho da senadora, o governador da
Paraíba, Lucas Ribeiro (PP), que buscará a reeleição, com o PT em sua
coligação, discursou.
Daniella subiu ao palco para anunciar a
chegada de Alcolumbre: “Davi que derrotou Golias, Davizinho, o melhor
presidente que o Senado já teve”, exaltou. Pelas mãos do senador do Amapá, ela
se tornou a primeira mulher titular de uma vaga na Mesa Diretora. Ela pediu aos
músicos que tocassem a música favorita do presidente do Senado, e o tirou para
dançar. Mas, nem com os acordes de um dos hinos de Alceu Valença, ele se
soltou. Encabulado, cantou baixinho os primeiros versos de “Anunciação”,
acompanhou com palmas o refrão - “Tu vens, tu vens, eu já escuto os teus
sinais” -, abraçou a anfitriã e escapou do palco.
Sempre desconfiado, Alcolumbre se refugiou em
uma mesa no canto do jardim e tentou saborear um espetinho e uma taça de vinho
tinto. Conversou a sós por longos minutos com Aguinaldo, até não driblar mais o
assédio dos jornalistas. Quando a coluna lhe perguntou se iria mesmo se
encontrar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para encerrarem a querela,
ele franziu o cenho, e respondeu, secamente: “Não sei”.
Depois, quando uma colega questionou qual era
sua posição sobre o fim da escala 6 x 1, ele até se descontraiu. Indagou que
horas eram. “Dez horas [da noite]”, responderam os jornalistas. Ele fingiu
contrariedade, fez um gesto de “lamento”, argumentou que havia encerrado o expediente,
e portanto, não falaria de trabalho.
Ele só baixou a guarda para falar da relação
de confiança com Daniella. Alcolumbre disse gostar de pessoas para quem não
precisa pedir para não soltarem a sua mão. “Porque já sei que essa pessoa não
vai soltar a minha mão”, justificou.
Se havia nessa fala um recado velado ao
Palácio do Planalto, a verdade é que as queixas partem de ambos os lados. Um
soltou a mão do outro, e deu as costas, argumentam. Lula e seus aliados estão
convictos de que Alcolumbre liderou a articulação para derrotar no plenário a
indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, ao
Supremo Tribunal Federal (STF). Por sua vez, o presidente do Senado alega que
sempre alertou que Messias seria rejeitado, e que o governo errou ao enviar, a
fórceps, sem combinação prévia, a mensagem com a indicação dele ao STF.
Nos últimos dias, entretanto, o entorno de
Lula se dividiu sobre a conveniência de uma conciliação com Alcolumbre. Uma ala
mais radical sustenta que o vento agora sopra a favor do líder petista, depois
que o escândalo Master atingiu no peito o pré-candidato do PL à Presidência,
senador Flávio Bolsonaro (RJ). Ele perdeu pontos nas pesquisas, enquanto Lula
obteve melhora da aprovação do governo.
Nessa nova conjuntura, o chefe do Executivo,
com fôlego renovado, seria capaz de liderar uma articulação junto aos senadores
para, em nova votação, garantir a aprovação de Messias. O problema nesse
cálculo é que, sem um entendimento com Alcolumbre, a matéria não volta à pauta.
Mas outra ala do entorno lulista ainda
defende a reconciliação de ambos. Uma leitura é de que o presidente do Senado
tenta se blindar, mas teria saído fragilizado da derrota imposta a Messias. Por
esse resultado, ele teria se alinhado à oposição, sem garantia, contudo, de
apoio à sua recondução ao comando do Senado em 2027.
Isso porque, na eventual vitória de Flávio
Bolsonaro na sucessão presidencial, o candidato dele à presidência do Senado é
Rogério Marinho (PL-RN). Além disso, seja Flávio ou Lula vencedor nas urnas em
outubro, uma candidatura ganha força dia após dia, impulsionada pelo centro, e
provável adesão da esquerda, a da senadora Tereza Cristina (PP-MS). Para
governistas, o senador do Amapá caiu numa encruzilhada. Agora, como no forró,
só se ele fizer tudo para “ganhar no Xenhenhem”.

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