quarta-feira, 15 de julho de 2026

Visitas vetadas, Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Efeito eleitoral de proibição de contatos entre Flávio Bolsonaro e Jair é ambíguo

Parece lícito afirmar, contudo, que campanha não perde um grande estrategista

Alexandre de Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de visitar Jair por 90 dias. A medida prejudica ou beneficia a campanha presidencial do primogênito? Esse é um daqueles casos em que é possível encontrar argumentos verossímeis para sustentar ambas as alternativas. Se é verdade que a decisão priva o candidato de contato com seu principal avalista político, também é fato que oferece à campanha o discurso da perseguição judicial, para mencionar apenas uma antinomia.

Argumentos adicionais para convencer um bolsonarista raiz de que a família é vítima da "ditadura da toga" até servem para movimentar as redes sociais, mas tendem a afetar pouco o cômputo dos votos. Esse é um cidadão que já votará em Bolsonaro mesmo que o jovem senador venha a complicar-se ainda mais no caso Master e em outros escândalos possíveis.

A questão é menos descobrir qual é a resultante de todos os impactos imagináveis da proibição e mais tentar aferir se e como a medida afetará o eleitor nem-nem (nem lulista, nem bolsonarista), ao qual provavelmente caberá definir uma disputa que vai se desenhando como acirrada. E vale lembrar que o próprio eleitor nem-nem se divide em vários subgrupos que podem responder diferentemente a um mesmo evento. O evangélico levemente progressista nem sempre concordará com o moderado com visão liberal da economia. São muitas variáveis e de ajuste muito fino, o que torna arriscadas as tentativas de computar esses efeitos.

Meu palpite é o de que eventuais danos tendem a ser limitados. O principal ativo eleitoral que Jair poderia dar a Flávio, que é o sobrenome, já lhe foi transmitido no nascimento e reforçado mais recentemente com a unção como candidato. Não sei se o ex-presidente tornado presidiário teria muito mais a oferecer. Jair tem carisma, mas tenho dificuldade para vê-lo como um estrategista. Se nem suas interações com objetos têm sido muito exitosas, como vimos nos casos da tornozeleira eletrônica e da Glock, o que não dizer de pessoas, que tendem a ser mais complicadas?

 

 

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