Folha de S. Paulo
Há seis anos, desde 2022, o Supremo tenta sem
sucesso impor critério ético aos avanços no Orçamento
A desobediência abusiva de congressistas é
objeto de dezenas de ações em curso no tribunal
Conversando outro dia com experiente figura
da República, deputado destacado na Constituinte, ministro em governos do PSDB
e do PT, hoje no setor privado, ouvi que só há um jeito de levar o Congresso a
cumprir a exigência de transparência no uso das emendas
parlamentares: a prisão de meia dúzia de abusadores do Orçamento
da União.
Falávamos sobre as mudanças nos meios de modos de se fazer política no Brasil, desde o início da abertura, nos últimos dois períodos da ditadura, até hoje quando a arte de negociação para construção de consensos foi substituída por uma era de impasses que se acumulam sem solução.
O interlocutor em tela está longe de ser um
radical, firmou-se na política como negociador na escrita da Constituição, cujo
texto implicou concessões à direita e à esquerda.
A proposta extrema de prisões como freio às
exorbitâncias com recursos em tese destinados ao atendimento de demandas
regionais da população decorre da resistência do acordo proposto em agosto de
2024 em reunião com representantes dos três Poderes na sede do Supremo Tribunal
Federal.
Os termos eram objetivos: não haveria
restrições ao uso das emendas, desde que cumpridos requisitos de transparência
e rastreabilidade inerentes à decisão judicial de 2022, sobre a
inconstitucionalidade do chamado orçamento
secreto.
Pois não só houve o descumprimento, como a
desobediência foi ampliada para novas modalidades de fraude —como a apropriação
das emendas por gente sem mandato parlamentar— e a retomada parcial (ainda) da
destinação de verbas sem identificação.
A hipótese de condenações e prisões não é um
devaneio autoritário. Pode vir a ser consequência do resultado de algumas das
dezenas de inquéritos que correm no STF para apurar ilegalidades cometidas por
deputados e senadores.
Fica, contudo, a dúvida sobre a eficácia
presumida pelo experiente espectador das coisas da política sobre se seria
fator de inibição das práticas obscuras ou o deflagrador de novo impasse entre
os Poderes da República.

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