O Estado de S. Paulo
Boas escolhas podem levar ao avanço das
condições de vida e dos indicadores econômicos e sociais, ainda que muitas
mazelas persistam
O êxito com que certos brasileiros, em viagem político-eleitoral ao exterior ou ali homiziados, agem contra o Brasil chega a dar a sensação de que este país está sem rumo e não parece preocupado em reencontrá-lo. Alguns até desejam, sem compreender a extensão dos riscos à segurança institucional e à soberania nacional de seus desejos, que potências estrangeiras invadam o País para resolver problemas que, na sua opinião, os brasileiros não sabem resolver.
Avanços econômicos ou sociais nunca serão suficientes para parte da população que parece descrente do futuro do Brasil. A qualquer melhora, sempre será possível contrapor um fato negativo, um dado ruim, uma situação precária que a desminta ou a torne quase nada. E aos descrentes, ou aos que querem semear a descrença, argumentos, de fato, não faltam. Mas essa não é a única maneira de enxergar o mundo.
Soou pouco relevante a informação divulgada
na semana passada de que, pela primeira vez, o Brasil alcançou o nível de
desenvolvimento muito alto medido pelo Índice de Desenvolvimento Humano
Municipal (IDHM), calculado pelo Programa das Nações Unidas para o
Desenvolvimento (Pnud) Brasil. É um fato extraordinário, que mostra um país em
que as condições de vida melhoraram muito entre 2012 e 2024.
O IDHM baseia-se na expectativa de vida, nos
anos de escolaridade e na renda da população. Varia de zero a um e, quanto mais
próximo do nível máximo, melhor a qualidade de vida. Em 2024, o Brasil alcançou
0,805, ante 0,798 em 2023.
O gráfico da evolução anual do IDHM é uma
espécie de síntese econômica, social e política do período. Nos anos iniciais,
há uma nítida e contínua elevação, de 0,744 em 2012 até 0,782 em 2019, primeiro
ano do governo Bolsonaro. Em 2020, o Brasil e o mundo foram assolados pela
pandemia da covid-19, razão pela qual o IDHM baixou para 0,776.
No gráfico, vê-se nitidamente uma letra “V”,
com vértice em 2021, quando o IDHM ficou em 0,757. Boa parte da queda deveu-se
ao impacto da pandemia, mas é preciso lembrar que outra parte foi consequência
da maneira desastrosa como o governo do presidente Jair Bolsonaro tratou do
grave problema de saúde. Se o governo tivesse agido com presteza e competência,
o Brasil não teria registrado cerca de 700 mil mortes por causa da pandemia.
De maneira indireta, essa péssima atuação do
governo brasileiro na pandemia foi lembrada pela coordenadora da Unidade de
Desenvolvimento Humano do Pnud Brasil, Betina Barbosa, ao se referir à negação,
por Bolsonaro, dos riscos que a pandemia traria para o futuro. “Essa negação e
esse não envolvimento rápido com a criação de políticas públicas que combatam
crises sistêmicas é muito grave”, disse ela. “Ainda não nos recuperamos aqui,
em termos de esperança de vida, do baque da covid-19.”
Mas, mesmo sem ter recuperado a evolução da
expectativa de vida de antes da pandemia, o Brasil melhorou substancialmente em
termos de IDHM nos últimos anos. Betina Barbosa destacou que um dos componentes
do índice que avançaram foi o da educação, que passou de 0,679 em 2012 para
0,798 em 2024. “É o programa Bolsa Família que retira quantidade enorme de
crianças do trabalho e dá a elas a condição da escolaridade e a
obrigatoriedade, também, de estar na escola. Então, aqui vejo o efeito de uma
política pública brasileira”, disse.
Pessoas de grande influência por sua presença
nos meios de comunicação ou no cenário político e empresarial veem poucos
efeitos positivos nos programas sociais do governo, por isso sempre pedem sua
revisão, a redução de seus recursos e do público beneficiado, ou mesmo sua
extinção, pois estariam criando maus cidadãos desacostumados ao trabalho. Mas,
como mostrou a pesquisa da Pnud Brasil, esses programas abrem caminho para que
mais brasileiros progridam por seus próprios meios.
É claro, como apontam os críticos desses
programas e os descrentes da possibilidade de o Brasil ter um quadro social
melhor, que o cenário apresenta muitos pontos negativos. O abismo social
continua imenso. Mesmo quando a renda média sobe, como tem subido, a
desigualdade social se mantém ou se amplia, pois quem ganha mais vem tendo
ganhos de renda maiores do que os que ganham menos (ver o artigo Menos pobre,
mais desigual, Estadão, 5/5). Estudos têm mostrado isso. O mais recente é o de
Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas.
Escolhas do eleitor podem aumentar o ritmo da
melhora de alguns indicadores – ou diminuir. Entre 2019 e 2022, por exemplo, às
consequências da pandemia somaram-se imprevidência, irresponsabilidade e
incompetência dos gestores escolhidos pelo presidente eleito em 2018, com
efeitos altamente danosos para o IDHM. Boas escolhas podem levar ao avanço das
condições de vida e dos indicadores econômicos e sociais, ainda que muitas
mazelas persistam. Não dá para resolver tudo ao mesmo tempo, mas é sempre
possível avançar.

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