Por outro lado, como sempre, deixa um rastilho de perdas irreparáveis: acusações de roubo de resultados, juízes omissos. atletas lesionados, frustrações nacionais e pessoais, entre jogadores e torcedores. Um prejuízo enorme na área dos comércios internos de produtos iconográficos que alimentavam esperanças de vitórias entre colombianos, paraguaios, marroquinos, tunisianos, iranianos, sauditas, ganeses, sul-africanos, egípcios e brasileiros. A Europa venceu mais uma vez.
“Foi para isso que nos chamaram para vir aqui!”, lamentou o técnico do Marrocos, ao analisar os resultados e as arbitragens dos jogos de 2026 nos EUA. A nota dissonante coube ao Presidente dos EUA, Donald Trump ao tentar intervir na Fifa para proteger a seleção do seu país. Enfim, trata-se de um evento privado que mobiliza cidadãos no mundo todo, indiferente as ideologias representadas. Serve, entretanto, para encobrir crises internas, guerras, como na Ucrânia, no Irã e em alguns países da África central.
A Copa de 1970, no México, vencida pelo Brasil, me faz lembrar o jornalista Fernando Gabeira, preso e torturado pelo regime militar e que, no Jornal do Brasil, criara a “contextualização histórica da notícia”. Conta ele que nos dias de jogos do Brasil, eles assistiam-nos no presídios e torciam juntos com os guardas do presídio. Logo depois, Gabeira seria banido do País. Fazia parte de um grupo de 40 presos políticos trocados pela liberdade do embaixador sequestrado da Alemanha, Ehrenfried von Holleben.
A Copa do Mundo de Futebol é um evento
esportivo que nada tem de inocente. Envolve política, negócios, medicina,
esportes e muita violência. Na Colômbia, o zagueiro Andrés Escobar, autor do
gol contra que desclassificaria a sua seleção foi assassinado no meio da rua
quando saía de um restaurante.No Camarões, o ex-goleiro Antoine Bell,
em 1994 teve queimada a casa onde morava com sua velha mãe, sob a acusação de
culpa pela goleada sofrida na Copa. Em 2010, torcedores ganeses ameaçaram
queimar a casa do pai de Asamoah Gyan, após o jogador perder um pênalti
decisivo. No Iraque de Sadam Hussein, seu filho,Uday Hussein, presidente
da Federação Esportiva, controlava o esporte submetendo atletas a torturas e
humilhações severas como lição de cidadania. Torcidas como os "hooligans"
da Gran Bretanha ou a do Coríntias no Brasil são temidas. O futebol é cheio de
tensões, paixões internas e, como se vê, até terror.
Para um país que está sempre reivindicando
uma supremacia futebolística no planeta, a Copa do Rio de Janeiro, que resultou
na derrota do Brasil por 7x1 contra os alemães, deixou o País emudecido por
vários meses. Ninguém falava no assunto. Creio mesmo que ajudou a contribuir
para o “impeachment” da presidente Dilma. Na Copa na Alemanha,
unificada, de 2006, a seleção brasileira era composta por atletas com
sucessivos títulos de “melhor jogador do mundo”. Alimentava um ufanismo
extremado prévio, projetado como pronto para a conquista do pentacampeonato. O
Brasil foi eliminado por Portugal ainda nas oitavas... Após o jogo ninguém
conseguia falar com os jogadores. Desapareceram envergonhados, e até
camuflados, depois do Jogo. Cada um tomou um rumo diferente.
Cobri duas Copas (Alemanha, 2006; África do
Sul, 2010) e três Olimpíadas (Atenas, 2004; Pequim, 2008; e Londres, 2012) .
São competições realizadas de quatro em quatro anos e referenciadas pela
imprensa brasileira como momentos de tensão, e até há mídias que insistem
tratar-se de uma “guerra” . Amenizava-se nos Jogos Olímpicos, nos quais os
atletas buscam superar os maiores índices alcançados até então pelo ser humano
em cada modalidade esportiva. O tratamento é bem mais moderado, mas mesmo
assim, insiste-se em dizer que aqueles que alcançavam ou superavam os índices olímpicos
são, ainda, chamados de “super-homens” ou “deuses do Olimpo” (Grécia). E ainda
cobri dois Jogos dos Povos Indígenas (Palmas, 2006 e Recife, 2008). Neles, o
que o branco chama, nas Copas de Futebol, de “guerra”, “disputa”, “competição”
e imprensa olímpica batiza de “super-humanos”, os povos originários veem nos
eventos uma “celebração”: o encontro vários povos originários, de todos os
estados, que ainda não se conhecem. . Cada edição termina com a comemoração
entre os que conseguiram melhores resultados e os que não chegaram lá. De uma
forma ou de outra, cada um reconhece os méritos individuais, e cada povo
procura ajudar e revelar para os companheiros como consegue aquelas marcas. Os
patrocinadores privados são inexistentes.
O futebol é hoje o esporte mais conhecido no
mundo. Ajuda promover uma confiança coletiva, desqualifica preconceitos e as
teorias racistas e discriminatórias, assim se dia. Tira, de fato, muitas
famílias da pobreza e fortalece o caráter identitário dos países. Saltou,
entretanto, dos campos de “peladas” no interior para as grandes transações
comerciais entre clubes e atletas. Gerou um mercado de jogadores no mundo,
transformando humanos em “commodities”. Criou milhares de empregos e introduziu
e produtos de uso pessoal vendidos no mundo inteiro... Tornou-se um negócio
como outro qualquer. Existe uma “Bolsa de Atletas”. A carreira é curta e o
final da vida de um jogador de futebol, sem outra qualificação profissional ou
uma frágil formação escolar, a viver de favor, nas ruas...
Com pouco a oferecer na área da política, o
futebol no Brasil, ao contrário, é supervalorizado como instrumento atração,
filiação e entretenimento do cidadão... Agrega a mobilização de milhões de
torcedores. Fornece uma plataforma capaz de movimentar milhares de pessoas em
campanhas políticas e enterrar fatos delituosos em todos os níveis da sociedade.
Praticamente, ninguém abre mão de ser torcedor de algum time de futebol por aqui.
É um esporte popular: os cidadãos calçam as chuteiras junto com os jogadores,
segundo o escritor Nelson Rodrigues. Durante muito tempo foi mantido pelos
chamados “bicheiros”, donos do “Jogo do Bicho”, que mantinham sob seu controle
clubes, juízes e atletas. Vários políticos em atividade vieram dos campos de
futebol.
Pelo encanto que provoca, o futebol é usado
para realizar eventos caritativos, comemorar feitos, governamentais, desviar a
atenção da corrupção explícita, fazer a população esquecer a inflação, os juros
e o desemprego elevados, os “pendurucalhos” dos ministros do Judiciário.
Esconde e ameniza a culpa de protagonistas reincidentes no campo da política
envolvidos no caso Master, a gastança pré -eleitoral dos 30 partidos políticos
existentes no País e seus dirigentes, as “bondades” seletivas com dinheiro
público, tudo amparado por narrativas e estatísticas voltadas para configurar
um cenário pré-eleitoral e amparar um modelo polarizado num segundo turno do
pleito...A conivente presunção de um pentacampeonato mundial acomoda
desconfianças políticas mútuas , e faz desaparecer os transgressores privados
ativos e os passivos de “colarinho branco”. Nessa onda, o “Mister” Ancelotti,”Salvador
da Pátria” passa a navegar.
Tudo se dissolve nas entranhas das elites
nacionais, protegidas por cadeias invisíveis de Poder estruturadas entre
a política, a economia e uma delinquência que corrompe as bases da
institucionalidade e as substituem por práticas viciadas O País parece
estagnado, o cidadão “abestado “ não tem explicações coerentes para o que está
acontecendo. Desfeito o sonho do “penta”, o cidadão vai encarar uma eleição
para escolha de um novo gestor para um País desarrumado: a administração
fragilizada, falta de credibilidade das instituições, a criminalidade se
espalhando, a falta de a credibilidade nas instituições, a vulnerabilidade da
segurança pública, as o descrédito das narrativas e dos próprios candidatos,
esses mesmo responsáveis por esse estado de coisas. Querem voltar. Esse quadro
não oferece nenhuma consistência para a governança pós-eleitoral. Nosso
planejamento de Governo não deixou espaço para esperanças num futuro. Sábio é o
técnico marroquino que, falando em nome dos africanos, indagou o porquê de
terem sido induzidos a participar da Copa do Mundo de Futebol de 2026.
*Jornalista e professor

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