domingo, 12 de julho de 2026

Em nome do pai, por Dorrit Harazim

O Globo

Há, no caso dos filhos de Netanyahu, apenas a inconveniência de um sobrenome atrelado a um incômodo chamado Gaza

Na semana passada, o diário israelense Haaretz apurou que o filho mais velho do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu havia formalmente trocado de sobrenome em algum momento dos últimos 18 meses. Em sua declaração de Imposto de Renda de 2024, ele ainda era Yair Netanyahu, enquanto documentos fiscais de 2026 já o listam legalmente como Yonatan Hon.

Não terá sido o primeiro da linhagem. Seu avô paterno fez parte do movimento sionista que migrou da Europa para a Palestina sob o Mandato Britânico no início do século XX. Adotou um sobrenome hebraico para enfatizar o enraizamento na terra prometida. Líderes históricos como David Ben-Gurion, que nascera na Polônia como David Grün, o também polonês Shimon Peres, nascido Szymon Perski, a ucraniana Golda Meir, ex- Mabovitch, e tantos outros optaram pela reidentificação sionista. Data daquela época, e pelos mesmos motivos, a conversão do polonês Mileikowsky em Benzion Netanyahu, avô de Yair.

Uma geração depois, também o pai de Yair trocou de identidade por uns tempos. Foi em meados dos anos 1980, enquanto se formava em arquitetura no Massachusetts Institute of Technology. À época, o futuro primeiro-ministro de Israel adotou o nome curto e simples Ben Nitai. Explicou o motivo prático: pensava em estabelecer residência nos Estados Unidos, e “Netanyahu” era simplesmente impronunciável para monoglotas americanos.

Pano rápido para a geração seguinte de Yair, um dos dois filhos homens de Netanyahu (a filha Noa, de 48, é de um casamento anterior do pai). O caçula Avner, de 31 anos, foi o primeiro a descartar legalmente o sobrenome ilustre que outrora lhe rendeu mais privilégios que agruras. Segundo o Haaretz, a mudança foi legalizada cinco anos atrás, quando Avi Segal, seu novo nome, adquiriu um apartamento na Inglaterra por £ 502 mil em dinheiro vivo. Explicou mais tarde que motivos de segurança para prosseguir estudos acadêmicos no exterior o induziram ao anonimato. Causou pouco ruído. Àquela altura, o sobrenome ainda não estava incontornavelmente acoplado ao aniquilamento da vida palestina em Gaza.

Não é o caso atual do primogênito Yair, notório encrenqueiro que até poucos meses atrás morava em Miami e nunca se apresentou nem foi convocado como reservista para as múltiplas frentes de guerra israelenses abertas desde o fatídico 7 de Outubro. Yair, que continua no exterior, já foi suspenso no Facebook por 24 horas pela publicação de conteúdo islamofóbico, em 2018 — mesmo ano em que saiu de fininho do Hotel Hilton de Copacabana sem pagar uma conta de R$ 9.820. Devia seu viver de playboy mimado e impune ao sobrenome acoplado ao poder do pai.

Ironias da História: o mesmo sobrenome abre-portas se tornou incômodo, virou ônus, até tóxico em alguns círculos do planeta. E o herdeiro tratou de se desfazer dele. Como é sabido, sobre Benjamin Netanyahu há um pedido de prisão por crimes de guerra e crimes contra a humanidade, emitido pelo Tribunal Penal Internacional, em Haia. Há também todo um cipoal de complicações jurídicas e políticas envolvendo a família, além de três investigações por corrupção contra o primeiro-ministro à espera de julgamento em Israel.

A História está coalhada de casos de distanciamento público ou privado do sobrenome familiar quando este carrega forte estigma político ou criminal. Caso clássico é William Patrick Hitler, sobrinho do Führer que levou o mundo a extremos de desumanidade. Portador de sobrenome tão universalmente infame, o sobrinho trocou-o ao emigrar para os Estados Unidos ainda durante a Segunda Guerra, de que participou junto às tropas aliadas. Niklas, o filho do governador nazista da Polônia ocupada, dedicou a vida a publicar obras de confronto direto com a herança do pai. Na nossa vizinha Argentina, onde os horrores da ditadura militar continuam a ser desenterrados, julgados e condenados (apesar das pretensões do presidente Javier Milei de reescrever a História), são vários os descendentes de torturadores a romper publicamente com o vínculo familiar. Na maioria dos casos, são mulheres. Ana Rita, filha do algoz Valentín Pretti — “não quero ser herdeira desse horror” —; Analia, filha do ex-policial Eduardo Kalinec, também rompeu publicamente com a filiação; Mariana descreveu o pai torturador Miguel Etchecolatz como “monstro”; há descendentes de torturadores organizados em coletivos para encontrar seu lugar social. Fizeram uma escolha dificílima, muitas vezes dilacerante.

Não é o caso dos filhos de Netanyahu. Não há dissonância nem rejeição aos atos e decisões do pai como comandante das Forças de Defesa de Israel. Há, apenas, a inconveniência de um sobrenome atrelado a um incômodo chamado Gaza. Segundo comentário de Yair que motivou seu bloqueio no Facebook, a única maneira de haver paz entre árabes e israelenses seria pela partida de todos os judeus ou de todos os muçulmanos. “Prefiro a segunda opção”, escreveu.

 

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