terça-feira, 14 de julho de 2026

Um novo viés bolsonarista, por Eliane Cantanhêde

O Estado de S. Paulo

Se Jair Bolsonaro está com Flávio, problema dele; Michelle tem projeto, é ‘imparável’ e boa de briga

O único motivo da carta manuscrita e pública de Jair Bolsonaro foi desautorizar sua mulher, Michelle, e tomar partido do filho 01, Flávio, a quem chamou de “meu candidato e meu porta-voz”. Após semanas de dúvidas, o ex-presidente foi claro: está com Flávio, contra Michelle.

Imagine-se o ambiente numa casa em que o patriarca está doente, preso, de tornozeleira, e sua mulher rompeu com seus filhos e declarou independência política. E mais: uma casa que, durante 90 dias, vai ficar de portas fechadas para o primogênito, por decisão de Alexandre de Moraes, do STF.

Afora as questões pessoais e familiares, o que de fato interessa são os efeitos políticos. A dois meses e meio das eleições, impressiona todos, e deixa a direita arrepiada, o racha profundo no coração do bolsonarismo, com lances de baixo nível.

Após o vídeo em que se diz maltratada, desrespeitada, humilhada e “tratada como idiota” por Flávio, o que já foi um míssil contra a candidatura dele, Michelle mostra, com palavras e atos, que não ficou nisso. Com script pronto, que libera aos poucos, ela reúne mais munição e não tem limites nessa guerra.

Dos States, o 03, Eduardo Bolsonaro, e o blogueiro Paulo Figueiredo dividem suas energias entre jogar Trump contra o Brasil e empurrar as mulheres contra Flávio. O que esperavam atacando Michelle e suas aliadas pelas redes sociais? Votos femininos?

Depois de Michelle renunciar à presidência do PL Mulher, a senadora Damares Alves (DF), sua grande amiga e aliada, cai fora da campanha e da equipe sobre direitos humanos e assistência social do programa de governo de Flávio. Ela disse que continua com Flávio, mas deixou escapar um “ainda”. Ainda?

Michelle e Damares estão unidas no grupo “Imparáveis”, um novo viés bolsonarista, que mantém o sobrenome mágico, mas sem a confusão dos filhos e a fragilidade política das ex-mulheres do ex-presidente.

Rogéria Bolsonaro, mãe do 01, 02 e 03, perdeu uma eleição para vereadora, depois se lançou à Assembleia Legislativa e desistiu e agora compõe a polêmica chapa majoritária do PL no Rio, como suplente de senador.

Ana Cristina Vale, mãe do vereador Jair Renan, o 04, perdeu três eleições, inclusive em 2022, quando assumiu o nome “Cristina Bolsonaro” e comprou uma bela mansão no bairro mais rico de Brasília, para ter domicílio eleitoral no DF.

Se Rogéria e Ana Cristina não foram longe na política, Michelle se declara “imparável”, é boa de briga e traz para a direita uma velha bandeira da esquerda, contra misoginia e machismo. Além de reacender a pergunta: se Bolsonaro era “outsider” e crítico da política, por que a família inteira disputa mandato?

 

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