O Estado de S. Paulo
Seria necessário que se consolidasse ou surgisse uma terceira via, voltada para o congraçamento nacional, para além da polarização reinante
Se há algumas semanas podia-se dizer que o senador Flávio Bolsonaro era o favorito na disputa presidencial, num movimento de ascensão, enquanto o seu oponente seguia a curva inversa, não se pode mais sustentar tal posição. O estrago produzido por sua relação próxima com o banqueiro/facínora Daniel Vorcaro é significativo. Lula, por sua vez, viceja em seus erros, embora esteja ele mesmo envolvido por atos passados de corrupção como aconteceu no mensalão, no petrolão, no sítio de Atibaia e no apartamento do Guarujá. A disputa pelo andar de baixo é acirrada, e o Brasil encontra-se cada vez mais à deriva, sem opções claras. E o cenário eleitoral tornou-se ainda mais indefinido.
A bem dizer, nenhum dos dois candidatos reúne
condições para ocupar a cadeira presidencial. Lula faz o que o País suporta ou
não para ganhar as eleições, sem qualquer preocupação com o bem público, com a
saúde econômica e financeira do País. Sua política econômica neste terceiro
mandato caracteriza-se pelo descontrole fiscal, pelo aumento da dívida pública
e por juros elevados, inviabilizando cada vez mais a atividade produtiva, salvo
para grupos empresariais muito próximos que estão se aproveitando da atual
situação. O capitalismo de compadrio corre solto, em nome de uma política
esquerdista, enquanto a classe média e os trabalhadores sofrem com o preço dos
alimentos e o endividamento. O único feito digno de nota de seus ministros da
Fazenda foi o de aumentar os impostos, sempre em nome de uma suposta justiça
fiscal. Aliás, o que se pode bem esperar de um presidente para quem “gasto” é
“investimento”? Até as palavras perdem o seu significado! Para quem esperava a
repetição de Lula 1, ganhamos de presente um Dilma 3.
O senador Flávio Bolsonaro vinha se
posicionando bem, jogando parado, como se diz em linguagem futebolística, até a
revelação de seus diálogos com o hoje preso “banqueiro”. Escondeu até de seus
próximos seu relacionamento com ele, caracterizado como sendo de “irmãos”. O
que, então, pode bem esperar uma nação que observou atônita esses
acontecimentos, numa sucessão de fatos que ora se apresentava como ópera-bufa,
ora como drama familiar de segunda categoria? Suas justificativas foram
risíveis. A de que se tratava de uma relação privada foi um atentado à
inteligência alheia. Como se pode tratar como relação privada o relacionamento
com um criminoso? Se uma pessoa recebe doação de um narcotraficante, caberia
simplesmente justificar dizendo que se trata de uma relação “privada”? Apesar
de tudo isso, achou que poderia visitar o “banqueiro” em prisão domiciliar.
Primeiro, escondeu o que tinha feito. Segundo, a sua justificativa foi ainda
pior, pois disse que foi para finalizar a relação, enquanto o presidente de seu
partido, Valdemar da Costa Neto, simplesmente declarou que lá foi para acertar
o pagamento do resto do dinheiro, ou seja, para ganhar ainda mais. Como
sustentar tal contradição?
O Brasil não pode mais continuar refém de tal
polarização, que só traz malefícios para todos. Se nela continuarmos, qualquer
que seja o vencedor, o País terminará por caminhar para uma crise
institucional. Deve-se, portanto, evitar que tal aconteça, sua possibilidade
sendo a de que se crie uma terceira via. Os que se atêm ainda à candidatura do
senador Flávio Bolsonaro, apostando na força do bolsonarismo, algo real
eleitoralmente, correm o risco de perderem para Lula no segundo turno,
considerando que um eleitorado importante de centro, liberal ou conservador, já
não mais aceita tal tipo de postura radicalizada. Ademais, o plano de indulto
ou anistia ficaria muito prejudicado, se não inviabilizado, com a reeleição de
Lula. Deveriam também pensar nisso.
Seria necessário que se consolidasse ou
surgisse uma terceira via, voltada para o congraçamento nacional, para além da
polarização reinante, visando ao bem do Brasil, corrigindo os erros e excessos
dos últimos governos. Os atuais postulantes, Reinaldo Caiado, Romeu Zema e
Renan Santos, oscilam há semanas entre 3% e 5%, não conseguindo ultrapassar
esse patamar. Quiçá uma união entre os dois primeiros possa reconfigurar esse
quadro. Uma eventual entrada no pleito de Michelle Bolsonaro, seja como
titular, seja como vice, poderia também criar um fato novo, tendo a força de
ser mulher e evangélica. Contudo, o nome Bolsonaro carrega a polarização que se
procuraria evitar.
Talvez pudesse haver uma mudança
significativa nesse cenário, caso o ex-presidente Michel Temer terminasse por
entrar nessa disputa. Tem experiência, sabe articular política e
partidariamente. Além disso, soube com determinação consertar um país arruinado
pelo governo Dilma, agora numa repetição com o presidente Lula. Poderia ainda
ter a vantagem de produzir um movimento de união nacional, caso tivesse o apoio
dos governadores que estão disputando a eleição. Seria o fato novo!
*Professor de filosofia na Ufrgs.

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