O Globo
Governo dos EUA aplicou taxa de 25% sobre
exportações brasileiras, com exceções
O ministro das Relações Exteriores, Mauro
Vieira, afirmou nesta quinta-feira que o secretário de Estado dos Estados Unidos,
Marco Rubio, ataca o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva de "forma grosseira e arrogante" em declarações
"inaceitáveis". Nas suas redes sociais, Rubio acusou Lula de "não
negociar com os EUA de boa-fé".
De acordo com Vieira, desde o início das negociações o governo brasileiro buscou manter o diálogo com Washington. Ele afirmou que, desde março de 2025, foram realizadas mais de 30 reuniões presenciais, virtuais e por telefone entre autoridades dos dois países, em níveis presidencial, ministerial e técnico.
— Desde o primeiro momento o presidente Lula buscou
dialogo e enfatizou sua disposição de negociar. As declarações do Secretário de
Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito
das tarifas adotadas contra o Brasil são
inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros— disse Vieira,
ressaltando que só com Rubio e o representante de comércio dos EUA, Jamieson
Greer, foram 11 contatos, incluindo o encontro entre Lula e o presidente Donald Trump na
Casa Branca:
— Rubio ataca, de forma grosseira e
arrogante, o chefe de Estado de um país amigo.
O ministro ainda disse que a investigação
conduzida pelos Estados Unidos com base na Seção 301 é um procedimento
unilateral e contestou os argumentos
apresentados por Washington para embasar a adoção da tarifa de 25%
imposta sobre produtos brasileiros. A medida, confirmada pelo governo de Donald
Trump na noite de quarta-feira, entra em vigor no dia 22 de julho.
— As investigações da Seção 301 são
procedimentos unilaterais do governo dos Estados Unidos e não há justificativa
para a adoção de tarifas contra os produtos brasileiros.
O titular da diplomacia brasileira lembrou
ainda que, após a carta do presidente Trump ao presidente Lula, de 9 julho de
2025, as tarifas foram elevadas a 50%.
'Interferência' no Judiciário
O chanceler relembrou que, após a carta
enviada pelo presidente Trump ao presidente Lula, em julho de 2025, as
tarifas foram elevadas de 10% para 50%, em uma decisão que, segundo ele, teve
"expressa motivação política", por conta do processo contra
ex-presidente Jair Bolsonaro.
– (Foi) expressa motivação política, em
tentativa de interferência no Poder Judiciário brasileiro. E foi justamente
nessa carta, em que o presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%,
caso o processo contra o ex-presidente da República não fosse imediatamente
interrompido, que foi dada a instrução ao Representante de Comércio dos Estados
Unidos para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil
Ele ainda sustentou que o governo brasileiro
participou da investigação aberta pelos Estados Unidos, apresentou duas defesas
formais e enviou uma delegação de alto nível a Washington para consultas sobre
o caso. Ainda assim, disse que a decisão americana ignorou os argumentos
apresentados pelo Brasil.
Em sua avaliação, "não houve
racionalidade" na aplicação das tarifas. O ministro também rebateu as
críticas feitas pelos Estados Unidos ao Pix e à política ambiental brasileira.
— Não é sério falar em competição desleal
gerada pelo Pix. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo
Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam
no Brasil — afirmou.
Sobre as acusações relacionadas ao
desmatamento, o chanceler classificou as alegações como "absurdas" e
disse que o país reduziu significativamente a devastação da Amazônia e do
Cerrado desde 2022. Vieira também afirmou que os argumentos apresentados por
Washington para justificar as sanções comerciais não correspondem aos fatos.
— Todas as alegações dos americanos para
justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade — declarou.
Na madrugada de hoje, o governo
divulgou uma nota em que classificou a decisão americana como “unilateral”,
“ilegal” e “arbitrária” e afirmou que o dia 15 de julho “passará para
a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável”.
No comunicado, assinado pela Secretaria de
Comunicação Social da Presidência, o Planalto informou que “iniciará
imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de
Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional” e que retomará
o tema no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do
Comércio (OMC).
A reação brasileira, segundo a nota, se
organizará em três frentes: a diversificação de mercados — com prioridade para
a implementação dos acordos do Mercosul com a União Europeia, a Efta e
Singapura e negociações com parceiros como México, Canadá, Japão e Índia —;
medidas de socorro às empresas afetadas, por meio do Plano Brasil Soberano; e o
acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica, que autoriza o Brasil a adotar
contramedidas a barreiras comerciais consideradas injustificadas.
O governo também rebateu, ponto a ponto, as
justificativas da investigação do Escritório do Representante de Comércio dos
EUA (USTR), baseado na Seção 301 da lei comercial americana. A nota classificou
como “descabidas” as alegações contra o Pix e a regulação de plataformas
digitais, e como “absurdas” as acusações relacionadas ao desmatamento.
Como argumento contra a tese de práticas
comerciais desleais, o Planalto citou estatísticas do próprio governo
americano: um superávit de US$ 424,5 bilhões dos EUA no comércio de bens e
serviços com o Brasil nos últimos 15 anos, além do dado de que, em 2025, 76%
das importações de origem americana entraram no país sem pagar imposto de
importação, com alíquota média efetiva de 3,1%.
A nota trouxe ainda uma ofensiva política
direta contra a família Bolsonaro, acusada de "ativa colaboração" com
o desfecho da investigação americana.
"São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros", diz o texto.

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