O Globo
É verdade que algumas, isoladamente, não são
um ato contra o Brasil. É o caso das tarifas de 12,5% para quem importa
mercadorias de locais que usam trabalho forçado
As últimas 48 horas esfriaram a relação, que parecia caminhar pelos trilhos da racionalidade, entre Brasil e Estados Unidos. Depois da insensatez da Lei Magnitsky e afins, promovida pelo escritório avançado do bolsonarismo em Miami, Lula e Trump puseram as coisas nos eixos e passaram a negociar uma pauta comercial concreta. Na reunião entre eles em Washington, em maio, o Brasil dizia cobrar dos americanos tarifa média de 2,7%, e os americanos rebatiam dizendo que era cerca de 12%. Uma divergência dentro das regras do jogo. Lula e Trump mandaram suas equipes ir para casa resolver a pendenga, e tudo parecia correr bem. Até que a conversa descarrilou.
Em dois dias, os Estados Unidos anunciaram
uma série de medidas negativas para o Brasil que, lidas em conjunto, sugerem
uma mãozinha para a oposição nas eleições de outubro. É verdade que algumas,
isoladamente, não são um ato contra o Brasil. É o caso das tarifas de 12,5%
para quem importa mercadorias de locais que usam trabalho forçado. A lista tem
60 países, e a taxação foi uma resposta de Trump à decisão da Suprema Corte de
derrubar a tarifa global de 10%. Não tem a ver com os Bolsonaros. Horas antes
dos 12,5%, veio o anúncio do escritório de comércio americano de tarifar o
Brasil em 25%. A decisão ocorreu antes mesmo de as conversas entre as equipes
técnicas, a mando de Lula e Trump, serem encerradas. Quem entende das
negociações vê aí estratégia de Trump para negociar os dois pontos que
realmente interessam a ele mais que os Bolsonaros: terras-raras e comércio
digital.
Outros fatores, no entanto, são
indiscutivelmente sinais de interesse na eleição de outubro. É o caso da
indicação, neste momento, de um novo embaixador no Brasil ligado ao Maga (desde
Biden os Estados Unidos estavam sem alguém no cargo) e da divulgação da foto de
Trump com Flávio Bolsonaro. O fator de maior evidência, porém, foi a declaração
de Marco Rubio, segundo a qual o Brasil não está na lista de aliados dos
americanos. Rubio torce o nariz para o governo brasileiro mais que Trump, que
demonstrou ter simpatia por Lula. Potencial candidato a presidente em 2028, ele
tem uma visão intervencionista sobre a região, e o seu Departamento de Estado
se tornou uma trincheira do bolsonarismo. O número 2, Christopher Landau, e o
conselheiro do órgão para Brasil, Darren Beattie, não têm como interlocutores a
embaixadora brasileira, Maria Luiza Viotti, mas Eduardo Bolsonaro e Paulo
Figueiredo.
Beattie já disse que Lula representava o
comunismo e endossou suspeitas infundadas sobre as urnas na eleição de 2022.
Seu visto para entrar no Brasil foi negado quando pretendia visitar Jair
Bolsonaro na prisão. Jason Miller, ex-assessor de Trump, também engrossa o coro
dos descontentes. Em 2021, chegou a ser detido pela Polícia Federal no
inquérito das fake news. Num contexto desfavorável para o Planalto, Lula foi
para cima e chamou Rubio de “latino-americano frustrado”, o que, vamos
combinar, não ajuda a pôr as coisas de volta nos trilhos.
Nesta semana, Trump declarou apoio ao
candidato de extrema direita na Colômbia. Pelo andar da carruagem no
Departamento de Estado, tem mais por vir.

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