Operação contra PCC aponta caminho no combate às facções
Por O Globo
Cerco às redes financeiras é a melhor forma
de asfixiar as organizações criminosas
Deflagrada nesta quinta-feira, a Operação Fluxo Oculto, segunda fase da Carbono Oculto, foi um novo golpe das forças de repressão nas redes financeiras usadas pelo Primeiro Comando da Capital (PCC) para fraudes, sonegação e lavagem de dinheiro. A operação conjunta da Receita Federal com o Ministério Público e a Secretaria da Fazenda de São Paulo descobriu seis novas fintechs atuando como bancos paralelos do crime. Juntas, elas movimentaram mais de R$ 26 bilhões entre 2022 e 2025. Há registros de pelo menos R$ 365 milhões em transações suspeitas com criptoativos. A Fluxo Oculto também identificou operações de adulteração de combustível que podem ter resultado em R$ 200 milhões sonegados em dois anos.
A investigação financeira é uma das formas
mais eficazes de asfixiar as facções criminosas. A apreensão de drogas,
contrabandos e outros produtos ilícitos continua crucial, mas o trabalho de
repressão não pode se resumir a isso. Ao desbaratar estruturas sofisticadas de
lavagem de dinheiro, as autoridades brasileiras perseguem o caminho mais
promissor para combater o crime. Os objetivos dos criminosos são conhecidos:
buscam fraudar, sonegar e injetar os lucros obtidos em atividades ilegais no
sistema financeiro. Movimentam o dinheiro para ocultar a origem e reinvestem o
capital em operações legais. É dessa forma que têm se fortalecido e conquistado
influência a cada dia maior nos setores formais da economia. A sociedade perde
repetidas vezes: nos roubos, furtos, golpes digitais, assaltos e assassinatos,
na sensação onipresente de insegurança, mas também nos produtos adulterados,
nos impostos sonegados, na corrupção de funcionários públicos e na perda de
confiança nas forças de repressão e no sistema financeiro.
As últimas investigações revelam o grau de
sofisticação do grupo criminoso, que tentou despistar a fiscalização
substituindo fintechs expostas por novas. Uma das brechas exploradas por anos
pelo crime organizado foi a conta-bolsão, reunindo recursos de diversos
beneficiários sob um único identificador. Ela só passou a ser ilegal no ano
passado, depois da primeira fase da Carbono Oculto. As fintechs também passaram
a ter de entregar declaração à Receita com informações sobre as movimentações
dos clientes. Das seis que foram alvo da Fluxo Oculto, três não cumpriram a
norma e foram autuadas.
A sofisticação do crime organizado é um
desafio global. De acordo com o relatório da empresa americana TRM Labs, o
montante controlado por criminosos em carteiras de criptomoedas bateu recorde
no ano passado, alcançando US$ 158 bilhões, quase 145% a mais que em 2024. A
União Europeia já identificou a atuação do crime organizado no mercado de
criptoativos como uma das principais ameaças. Criada em 2024, a Autoridade de
Combate à Lavagem de Dinheiro do bloco europeu tinha cerca de 30 funcionários
há um ano. Chegou a dezembro com pouco mais de cem e pretende fechar o ano que
vem com 432. A Fluxo Oculto mostra que o Brasil também pode seguir o caminho de
outras nações que têm obtido progressos contra o crime organizado. Se persistir
com afinco no cerco financeiro, com sanções duras aos líderes das facções criminosas,
o país terá plena condição de enfrentá-las.
É oportuna ação do MPRJ contra lei anistiando
construção irregular no Rio
Por O Globo
Recado do poder público com legislação da
“mais valia” e do “mais valerá” é simples: pagou, liberou
Fez bem o Ministério Público do Rio de
Janeiro (MPRJ) em defender na Justiça a inconstitucionalidade
de duas Leis Complementares (LCs), aprovadas em 2024 e em vigor desde 2025, que
autorizam e incentivam construções irregulares na cidade do Rio. A primeira, a
LC 281, permite, mediante o pagamento da taxa conhecida como “mais valia”,
legalizar “puxadinhos” de toda sorte erguidos até 30 de maio de 2025, como
andares extras ou fechamento de varandas. A segunda, a LC 291, é ainda mais
perniciosa: permite, mediante outra taxa chamada “mais valerá”, legalizar obras
em construção ou futuras que estejam em desacordo com as normas urbanísticas,
por um período de dois anos a partir de 1º de dezembro de 2025. É uma lei tão
estapafúrdia que autoriza irregularidades que nem sequer foram cometidas. O
recado do poder público com essa legislação é simples: pagou, liberou.
Desde 2009, sucessivas legislaturas têm
adotado o mecanismo da “mais valia” para legalizar obras irregulares no Rio. E,
desde 2018, entrou em vigor o disparate do “mais valerá”, anistiando
irregularidades futuras — dispositivo que viola não apenas a Constituição, mas
também a lógica e o bom senso.
A situação é ainda mais insólita porque as
duas leis foram aprovadas, por iniciativa do então prefeito e atual candidato
ao governo do estado, Eduardo Paes (PSD), logo depois da sanção de um novo
Plano Diretor com regulações sensatas para a revitalização e a ocupação do
espaço urbano. “As mudanças flexibilizam regras de ocupação do solo e ampliam o
potencial de construção em várias regiões da cidade, sem observar as exigências
constitucionais relativas à realização de estudos técnicos e à participação
popular adequada durante a tramitação legislativa”, afirma a representação do
MPRJ. Para que então criar regras, se elas podem ser alteradas ao sabor das
pressões
Construtoras argumentam se tratar de medida
temporária, necessária para o bom funcionamento do mercado imobiliário. Afirmam
ainda que, uma vez aprovada e sancionada a lei, uma reversão na Justiça criaria
insegurança para os investidores. “Não podemos entender como normal que regras
estabelecidas e projetos licenciados legalmente sejam questionados. Se existe
alguma falha na regra, que se discuta uma nova lei para futuros projetos”,
afirma Claudio Hermolin, presidente do Sinduscon-Rio.
É preciso, é verdade, ter cautela com os projetos que autorizaram o aumento de potencial construtivo em várias áreas da cidade e a conversão de imóveis hoteleiros em residenciais, como contrapartida para investimentos — bem-vindos e necessários — na revitalização das áreas centrais. Mas isso é muito diferente da “boiada” imobiliária instaurada pela “mais valia” e pelo “mais valerá”. Cabe a pergunta óbvia: se a anistia é temporária e voltada a projetos restritos, por que então tem sido sistematicamente renovada há quase duas décadas? É evidente, como o MPRJ argumenta, que as irregularidades terão consequências desastrosas, talvez irreversíveis, para o meio ambiente, a infraestrutura e a paisagem urbana.
Redução de jornada avança sob pressão
eleitoral
Por Folha de S. Paulo
Com debate precário, Câmara aprova PEC que
estabelece máximo de 40 horas e duas folgas por semana
Sucesso político do governo Lula não apaga
críticas e dúvidas em torno da proposta, em particular as relacionadas à
implementação açodada
A Câmara dos
Deputados aprovou por 472 votos ante 22 contrários a proposta
de emenda à Constituição que limita a jornada semanal de trabalho a 40 horas e
estabelece dois dias de descanso no período, em média. A PEC foi, pois,
aprovada por mais de 95% dos deputados votantes ou pelo equivalente a 92% do
plenário completo.
O resultado avassalador do primeiro turno de
votação mostra que o governo Luiz Inácio Lula da
Silva (PT)
emparedou a oposição. Apesar de contar com larga maioria, as forças à direita
foram incapazes de elaborar alternativas ou emendas sérias à proposição, apenas
artimanhas fracassadas.
Renderam-se enfim ao medo das urnas e à
popularidade da PEC, que tem 71% de apoio no eleitorado, segundo o Datafolha.
O sucesso político do governo petista —que
propagandeia agressivamente a medida como trunfo nas eleições deste
ano— não apaga críticas e dúvidas em torno da proposta, em particular aquelas
relacionadas à implementação açodada, sem debate qualificado, e ao efeito mais
problemático da mudança em determinados setores.
Assim, é incerto que a PEC tramite sem modificações no Senado ou por leis posteriores.
Vai ficando mais claro que o prazo para a
vigência da regra é exíguo. Em 60 dias após a promulgação da emenda
constitucional, empresas, setor público e outras organizações devem não apenas
reduzir jornadas como alterar a escala de trabalho, o que pode exigir
remanejamentos de produção e horário de funcionamento ou contratações.
O tempo de transição para a jornada máxima de
40 horas, ora de 14 meses, também pode ser questionado por senadores.
Negociam-se, além do mais, medidas mal
disfarçadas de compensação. Parlamentares querem permitir que mais micro e
pequenas empresas possam entrar em regimes especiais de tributação, como o
Simples, com aumento da renúncia fiscal.
O imposto menor, em tese, compensaria custos
da PEC, que de fato permite leis com medidas "transitórias" de
"mitigação" e outras para situações especiais que, de tantas, não
podem ser chamadas de excepcionais.
Trabalhadores de empresas e organizações de
algum modo contratadas pelo setor público não teriam direito imediato às novas
jornada e escala, mas apenas depois de refeitos tais contratos, no prazo de 12
meses. Prefeituras e
certas estatais reclamam do custo desses aditamentos e querem
norma para ampará-las.
À oposição a Lula e a boa parte dos
empregadores interessam votação mais tardia no Senado e, ao menos, transição
mais lenta para um novo regime. Quanto ao mais, parlamentares ouvem lobbies que
passarão a disputar o favor das compensações.
Estudos e considerações de impacto
socioeconômico geral não
estão no centro do debate, infelizmente. Uma política pública
importante avança sob pressão eleitoral, sem custo claro.
Trump manipula o voto distrital nos EUA
Por Folha de S. Paulo
Republicano estimula estados aliados a
redesenhar áreas de votação para obter mais cadeiras na Câmara
Trump avilta as instituições democráticas;
saldo líquido parcial é que o partido do presidente tende a obter de oito a dez
vagas extras
Cada sistema eleitoral carrega suas
perversões. A ideia de formar um corpo legislativo a partir das preferências
dos cidadãos contabilizadas de forma equânime é intuitivamente simples, mas
traz grandes dificuldades operacionais que se tornam desafios para a teoria
política.
Vemos isso com clareza hoje nos EUA, que
elegem sua Câmara baixa por um sistema distrital. Cada um dos 435 deputados é
eleito por um distrito que, a fim de assegurar que todos os votantes tenham a
mesma força política, deve idealmente ter um mesmo número de eleitores.
Como se pode imaginar, a margem para
distorções está na disposição territorial de cada distrito. Num país com forte
segregação habitacional como os EUA, é relativamente fácil controlar o
resultado do pleito escolhendo quais cidades e bairros vão compor cada área de
escolha.
Locais com mais negros, para citar um único
exemplo, tendem a votar mais no Partido Democrata. Políticos sabem com bom
nível de detalhe as preferências de cada grupo demográfico.
Dado que a população não apenas cresce como também
migra, os distritos não podem ser fixos. Pelo menos a cada dez anos, quando é
feito um novo censo, eles precisam ser redesenhados de modo a representar
número semelhante de habitantes.
Alguns estados delegaram essa tarefa a
comissões independentes, mas vários outros permitem que o Legislativo local,
que é parte interessada no processo, exerça forte influência no redesenho.
O hábito é tão antigo e arraigado que ganhou
nome próprio: gerrymandering. Desde o ano passado, Donald Trump,
temendo perder a maioria na Câmara no pleito de novembro, estimula
estados republicanos a promover gerrymanderings fora de época —eles
costumam ser feitos após o censo, realizado nos anos terminados em 0— para
ampliar a representação do partido.
Democratas tentaram responder com suas
próprias manipulações de distritos, mas a Suprema Corte, de maioria
conservadora, tomou
decisões que limitam o alcance do contra-ataque.
O saldo líquido parcial —há processos ainda
em curso— é que os republicanos tendem a obter de oito a dez cadeiras extras.
Isso significa que, para neutralizar a manobra trumpista e obter maioria na
Câmara, os democratas precisarão vencer os republicanos com uma vantagem de
dois a quatro pontos percentuais.
Essa é só uma das muitas maneiras pelas quais Trump vem vandalizando as instituições democráticas americanas.
Câmara vilaniza os empresários
Por O Estado de S. Paulo
Deputados transformam o debate sobre a
redução da jornada de trabalho em cruzada moral contra o setor produtivo e
tratam pedido de cautela como defesa da exploração
A redução da jornada de trabalho e a revisão
da escala 6x1 são temas legítimos numa sociedade que discute produtividade,
qualidade de vida e transformação das relações laborais. O problema é que a
Câmara dos Deputados decidiu conduzir esse debate de forma irresponsável, com
retórica eleitoreira e demonização do setor produtivo, composto em sua maioria
por micro e pequenas empresas, responsáveis por 7 em cada 10 vagas de emprego
criadas no Brasil.
Esses valentes empreendedores brasileiros, a
maioria dos quais gente comum com um sonho na cabeça, decidiram investir no
País, a despeito da imensa carga tributária, do cipoal burocrático e da
persistente insegurança jurídica. Por isso, deveriam ser mais bem tratados pelo
Congresso. Mas os deputados, preocupados exclusivamente com as eleições,
optaram pelo caminho da demagogia explícita e, em seus discursos, transformaram
os empresários em insensíveis senhores de escravos, ignorando o que eles tinham
a dizer sobre o assunto.
A sessão que aprovou a PEC do fim da escala
6x1 tornou isso explícito. O deputado Reginaldo Lopes (PT-MG) afirmou que a
proposta acabaria com a “escravidão moderna do século 21”. O deputado
Florentino Neto (PT-PI) declarou que a escala “escraviza”. O deputado Rodrigo
Rollemberg (PSB-DF) citou Joaquim Nabuco para defender que “não basta acabar
com a escala 6x1, é preciso acabar com a exploração das trabalhadoras e dos
trabalhadores”. Em diversos momentos da discussão, empresários, grandes ou
pequenos, foram retratados quase como inimigos morais da civilização.
É evidente que jornadas exaustivas precisam
ser combatidas. O problema começa quando qualquer ponderação sobre custo,
produtividade ou impacto econômico passa a ser tratada como defesa da
exploração humana, sem levar em conta os desafios técnicos e econômicos num
país de baixíssima produtividade.
Para ter uma ideia, a escala 6x1 ainda está
presente em 53,2% dos empregos do transporte aéreo, em 52% dos serviços de
alojamento, em 47,1% da alimentação e em 42,2% do comércio, segundo o
Ministério do Trabalho. Hospitais, restaurantes, hotéis, supermercados e
pequenos negócios não conseguem substituir jornadas e recalcular estruturas
inteiras da noite para o dia. Ainda assim, a Câmara acelerou a tramitação e
impôs um prazo de 60 dias, após a promulgação da PEC, para que empresas e
trabalhadores renegociem acordos e convenções coletivas para adequação inicial
à nova carga horária, o que certamente levará à judicialização. A PEC
originalmente apresentada por Reginaldo Lopes (PT-MG) previa um período de adaptação
de dez anos.
Formalmente, representantes empresariais
participaram da tramitação, por meio de audiência específica com entidades
patronais e manifestações de confederações empresariais. Mas, na prática,
falaram para as paredes. Quase nada do que foi apresentado pelo setor produtivo
parece ter surtido efeito concreto sobre o texto ou sobre o ritmo da
tramitação.
A maioria das audiências públicas promovidas
pela comissão especial foi dominada pelas centrais sindicais, por movimentos
sociais e por representantes do governo, todos obviamente interessados na
mágica de reduzir a jornada sem tocar em salários. Os estudos da Confederação
Nacional da Indústria mereciam ao menos ser levados em conta. A entidade estima
impacto anual entre R$ 178,2 bilhões e R$ 267,2 bilhões.
Nada disso significa que a escala 6x1 deva
permanecer intocável. Mas reformas dessa magnitude exigem transição
responsável, negociação séria e respeito às particularidades de cada atividade
econômica. O Congresso preferiu outro caminho: transformar empresários em
vilões convenientes de uma campanha eleitoral disfarçada de avanço social. No
plenário, falar em custo, produtividade ou prazo de adaptação virou quase
confissão de insensibilidade moral. Brasília talvez ganhe aplausos com essa encenação.
Quem produz, emprega e sustenta a economia brasileira ficará com a conta.
A falsa paz
Por O Estado de S. Paulo
Pressão por um acordo no Golfo é
compreensível. Reabrir Ormuz aliviará os mercados. Mas preservar a capacidade
nuclear do Irã apenas transferiria a crise para um patamar mais perigoso
Há sinais de que um acordo entre Estados
Unidos e Irã pode estar próximo. O presidente americano, Donald Trump, fala em
entendimento. Os mercados oscilam entre alívio e cautela. As monarquias do
Golfo pressionam por estabilização. Depois de meses de guerra, inflação
energética e sobressaltos nos mercados globais, a perspectiva de alguma
normalidade voltou a exercer enorme atração política.
Nada disso é irracional. A guerra expôs
vulnerabilidades profundas. O Estreito de Ormuz continua sendo o principal
gargalo energético do planeta. Seguradoras elevaram prêmios, cadeias produtivas
sofreram abalos e aliados americanos descobriram, mais uma vez, quão vulneráveis
permanecem suas cidades, refinarias, portos e usinas. Tampouco há entusiasmo,
nos Estados Unidos ou no Irã, por uma escalada militar sem horizonte claro. A
prudência exige descartar as fantasias de vitória rápida que tantas vezes
seduziram Washington na região. Ainda assim, a substância do acordo importa
mais que seu anúncio.
Nas últimas semanas, os objetivos americanos
foram encolhendo. No início da guerra, a retórica era de transformação
estratégica do Oriente Médio, desintegração das capacidades iranianas e queda
do regime. Hoje, as discussões giram em torno de cessar-fogo prolongado,
reabertura de rotas marítimas, alívio gradual de sanções e novas rodadas de
negociação. Isso talvez reflita realismo tardio. Guerras longas costumam
estreitar grandes ambições. Mas existe um limite além do qual a recalibração
perde o caráter de prudência e se aproxima da capitulação. Esse limite tem nome
e sobrenome: bomba atômica.
Se havia uma justificativa plausível para a
guerra, era impedir que um regime fundamentalista, patrocinador de terroristas
e abertamente hostil ao Ocidente preservasse a capacidade de produzir um
artefato nuclear. Mas nesse ponto o acordo em discussão permanece nebuloso. As
informações disponíveis sugerem fórmulas provisórias: diluição parcial do
urânio enriquecido, moratórias, inspeções futuras e mecanismos indefinidos de
monitoramento. Em alguns cenários discutidos publicamente, o material
enriquecido permaneceria sob controle iraniano.
Conhecimento nuclear não desaparece com
comunicados diplomáticos. Centrifugadoras podem ser religadas. Estoques podem
ser recompostos. Moratórias expiram. Instalações subterrâneas continuam
existindo mesmo quando temporariamente inativas. Um acordo sério exigiria
parâmetros claros e rigorosos sobre enriquecimento, fiscalização, armazenamento
de material sensível e consequências automáticas para violações. Sem isso, a
guerra terá produzido uma situação curiosa: meses de bombardeios, disrupção
global e desgaste estratégico apenas para devolver o mundo a uma versão mais
instável da crise anterior.
Ormuz torna essa perspectiva ainda mais
perigosa. O Irã certamente não venceu o conflito, mas provou que possui meios
para impor custos maiores do que sua força militar poderia causar. Bastaram
ataques seletivos, ameaças intermitentes e incerteza contínua para impactar
energia, transporte marítimo, inflação e expectativas financeiras ao redor do
mundo. A capacidade de chantagem do regime por meio do estreito ganha outra
dimensão estratégica caso preserve capacidade nuclear latente.
Não há solução simples. Retomar grandes
operações militares comportaria riscos enormes. Uma campanha indefinida de
bloqueios e escoltas navais consumiria recursos exorbitantes. A hipótese de guerra
ampla contra um país de quase 93 milhões de habitantes permanece politicamente
tóxica e estrategicamente incerta. O dilema americano é real.
Mas justamente por isso o acordo precisa
enfrentar o núcleo do problema, e não apenas administrar seus sintomas
imediatos. Reabrir Ormuz aliviará mercados. Suspender hostilidades reduzirá
tensões regionais e, com sorte, produzirá algum espaço diplomático. Tudo isso
tem valor. O que não faz sentido é chamar de “paz” uma trégua construída sobre
ambiguidade nuclear. Enquanto a principal ameaça permanecer intacta, toda
solução será fictícia.
Encerrar a guerra pode ser necessário.
Encerrá-la preservando a possibilidade de um Irã nuclear seria outra coisa.
Fiscais do Lula
Por O Estado de S. Paulo
Governo quer punir dono de posto de gasolina
com cadeia para criar cenas de comoção eleitoral
Desde que o conflito entre EUA e Israel
contra o Irã estourou, provocando forte elevação no preço global do petróleo, o
governo de Luiz Inácio Lula da Silva não perde nenhuma oportunidade de explorar
a crise de forma desavergonhadamente eleitoreira.
Além da concessão de bilhões em subvenções
“temporárias” à gasolina e ao diesel, que muito provavelmente serão esticadas o
máximo possível, o Executivo agora conseguiu aprovar na Câmara um absurdo
projeto de lei, o PL 1.625/2026, que manda para a cadeia donos de postos de
combustíveis que elevarem preços “sem justa causa” ou “artificialmente”.
Aprovado de forma simbólica, isto é, sem
chamada nominal dos deputados, o texto, que prevê multa e penas de dois a
quatro anos para quem praticar “preços abusivos”, encontra-se agora no Senado,
onde, pelo bem do País, espera-se que seja enterrado.
Em ritmo frenético de campanha, o governo tem
uma intenção bastante clara: gerar imagens nas quais donos de postos
“gananciosos” apareçam presos por alegadamente agirem contra os eleitores,
majorando os preços dos combustíveis apesar dos subsídios generosamente
concedidos pelo governo para “segurar” os preços em ano de eleição
presidencial.
É bem verdade que Lula não é o primeiro a
usar um conflito internacional como pretexto para interferir no mercado de
gasolina em ano eleitoral. Em 2022, vexado pelo mau desempenho nas pesquisas
eleitorais, o então presidente Jair Bolsonaro não só isentou combustíveis de
tributos federais, como pressionou o Congresso a aprovar a redução do Imposto
sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), prejudicando os Estados.
Mas Lula deu um passo além, ao buscar criminalizar
a livre fixação de preços no Brasil, que é assegurada pela Constituição. Talvez
os petistas, obcecados pelo controle de preços, estejam interessados em criar
seu exército de “fiscais do Lula”, emulando os famigerados “fiscais do Sarney”
– que, no embalo do congelamento do Plano Cruzado (1986), denunciavam donos de
supermercados que ousavam reajustar suas mercadorias.
Como não pode impor o seu próprio Plano
Cruzado, que deu no que deu, a gestão petista busca maneiras criativas de
“congelar” os preços dos combustíveis.
Ainda em março, quando anunciou as primeiras
medidas para conter a alta nos preços dos combustíveis, o governo baixou medida
provisória com multas que variam de R$ 50 mil a R$ 500 milhões para postos de
combustíveis que praticarem “aumentos abusivos”. Ato contínuo, a Agência
Nacional do Petróleo (ANP) intensificou as ações de fiscalização e autuação de
distribuidoras.
Agora, com o projeto de lei que ameaça donos
de postos, o governo tenta escalar sua cruzada eleitoreira, jogando os revendedores
de combustíveis na vala comum dos “inimigos do Brasil”, que os petistas adoram
denunciar.
Por fim, como a Petrobras parou de importar diesel, as distribuidoras que compram o produto diretamente do exterior, repassando o preço ao consumidor, podem ficar ainda mais receosas de fornecer diesel a um Brasil que pode criminalizá-las por acreditarem na liberdade de mercado.
Negociação direta é a melhor forma de definir
jornada
Por Valor Econômico
O imediatismo do presidente e dos deputados
com a medida contrasta com os efeitos profundos que a alteração poderá trazer
na economia
A Câmara dos Deputados aprovou por grande
maioria a redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais. Às
vésperas de eleições, os deputados deram aval à mudança usando a mesma lógica
do presidente que busca seu quarto mandato: angariar votos. O imediatismo dos
objetivos contrasta com os efeitos profundos que a alteração poderá trazer na
economia, que englobam aumento de custos, mais inflação, demissões e redução do
ritmo de crescimento. As supostas vantagens para os trabalhadores no corte de
horas trabalhadas sem redução de salários podem ser anuladas dependendo da
maneira como a nova jornada será implantada. Cabe agora ao Senado fazer uma
análise séria, que releve o curto prazo eleitoral, e adeque a legislação de
forma um pouco mais equilibrada.
O presidente Lula não se preocupou com a
redução das horas trabalhadas em seus mandatos. Ao fim do seu 12 ano na
Presidência, resolveu encampar e agir para aprovar a semana de 40 horas no
melhor momento para seus objetivos continuístas e no pior para uma avaliação
serena da questão, o período eleitoral. Antes, a deputada do Psol Erika Hilton
foi uma voz solitária pregando no deserto na defesa de seu projeto da semana de
4 dias de trabalho e 3 de descanso. Diante do lance oportunista do Planalto,
todos os partidos, governistas ou não, não quiseram correr o risco do opróbrio
nem colocar em risco seus mandatos, e votaram a favor do projeto em duas votações.
O aumento dos custos trabalhistas, como
aprovado, só é absorvido sem dificuldades em um ambiente em que a produtividade
também aumente. O projeto aprovado desconsidera o fato de que a produtividade
brasileira é baixa, e seus defensores acreditam que o aumento inegável do
bem-estar dos empregados com carga horária menor suprirá a lacuna. Não é o que
os empresários e economistas mostram. A Confederação Nacional da Indústria
(CNI) calcula que, na média, a mudança trará aumento de gastos na folha de pagamentos
de 7% (semelhante às contas do Ipea, do Ministério do Planejamento), o
equivalente a R$ 178,2 bilhões a R$ 267 bilhões em custos extras.
Essa conta precisará ser paga, e em geral
isso não é feito de forma indolor. Demissões procurarão reequilibrar receitas e
despesas, o que acarreta redução da renda disponível na economia, queda no
consumo e, em última instância, crescimento menor do PIB. Nos setores que não
optarem por desligamentos imediatos compensatórios, os preços dos produtos
tenderão a aumentar, elevando a inflação.
Há outras maneiras de reduzir a semana de
trabalho, um objetivo que merece ser buscado. A economia brasileira já vem
fazendo isso por meio das convenções coletivas de trabalho e pelo acordo entre
empresários e sindicatos ao longo do tempo. A média de horas trabalhadas por
funcionários públicos e trabalhadores regidos pela CLT no Brasil é de 39 horas
semanais. O setor informal, que abrange 40% da população ocupada, não está
incluída nesse cálculo, mas também não segue as leis trabalhistas.
Os metalúrgicos do ABC paulista, que já foram
liderados por Lula quando ele foi presidente do sindicato local, obtiveram em
acordos cargas de trabalho que não ultrapassam as 40 horas. Em outras regiões
de concentração industrial, como Curitiba, desde 2024 os metalúrgicos
negociaram redução inicial para 42 horas em negociações com os empresários e
caminham em direção às 40 horas.
A Constituição faculta a redução do período
trabalhado desde que isso seja feito por negociação entre as partes. Para um país
em que há enorme disparidade de produtividade entre os setores da economia e
enorme variedade de escalas e condições de trabalho, a imposição de uma carga
fixa, com obrigação de folga dupla na semana, trará problemas previsíveis para
uma vasta gama de empregadores. Grandes empresas e companhias mais produtivas
de qualquer porte poderão ter condições de implantar as mudanças sem grande
impacto nos negócios. As maiores dificuldades se concentram nas micro e
pequenas empresas, que empregam 52% da mão de obra ocupada, cuja maioria não
tem condições de arcar, imediatamente e sem transição, com aumento dos custos
do trabalho.
Se a forma e o momento da iniciativa aprovada
pela Câmara são errados, o projeto peca também por estabelecer um período de
transição inadequado para que as mudanças vigorem. A Organização Internacional
do Trabalho recomenda e, na América Latina, países como o Chile, México e
Colômbia implantaram a nova carga horária em até 5 anos. No Brasil, o intervalo
de 60 dias para a redução de duas horas, e mais 360 dias para as restantes duas
horas, é considerado insuficiente pelos empresários.
O equilíbrio de interesses de trabalhadores e empregados será melhor atendido por meio da livre negociação, sem imposição estatal. Caso o Senado opte por seguir a Câmara pelos mesmos motivos eleitoreiros, deveria ao menos assegurar um tempo maior para que as empresas se adequem a exigências míopes de curto prazo.
O termômetro da inércia
Por Correio Braziliense
O colapso climático deveria catalisar uma
resposta pragmática e coordenada, que unisse todos os povos e países em um só
esforço. O que se observa é o oposto
O mundo enfrenta uma fase de fracasso
diplomático. Não bastassem as guerras que assolam o planeta — e seguem sem
solução no horizonte —, a crise climática também evidencia que o poder do
diálogo anda em baixa entre os países e expõe o egoísmo das nações ricas diante
de uma catástrofe que já cobra o seu preço.
Isso fica evidente diante de números e
pesquisas que apontam que as temperaturas seguem subindo sem que haja qualquer
ação coordenada para, pelo menos, tentar mitigar os estragos. O dado mais
recente veio nesta quinta-feira, com um relatório divulgado pela Organização
Meteorológica Mundial (OMM) que não deixa nenhuma margem para o otimismo.
Ao apontar que as temperaturas médias globais
permanecerão em níveis recordes entre 2026 e 2030, com 75% de chance de romper
a barreira de 1,5°C acima dos níveis pré-industriais, a OMM formaliza o que já
se sente na pele. O limite térmico que pautava os discursos em conferências
virou pó. A humanidade cruzou a linha da prevenção, está além do chamado
"ponto de não retorno" e entrou, de forma definitiva, na era da
mitigação de danos.
Os dados não representam uma anomalia
estatística. A probabilidade de 86% de que o recorde de calor de 2024 seja
superado até o fim da década carrega implicações diretas para a economia. Um
planeta sistematicamente mais quente significa quebras de safra sucessivas,
choques na oferta de alimentos e inflação persistente corroendo a renda das
famílias.
Esse cenário drena orçamentos públicos com a
reconstrução de infraestruturas destruídas por eventos extremos e encarece o
custo logístico. O clima desregulado deixou de ser pauta de fóruns
ambientalistas para se consolidar como o principal vetor de instabilidade
econômica deste século, uma situação que deverá se agravar com o super El Niño
previsto para o fim deste ano.
Diante de um desafio dessa magnitude, o
colapso climático deveria catalisar uma resposta pragmática e coordenada, que
unisse todos os povos e países em um só esforço. O que se observa é o oposto.
As nações ricas, detentoras do maior passivo histórico de emissões industriais,
continuam a arrastar os pés no repasse de tecnologias e no financiamento de
transições energéticas para os países mais vulneráveis. Em vez de encabeçar uma
coalizão de adaptação, blindam suas economias e subsidiam paliativos locais,
ignorando que a atmosfera não respeita fronteiras desenhadas em mapas ou
acordos alfandegários.
Essa inércia tem um desdobramento previsível
e ignorado: as grandes rotas de migração climática. Com o aumento contínuo das
temperaturas, extensas faixas do globo caminham para se tornarem inabitáveis.
Populações expulsas pela seca extrema, pela elevação dos oceanos e pelo
esgotamento produtivo da terra não vão desaparecer: vão se mover. A negligência
atual planta as sementes para crises de refugiados em escala inédita. Os países
ricos fecham os olhos para isso, apostando na durabilidade de seus muros e
barreiras legais. É uma aposta que a história já mostrou ser perdedora.
É tarde para que as lideranças mundiais abandonem a ilusão de que o tempo está a seu favor. Não há mais lastro para celebrar cúpulas esvaziadas ou metas empurradas para a próxima década. A realidade exige adaptação urbana, corte real de emissões e responsabilização financeira imediata. Quando a fatura chegar, nenhuma riqueza nacional será suficiente para isolar os arquitetos dessa letargia do mundo que eles mesmos escolheram construir.
Pobreza cai; desigualdade persiste
Por O Povo (CE)
Outro dado que evidencia o efeito positivo
das políticas sociais é a redução do número de famílias vivendo em extrema
pobreza no Ceará. Segundo o Ipece, o índice caiu 35% entre 2023 e 2025,
retirando 415 mil cearenses da pobreza
A redução do número de cearenses vivendo em
extrema pobreza e o anúncio de que o Brasil alcançou o melhor Índice de
Desenvolvimento Humano Municipal (IDHM) da história, com a classificação
de "muito alto", são notícias animadoras.
O levantamento sobre a pobreza foi realizado
pelo Instituto de Pesquisa em Estratégia Econômica do Ceará (Ipece). Sobre o
IDHM, a pesquisa é do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento
(Pnud). Os dois estudos, sem relação entre eles, foram divulgados esta semana.
Quanto ao IDH, na comparação de 2012 a 2024,
o índice brasileiro passou de 0,744 para 0,85. O indicador varia de 0 a 1 e,
quanto mais próximo de 1, mais desenvolvido é o local estudado. Esse parâmetro
vai de "muito baixo" (0 a 0,499) em uma ponta a "muito
alto" (0,8 a 1), escala na qual se encontra agora o Brasil. No estudo,
foram consideradas as mesmas três dimensões do IDH Global: longevidade,
educação e renda.
No entanto, o crescimento expressivo do IDHM
não conseguiu reduzir as disparidades, principalmente nos segmentos raciais e
de gênero. O que se observa é que diminuir as desigualdades é ainda mais
difícil do que combater a pobreza.
O parâmetro que mais impulsionou o IDHM no
período foi a educação, incentivada pelo Bolsa Família, de acordo com a
análise de Betina Barbosa, coordenadora da Unidade de Desenvolvimento Humano do
Pnud Brasil. Segundo ela, o programa de transferência de renda do governo
federal "retira quantidade enorme de crianças do trabalho", dando a
elas a condição de frequentar uma sala de aula.
O depoimento da coordenadora é importante,
principalmente porque ainda persistem críticas indevidas do programa. A mais
recorrente é desestimularia os beneficiários a procurarem emprego, tornando-se
dependentes do programa. Porém, dados do Ministério do Desenvolvimento
Social mostram que, entre janeiro e outubro de 2025, mais de dois milhões
de famílias deixaram o programa voluntariamente, porque encontraram emprego ou
tiveram aumento de renda.
Outro dado que evidencia o efeito positivo
das políticas sociais é a redução do número de famílias vivendo em extrema
pobreza no Ceará. Segundo o Ipece, o índice caiu 35% entre 2023 e 2025,
retirando 415 mil cearenses da pobreza. O estudo considera o critério para
definir pobreza o rendimento inferior a US$ 3 por dia, definido pelo Banco Mundial.
O governador Elmano de Freitas (PT) atribui a
queda no índice de pobreza aos programas sociais do governo federal e do
Executivo estadual. Ele cita iniciativas como o Ceará sem Fome e a geração de empregos no Estado, como
ações que visam melhorar as condições de vida da população.
No entanto, se é importante combater a pobreza — e os programas sociais têm papel crucial nessa responsabilidade — a grande tarefa que o Brasil exige é a redução da extrema desigualdade existente entre sua população, que precisa ser superada, inclusive para permitir maior desenvolvimento do País.

Nenhum comentário:
Postar um comentário