O Globo
Há muitas digitais nas taxações impostas
pelos Estados Unidos ao Brasil. O candidato do PL tenta, em vão, se
desvencilhar
A sucessão dos eventos deixa claro que essa nova guerra tarifária está vinculada à família Bolsonaro e ao lobby feito por eles. O presidente Donald Trump, antes de anunciar o primeiro ataque, em julho do ano passado, acusou o Brasil de estar fazendo uma suposta “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro. Na época, Eduardo Bolsonaro poescreveu em rede social: “Obrigado presidente Donald J. Trump”. Nesta semana, entre o primeiro e o segundo anúncio de sanções contra o Brasil, Trump postou a foto do encontro com Flávio Bolsonaro. Há muitas digitais. O candidato do PL tenta, em vão, se desvencilhar.
Esta semana foram feitos dois anúncios de
possíveis tarifas. Os percentuais se somam. Na investigação da seção 301 em que
o resultado preliminar foi anunciado na terça-feira, os setores econômicos
brasileiros serão taxados em 25%. Na de quarta-feira, uma cobrança de 12,5%. Em
resumo, as duas medidas ficam em 37,5%. Como a Justiça considerou ilegais as
tarifas do ano passado, Trump quer recriar o muro tarifário, mas agora através
da Lei do Comércio.
Os negociadores brasileiros relatam que nos
doze meses, desde que a primeira investigação começou, até agora, já foram
feitas inúmeras reuniões, consultas e apelos. O governo apresentou resposta
para cada uma das alegações. Desmatamento está em queda para o menor nível em
38 anos, as tarifas do etanol podem ser negociadas, a pirataria está sendo
combatida, a corrupção vem sendo enfrentada com muitas operações da Polícia
Federal e outros órgãos de controle. Sobre o Pix, a resposta é que se trata de
uma inovação financeira. No ponto sobre acordos de preferência, o Brasil
respondeu que o comércio com a Índia é bem pequeno e, com o México, o grande
acordo envolve preferências no comércio de automóveis, inclusive de empresas
dos Estados Unidos instaladas naquele país.
Ontem, veio o resultado de mais uma
investigação, só que agora atinge 60 países. A acusação é a de que não há no
país legislação eficiente para impedir a importação de produtos que tenham sido
fabricados em outros países com o uso do trabalho forçado. O Brasil mostrou que
tem aqui uma legislação forte com a qual tem tentado eliminar o problema. Há,
sim, trabalho forçado, mas o país tem sido citado como exemplo no combate a
este problema. Neste caso, estamos com outros 58 países e mais a União
Europeia. Entre os que respondem a essa investigação estão a Noruega e o Japão.
Uma acusação tão genérica, a tantos países, não é séria.
A economia brasileira tem sido afetada por
esta tempestade tarifária trumpista. Setores deixam de exportar, perdem
mercado, nossas exportações encolhem, empresas têm dificuldades, empregos não
são criados. O que tem amenizado é a grande competência com que setores e
empresas têm atuado para procurar outros mercados e negociar com seus clientes
nos Estados Unidos. No ano passado, o comércio entre os dois países diminuiu e,
de janeiro a maio deste ano, comparado com o mesmo período de 2025, as vendas
para os norte-americanos caíram 16%.
Há muitas irracionalidades. O setor de
máquinas e equipamentos, que não está na lista de exceções, terá que pagar 25%
a mais para entrar nos Estados Unidos se for confirmada a tarifa anunciada na
terça-feira. O
presidente da Abimaq, José Velloso, explicou à jornalista Ana Carolina Diniz
que 82% das exportações brasileiras para os Estados Unidos são negócios
intercompany. “Ou seja, empresas americanas que investiram no Brasil, ou
empresas brasileiras que investiram nos Estados Unidos, não faz sentido (a
taxação)”, disse Velloso. Não faz mesmo sentido algum.
As tarifas contra o Brasil foram, desde o ano
passado, uma reivindicação dos filhos de Jair Bolsonaro, na suposição de que o
governo Lula estaria sendo punido. É preciso poucos neurônios para entender que
isso afeta o país, a economia, as empresas e os empregos. Um ano depois da
primeira onda, começa a segunda onda tarifária e desta vez Flávio Bolsonaro diz
que ele pediu que “as empresas não fossem tarifadas”. Agora é tarde para alegar
isso. Os outros pré-candidatos da direita, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, culpam
o governo Lula. Segundo Caiado, o Itamaraty não está trabalhando bem. É falso,
o Ministério das Relações Exteriores tem atuado intensamente para reverter os
estragos dessa lamentável politização do comércio exterior por parte do
presidente Donald Trump.

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