Correio Braziliense
Com eleições à vista, deputados que se
opuseram à nova jornada enfrentam dilemas. Como explicar o voto contra uma
pauta com tanto apelo popular?
A aprovação da proposta de emenda à
Constituição (PEC) que acaba com a escala 6x1 na Câmara produziu uma cena rara
na política brasileira atual: um consenso praticamente unânime. Em tempos de
polarização permanente, um texto reunir mais de 90% dos votos favoráveis dos
deputados em dois turnos é algo que merece atenção. E reflexão.
A redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, sem redução salarial, acompanhada da garantia de duas folgas semanais, é uma medida de forte apelo popular. Não apenas porque mexe diretamente na qualidade de vida do trabalhador, mas porque dialoga com uma sensação crescente de exaustão vivida por milhões de brasileiros. O debate vai muito além da economia. É também social, humano e geracional.
Por isso, chama atenção o fato de 22
deputados terem votado contra no primeiro turno e 19 no segundo. É legítimo que
haja divergência em uma democracia. Sempre será. O Congresso existe justamente
para isso, para se ouvirem vozes divergentes. Mas é impossível ignorar o peso
político de se posicionar contra uma pauta percebida pela população como avanço
concreto nas relações de trabalho.
O argumento econômico contrário à PEC existe.
Empresários alertam para aumento de custos, impacto na produtividade e risco de
informalidade em alguns setores. São preocupações válidas e que precisam fazer
parte da discussão. O próprio texto aprovado buscou amenizar resistências ao
prever uma transição gradual de 14 meses e exceções para trabalhadores de alta
renda. Ainda assim, o sentimento dominante fora de Brasília parece simples:
quem trabalha seis dias por semana e descansa apenas um vê na proposta uma
melhora real de vida.
E é justamente aí que mora o desafio político
para os parlamentares que votaram contra. Como explicar ao eleitor, em plena
pré-campanha eleitoral, uma posição contrária a uma medida tão popular? A
eleição está praticamente a quatro meses de distância. O tema seguirá presente
nas redes sociais, nos sindicatos, nos programas de televisão e nas conversas
cotidianas. Em um ambiente político cada vez mais guiado pela percepção
pública, poucos assuntos têm um apelo tão imediato quanto tempo de descanso e
qualidade de vida.
Em uma sessão marcada por bate-boca e
cantoria, como "olê olê olá, Lula, Lula" e trechos de Para não dizer
que não falei das flores, de Geraldo Vandré, um hino de resistência política, a
oposição tentou transformar o debate em uma disputa sobre responsabilidade
fiscal e populismo. Faz parte do jogo democrático. Mas há momentos em que a
narrativa encontra limites na realidade concreta do eleitor. E o trabalhador
brasileiro sabe exatamente o que significa acordar, enfrentar transporte lotado
seis vezes por semana e voltar para casa sem tempo para a família, lazer ou
descanso.
Agora, a atenção se volta para o Senado. A
Casa terá coragem de travar uma proposta aprovada de forma tão ampla na Câmara?
Senadores costumam agir com mais cautela em temas econômicos e trabalhistas. É
bem provável que o texto enfrente resistência, pedidos de alteração ou tentativas
de desaceleração. Mas barrar integralmente a PEC trará um custo político
difícil de calcular. É importante lembrar que dois terços do Senado serão
renovados em outubro. E a resposta é sempre dada nas urnas.

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