Folha de S. Paulo
Flávio Bolsonaro identificou que
endurecimento no combate ao crime é ponto fraco de Lula
Consequências de classificação de CV e PCC
como terroristas dependerão de governo Trump
Em julho de 2025, depois de lobbying de Eduardo
Bolsonaro, o governo Trump anunciou um tarifaço de 50% contra o Brasil bem
como sanções contra autoridades brasileiras. No momento do anúncio, Eduardo
Bolsonaro comemorou efusivamente. Dias depois, já estava claro que o ato de
agressão contra o Brasil não era positivo, e sim embaraçosamente negativo para
seu grupo.
Em maio de 2026, depois de lobbying de Flávio
Bolsonaro, o governo Trump anuncia que passará a designar PCC e CV como
organizações terroristas. Flávio e seus colegas celebram efusivamente. A
pergunta se impõe: estaremos diante de outro erro bolsonarista?
Num primeiro momento, é uma inegável vitória para ele. No difícil campo da relação
com Trump — que tem sido ruim para os Bolsonaro —, ele identificou o tema que é
o ponto fraco de Lula: o
endurecimento no combate ao crime. A postura do governo de se opor à classificação
de terrorismo fica parecendo relutância em enfrentar o crime organizado,
enquanto a posição da direita mostra determinação.
O próprio Lula admite em sua nota-resposta que as facções "praticam o
terrorismo". Sendo assim, a insistência de que não podem ser definidas
como organizações terroristas vira um preciosismo escolástico. Por que não
incluir as facções que praticam o terror? Países como o Equador se adiantaram
aos EUA, classificando as próprias gangues como terroristas antes mesmo que o
governo americano o fizesse. Hoje, têm apoio de inteligência e militar para
combater seus cartéis de droga.
Lula cita o caráter inegociável da soberania brasileira, no que está certo. Mas
existe soberania quando grupos armados dominam territórios no Rio de Janeiro e
atuam desimpedidos na Amazônia? Não seria o caso de acolher a cooperação
americana não só no combate aos crimes financeiros, mas também no apoio militar
de enfrentamento das facções?
A evidência preliminar de que o preço da cocaína aumentou depois do anúncio—
segundo afirmado pela desembargadora Ivana David em entrevista— indica que o
mercado negro entende que a entrada e venda de drogas no país ficará mais
restrita; ou seja, que a vida das facções ficará mais difícil. Isso é bom
sinal.
Ao contrário do tarifaço, que é inequivocamente ruim para o Brasil, o anúncio
atual pode ser bom ou ruim. Não há grandes efeitos automáticos. Tudo dependerá
de como o governo Trump quererá usar essa ferramenta em nossa relação.
Ironicamente, se ele a tratar como arma política para interferir em nossas
eleições— por exemplo, com sanções indiscriminadas contra nosso sistema
financeiro—, isso será mais um tiro no pé americano, que aliás tem o pé gelado
quando tenta ajudar candidaturas pelo mundo.
Ou ele está buscando mais casos de sucesso para ter o que mostrar em casa?
Nesse caso, o efeito pode ser positivo. A segurança é apontada como a principal
prioridade dos eleitores. Por mais que os índices de homicídio tenham
melhorado, o clima de insegurança está insuportável. É amplamente noticiado que
CV e PCC só aumentaram seu poderio nas últimas décadas. Algo tem que acontecer.
O governo Lula acertou ao buscar a cooperação americana no combate à lavagem de
dinheiro. A recusa intransigente da cooperação americana também nessa esfera
mais dura do combate ao crime lhe deixou vulnerável.

Nenhum comentário:
Postar um comentário