O Estado de S. Paulo
O Brasil que muita gente conhece, mas o ‘Dark Horse’ dos Bolsonaro não conta
Essa gente é realmente criativa, muito
engenhosa, tanto para botar a mão no dinheiro, seja público, seja sujo, quanto
para disfarçar a sua trajetória e, no fim das contas, negar o seu destino.
Entram, nessas operações, resorts, contratos, filmes, ONGs, bancos, empresas
fantasmas, laranjas, fundos de pensão e, numa frequência assustadora, emendas
parlamentares.
Um exemplo fresquinho une dois personagens curiosos: Mário Frias, deputado do PL, ex-secretário de Cultura no governo Bolsonaro e produtor executivo e roteirista do filme Dark Horse, e Karina Ferreira da Gama, sócia da produtora Go Up, responsável pelo filme, e dona de uma ONG com o sugestivo nome de Instituto Conhecer Brasil (ICB). Conhece mesmo!
É nesse Brasil que o ministro Dias Toffoli
mete os irmãos no meio de uma estranha sociedade num resort que tem a ver com o
Banco Master, a família do também ministro do STF Alexandre de Moraes tem
contrato de R$ 134 milhões com o mesmo Master e uma grande amiga do filho do
presidente da República, o Lulinha, Roberta Luchsinger, recebe remessas de
dinheiro do “Careca do INSS”.
Segundo as investigações policiais, que
caminham a galope para o Dark Horse, o deputado Frias enviou uma emenda de R$ 1
milhão para um projeto de letramento digital e empreendedorismo em Pirassununga
(SP) e a intermediadora foi justamente a ONG de Karina. A grana saiu dos cofres
públicos, mas nunca chegou ao seu destino.
No meio do caminho, ou até antes, parte do
valor foi para um advogado do próprio Frias e, oficialmente, para livros
didáticos que viraram fantasmas, nunca foram entregues e não se sabe onde foram
parar. Evaporaram, junto com o dinheiro da emenda.
No mesmo bolo, a Prefeitura de São Paulo
destinou mais de R$ 100 milhões para a ONG que “conhece o Brasil” instalar 5
mil pontos de Wi-Fi na cidade. Assim como a Go Up nunca produziu um filme até o
milionário Dark Horse, a ONG de Karina também nunca implantou um único ponto de
Wi-Fi até o contrato paulistano.
A moça, portanto, tem muita sorte. Ou tinha, até a Polícia Civil de São Paulo bater à porta dos endereços dela, da sua ONG e das suas empresas, neste 1.º/6, para entender o que chama de “confusão patrimonial”.
Karina, Mário Frias (um secretário de Cultura que fazia apologia de fuzis), a tal ONG, a Go Up e a Prefeitura de Ricardo Nunes vão desaguar no Dark Horse, para o qual Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, do Master, e Eduardo Bolsonaro reivindicou “o máximo” para os EUA, onde mora. Todos eles conhecem bem o Brasil e sabem como tirar proveito, mas isso o filme não conta.

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