O Estado de S. Paulo
Gakiya, maior autoridade no País no combate ao PCC, e Sarrubbo, que foi chefe do MP-SP, afirmaram que decisão transfere da DEA e do FBI para a CIA o combate às duas facções o que pode impedir a acessos a informações e prejudicar combate ao crime
O promotor de Justiça Lincoln Gakiya e o procurador de Justiça e ex-secretário Nacional de Segurança Pública Mário Luiz Sarrubbo afirmaram ao Estadão que a decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas deve afetar a cooperação internacional para o combate ao narcotráfico, favorecendo criminosos em vez de endurecer o combate ao crime.
Isso porque, ao aumentar o nível de risco apresentado pelas duas facções, o governo americano deixa de tratá-las como um caso de polícia e passa a considerá-la um problema militar. A consequência disso é que a Drug Enforcement Agency (DEA), a agência antidrogas americana, e o FBI, a polícia federal americana, deixam de investigar as facções, que passam a ser um problema da CIA, a agência de inteligência americana e das Forças Armadas dos EUA.
“”Eu, por exemplo, troco informações toda
semana com a DEA e com o FBI e com a transferência para a CIA, isso não vai
ocorrer”, afirmou Gakiya.
Jurado de morte pelo PCC, Gakiya é a maior autoridade do país no combate à facção paulista, sendo responsável direto por algumas das mais fortes operações contra a o grupo, como a Ethos, a Sharks e a Fim de Linha. Ele também participou das Operações Carbono Oculto e Vérnix.
O promotor ressalta que ainda é preciso saber
o alcance da medida, que visa bloquear ativos e bens que estiverem nos EUA que
pertençam a acusados de participar ou manter relações com as duas facções. “A
medida veda a qualquer cidadão americano de transacionar com pessoas e grupos,
como o PCC. São sanções de natureza econômica, que podem ter aplicação ampla,
vedando o acesso dos atingidos ao sistema financeiro americano. É preciso ainda
saber quais seus efeitos imediatos”, afirmou.
Gakiya é um dos maiores defensores no País da cooperação internacional. Recentemente, ele foi para a Itália na tentativa de prender a advogada Deolane Bezerra dos Santos, que estava em Roma e era acusada de lavar dinheiro de Marcola. Gakiya apontou ainda outro risco para o País com a classificação.
Pela legislação americana, ela autoriza a
execução pela CIA pelas Forças Armadas americanas de ações militares em
qualquer parte do globo para neutralizar essa ameaça, o que pode levar, ainda
que o risco atual seja remoto, a ações no Brasil, violando a soberania do País.
“O Departamento de Estado passa a tratar essas organizações como um problema de
defesa e não mais de polícia. Sobe para a CIA e a área militar e sai da área
policial. Isso permite operações militares até mesmo no Brasil”, disse.
O ex-secretário nacional de Segurança concordou
com Gakiya. Mário Sarrubo criticou a medida. “Isso é muito ruim para o combate
ao crime organizado e, em especial, para algo que o País tem feito muito bem,
que é a cooperação internacional, que é o diálogo entre as forças policiais
brasileiras e americanas, mas também o diálogo com outras forças dos países
vizinhos aqui da América do Sul, da América Latina como um todo”.
Sarrubbo trabalhou no combate à corrupção e
ao crime organizado quando era promotor. Depois, nomeado procurador-geral de
Justiça em São Paulo (2020 a 2024) esteve à frente da instituição durante
algumas das principais operações de combate ao PCC, como as Operação Sharks, a
primeira a flagrar a lavagem bilionário de recursos do PCC, que incluía
remessas de recursos para o Paraguai. Em 2024, a convite do então ministro da
Justiça, Ricardo Lewandowski, assumiu a Secretaria Nacional de Segurança
Pública (Senasp), onde participou da elaboração do projeto de lei antifacção,
aprovado pelo Congresso em 2025.
Segundo ele, “a decisão americana deteriora o
sistema de cooperação, porque nós deixaremos de tratar a respeito de facções
com DEA e com FBI e passaremos a ter que lidar com a CIA, que não conversa com
ninguém”.
E completou: “A CIA, efetivamente, não tem
diálogo, não conversa com outras agências, de maneira que haverá aí uma
deterioração nessa no sistema de cooperação internacional”. Sarrubbo concluiu
que “isso (a decisão americana) não traz nada de bom para o Brasil e não
qualifica o combate ao crime organizado”.
Em 2020, foi com a DEA que prendeu em
Moçambique o traficante de drogas Gilberto Aparecido dos Santos, o Fuminho,
apontado como o braço-direito de Marco Willians Herbas Camacho, o Marcola, o líder
do Primeiro Comando da Capital (PCC), no tráfico internacional de drogas.
Sarrubbo, por fim, lembrou ainda que a medida “prejudica o Brasil economicamente”, pois “traz dificuldades para as empresas brasileiras nos Estados Unidos”. Em 2025, tanto Gakiya como Sarrubbo se manifestaram contra a proposta de classificar as facções como terroristas no Brasil também em função do conflito judicial que a medida podia causar, anulando operações e levando à impunidade de criminosos.

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