O Globo
A palavra de ordem é checar. Checar tudo o
que recebemos, não importa se veio de um grupo de família ou de amigos próximos
O calendário eleitoral de 2026 prevê o início oficial da propaganda, nas ruas e na internet, apenas em 16 de agosto, mas, na prática, a campanha já começou. E começou pela desinformação. As fake news têm origens múltiplas e difusas: nascem nas declarações dos políticos e são amplificadas pela mídia, espalham-se nos posts de influenciadores digitais — remunerados ou engajados — e se disseminam nas redes de partidos, candidatos e apoiadores, sejam eles espontâneos ou parte de esquemas pagos pelas próprias campanhas.
Um fenômeno novo, especialmente preocupante,
são os synth fakes: personagens inteiramente criados por inteligência
artificial (IA) — influenciadores artificiais como o avatar “Dona Maria”, que
hoje já somam 18, 61% dos quais sem explicitar que são gerados por IA. Nesse
cenário, a IA tem o potencial de influenciar, ou mesmo manipular, o eleitor com
um poder de persuasão sem precedentes na história da democracia brasileira.
Existem regras e resoluções a seguir, princípios
que deveriam nortear qualquer processo democrático, como transparência, bom
senso e respeito ao eleitor. Mas o ambiente político atual, cada vez mais
complexo e polarizado, tensiona esses limites ao extremo. O Tribunal Superior
Eleitoral (TSE) determina transparência no uso de IA durante as eleições:
conteúdos gerados ou substancialmente manipulados por IA devem ser
identificados com rótulos visíveis — chamados marcas-d’água digitais. A medida
é justa, mas carece de efetividade prática. Tende a ser imperceptível para a
maioria dos eleitores. Entre os que a percebem, quantos entenderão do que se
trata? Adicionalmente, há outros complicadores técnicos: como distinguir
conteúdo gerado inteiramente por IA de conteúdo apenas modificado por IA? A
fronteira pode ser tênue e, muitas vezes, invisível.
Todas as iniciativas do TSE são apropriadas e
necessárias, mas fiscalizá-las é um desafio nada trivial. Requer capacitar os
Tribunais Regionais Eleitorais, os juízes eleitorais e as Juntas Eleitorais que
atendem os 5.570 municípios brasileiros. São esses agentes que devem analisar,
julgar e punir as infrações cometidas durante as eleições. A capacitação
técnica dessa estrutura — para que reconheça, compreenda e julgue conteúdo
impróprio gerado por IA — é um gargalo ainda sem solução.
Há ainda o problema do timing: o tempo que
transcorre entre identificar uma infração — por denúncia ou iniciativa da
própria Justiça Eleitoral —, analisá-la, julgá-la e puni-la é incompatível com
a velocidade com que a desinformação se espalha pelas redes digitais. Quando a
determinação de retirada da peça infratora for declarada, o estrago já está
feito.
Diante desse quadro, como podemos contribuir?
A primeira medida é nos familiarizarmos com a IA: saber o que ela é capaz de
fazer e disseminar esse conhecimento na família, entre os amigos, no trabalho,
nas conversas cotidianas, até com o motorista de aplicativo. A educação digital
é defesa democrática. A palavra de ordem é checar. Checar tudo o que recebemos,
não importa se veio de um grupo de família ou de amigos próximos. Toda
informação que parecer estranha ou improvável deve ser verificada em fontes
independentes antes de ser compartilhada. A regra prática é simples: em caso de
dúvida, não compartilhe.
Alguns sinais de alerta merecem atenção: se
receber uma ligação pretensamente de um candidato, desconfie, pode ser uma IA
imitando sua voz; se receber uma imagem suspeita, procure falhas nas mãos,
bordas imprecisas, reflexos inconsistentes; se uma informação for chocante,
investigue, procure a fonte original — notícias verdadeiras e relevantes
aparecem em veículos de credibilidade (não apenas em grupos de WhatsApp).
Temos menos de quatro meses para nos
preparar. A democracia brasileira já enfrentou muitos desafios. Este é
invisível, veloz e personalizado para cada bolha. Defendê-la pede controle
social.
*Dora Kaufman, professora na PUC-SP e colunista da Época Negócios, é autora do livro “Desmistificando a inteligência artificial”

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