O Estado de S. Paulo
O governo Trump confirmou na quarta-feira o
tarifaço de 25% sobre as exportações do Brasil aos Estados Unidos.
Duas circunstâncias chamam a atenção.
Primeira, o fato de ter sido adotado contra um país deficitário em comércio
exterior com os Estados Unidos, ou seja, que importa mais do que exporta. Por
aí se vê que essa troca de mercadorias, em vez de prejudicar, beneficia a balança
comercial dos Estados Unidos. Segunda circunstância, a definição de uma longa
lista de exceções ao que pretende ser uma represália à política do Brasil.
São aspectos que confirmam o diagnóstico de que foi uma decisão destituída de fundamentação técnica.
O comunicado do USTR, o organismo ligado à
presidência dos Estados Unidos, que dirigiu o processo, deixa em aberto a
possibilidade de revisão dessas exigências, desde que o governo brasileiro faça
concessões, que provavelmente não estão concentradas na área comercial. A
aceitação ou não dessas pretendidas concessões também deve ter natureza
política.
A primeira reação do presidente Lula foi
acenar com a aplicação da lei de reciprocidade, o que implicaria responder com
represálias. É também o que os empresários brasileiros mais prejudicados
reivindicam, sob o argumento de que seria a única maneira capaz de sensibilizar
o governo norteamericano em direção à revogação ou ao abrandamento dessas
sanções. Mas essa pode não ser a melhor opção. Apesar da “boa química”, as
relações entre os presidentes Lula e Trump estão prejudicadas por cargas
ideológicas antagônicas.
Do ponto de vista macroeconômico, o tarifaço
não parece causar consequências graves. A reação moderada do mercado
financeiro, principalmente a do comportamento do câmbio e da Bolsa, confirma
essa impressão. Em parte, as empresas brasileiras mais prejudicadas esperavam
pela pancada e trataram de apará-la previamente. Por sua vez, esta pode ser uma
boa oportunidade para aumentar a diversificação do mercado externo do Brasil e,
assim, reduzir a dependência do mercado dos Estados Unidos.
Para uma reação mais realista, a questão
central continua a ser o excessivo protecionismo do Brasil ao setor produtivo
local – e este não é um vício apenas dos governos de esquerda. Proteção demais
tira capacidade imunológica de qualquer organismo. E, do ponto de vista
econômico, tira capacidade de negociação.
O governo brasileiro não controla as
idiossincrasias do governo dos Estados Unidos, mas pode contribuir para o aumento
da competitividade do setor produtivo brasileiro.

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