quinta-feira, 4 de junho de 2026

Afagos e pontapés, por William Waack

O Estado de S. Paulo

Lula mal cabe em si no papel de que mais gosta, o de grande estadista mundial, no qual sua torrente incessante de palavras contrasta com seus efeitos práticos – ou seja, a capacidade de realizar o que diz. Mas é o papel que seus adversários insistem em dar-lhe de presente.

Jair Bolsonaro nunca teve inteligência estratégica, vide onde foi parar. Seus dois filhos conseguem ser piores. Enxergam em Donald Trump uma espécie de Guia Genial da superpotência americana, cuja condição de hegemonia planetária ele se empenha em diminuir.

Em relação ao Brasil, porém, os interesses de Trump estão definidos. Somos um tipo de peão fornecedores de commodities, especialmente as de importância geopolítica, e irritantes cerceadores das atividades de empresas americanas (ênfase no setor financeiro e digital) que precisam ser disciplinados.

Via coerção política, comercial e, potencialmente, através de ferramentas financeiras. Coerção militar não se vislumbra nem de longe neste momento, mesmo com a classificação de organizações criminosas brasileiras como terroristas, em parte pelos próprios militares americanos não verem nenhuma utilidade nisso.

São chicotes poderosos que causam prejuízos à economia brasileira, empurram o Brasil do ponto de vista geopolítico a ter de tomar uma decisão binária (China ou EUA) e tentam condicionar decisões domésticas políticas brasileiras aos humores de Trump e seus interesses do momento – para os quais ele não diferencia entre Lula e os Bolsonaros.

O problema é que os irmãos Bolsonaros encaram pontapés como afagos, e cotovelada na boca como cafuné. Suas manifestações de fé profunda na sabedoria de tudo o que Trump faz e a disposição de se alinhar a qualquer coisa que ele diga são uma manifestação explícita de crassa ignorância do básico do básico nas relações internacionais (potências não têm amigos, só interesses).

E superestimam a capacidade da bolha que dirigem de se sobrepor ao que é “atávico” no comportamento de grande parte dos países, não importam época e continente. Não é necessário ser xenófobo para repelir interferências externas de qualquer tipo. Nesse sentido, Lula se beneficia de algo que ele nem sequer precisou criar: uma grande indignação de quem se sente tratado a coices.

Lula sempre confundiu suas posturas ideologizadas com “interesses nacionais”, e o clã Bolsonaro repete a fórmula com sinal inverso. Como o Brasil carece de qualquer “projeto nacional” de aceitação ampla – ou conduzido por elites com um mínimo de empenho nisso –, a palavra “soberania” acaba sendo empregada à vontade pelas duas bolhas sem que tenha qualquer significado prático além de possíveis vantagens na luta eleitoral.

Em algum momento vai doer bastante ser chutado do berço esplêndido.

 

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