Valor Econômico
Aprovação do fim da escala 6x1 e decisão de Trump sobre CV e PCC mostram que Lula e Flávio Bolsonaro continuam no páreo
Para aqueles que, como eu fiz na coluna de 4
de maio, acreditaram que Lula havia se tornado um pato manco no final de seu
terceiro mandato depois da rejeição da indicação de Jorge Messias para o
Supremo, a aprovação do fim da escala 6x1 e da redução da jornada semanal para
40 horas provou que o presidente ainda tem capital político para obter
dividendos eleitorais importantes.
É verdade que essa pauta não constava entre
as prioridades e os objetivos do governo Lula. Ainda que fosse uma bandeira
antiga dos sindicatos, a proposta ganhou força com uma mobilização nas redes
sociais, inicialmente capitaneada pelo movimento Vida Além do Trabalho e, na
sequência, com o protagonismo da deputada Erika Hilton (Psol-SP).
Na reta final, porém, Lula se empenhou pessoalmente nas articulações para acertar os termos da transição com o presidente da Câmara, Hugo Motta, e, assim, viabilizar a votação.
Agora, com o poderoso combo composto pela
isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, pelo fim da
escala 6x1 e ainda com o Desenrola 2.0, Lula entra na campanha eleitoral com
ativos importantes para conquistar votos numa faixa de renda que, em sua
maioria, desaprova seu governo (o grupo de quem ganha de 2 a 5
salários-mínimos).
Outro personagem que foi reabilitado na
semana passada foi Flávio Bolsonaro. O encontro com Trump, seguido pelo anúncio
do governo americano de considerar como organizações terroristas o Comando
Vermelho e o PCC, serviu-lhe para diversos propósitos.
De um lado, gerou um fato positivo para
remediar os sérios danos sofridos pela exposição de suas íntimas ligações com
Daniel Vorcaro. A ajuda do governo americano também reforça a comunicação com
uma parcela expressiva da população que vive sob o domínio do crime organizado
e almeja uma política de segurança pública mais dura. Por fim, a medida de
Trump esvazia parte do discurso de Lula, que desde o tarifaço se colocou
perante o eleitorado como o grande articulador na defesa dos interesses
nacionais.
No frigir dos ovos, tanto Lula quanto Flávio
Bolsonaro recuperaram parte da credibilidade abalada nas últimas semanas. O
efeito sobre a moral dos candidatos foi tão forte que Lula decidiu até mesmo
reapresentar o nome de Jorge Messias para o STF.
Caso único desde o final do século XIX, o
“não” dos senadores à indicação de Lula foi visto como mais um capítulo do
expressivo ganho de poder do Congresso sobre o Executivo no presidencialismo de
coalizão brasileiro. A insistência em Messias, porém, significa bem mais do que
teimosia de octogenário ou excesso de fidelidade de Lula a seu advogado-geral.
Todos os diagnósticos para a causa da mais
importante derrota parlamentar do terceiro mandato lulista apontavam para o
veto exercido pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Ora, se Lula tem
confiança de que, desta vez, “Bessias” poderia obter a maioria absoluta dos
votos (no mínimo 41 apoios, contra os 34 conseguidos na primeira votação), quer
dizer que houve um acerto com Alcolumbre. Não sabemos os termos da negociação,
mas é bem provável que o velho “toma lá, dá cá”, marca do nosso sistema
político, esteja de volta.
Ainda na semana passada, o senador Rodrigo
Pacheco anunciou pela enésima vez que não vai se candidatar ao governo de Minas
Gerais. A quatro meses da eleição, o segundo maior colégio eleitoral do país,
decisivo em todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, vive um
deserto de opções para governador. Parece até mesmo que ninguém quer assumir o
abacaxi de administrar um Estado praticamente falido.
A situação, contudo, é fruto da implosão
sofrida pelas duas principais forças políticas mineiras na última década: os
tucanos de Aécio Neves, de um lado, e o petismo de Fernando Pimentel, por
outro. Para completar, ainda que alimente o sonho da candidatura presidencial,
a verdade é que Romeu Zema não teve uma gestão potente o suficiente sequer para
fazer um sucessor inconteste após sua passagem pelo Palácio da Liberdade.
Essa indefinição de nomes para constar na
urna em 4 de outubro dificulta a formação de palanques num Estado que pode ser
mais uma vez o fiel da balança numa eleição presidencial tão polarizada.
“Para a semana que entra”, como se diz no
interior de Minas, teremos o Gilmarpalooza em Lisboa. Mesmo com assessorias de
imagem recomendando cautela a figurões do PIB e da política diante do risco de
exposição num evento monitorado de perto pela mídia - principalmente após os
desdobramentos do caso Master - as oportunidades de encontros privados com
autoridades dos Três Poderes em momento de descontração sempre atrairão
interessados.
Há também outro público cativo: integrantes
das carreiras jurídicas (magistratura, Ministério Público e advocacia pública)
sempre de olho em vagas a serem abertas nos tribunais superiores. Mais do que o
lobby privado, para muitas autoridades judiciais o Gilmarpalooza também é um
grande evento para ser visto - e como dizia o ditado antigo, “quem não é visto
não é lembrado”.
Tanta coisa acontece, e tudo continua na
mesma.
*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras.

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