quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Maioria do Supremo condena João Paulo por corrupção passiva

Peluso, que se aposenta, antecipou penas e diz que petista deve perder mandato

O deputado João Paulo Cunha (PT), candidato à prefeitura de Osasco, foi condenado por 8 dos 11 ministros do STF por corrupção passiva e peculato no mensalão. Dois absolveram. Hoje, o presidente Carlos Ayres Britto deve dar o último voto. O ministro Cezar Peluso, que vai se aposentar, antecipou as penas e julgou que o deputado deve perder o mandato em razão da condenação. Oito ministros condenaram João Paulo por corrupção passiva por ter recebido, quando presidia a Câmara, R$ 50 mil de Marcos Valério. A defesa diz que ele não tentará escapar se prevalecer a pena de prisão.

Supremo condena João Paulo Cunha pelos crimes de peculato e corrupção

Hora da sentença. Oito dos 11 ministros consideram deputado culpado nas duas acusações; presidente da Corte dará voto decisivo sobre lavagem de dinheiro; mulher do parlamentar petista sacou R$ 50 mil de conta do "operador" do esquema, Marcos Valério

Felipe Recondo, Mariângela Gallucci

BRASÍLIA - Ex-presidente da Câmara e candidato em Osasco pelo PT, o deputado João Paulo Cunha foi condenado ontem pela maioria do Supremo Tribunal Federal no julgamento do mensalão. Oito dos 11 ministros dizem que ele cometeu os crimes de corrupção passiva e peculato. Dois o absolveram. Hoje, o presidente do STF, Carlos Ayres Britto, deve dar o último voto. A expectativa é de que ele condene o parlamentar. Com isso, será definido se o petista cometeu ou não lavagem de dinheiro.

Em seu último julgamento, Cezar Peluso - que se aposenta na segunda-feira - estipulou penas aos condenados. Elas indicam que a Corte poderá ser severa com os acusados de envolvimento no pagamento de parlamentares no governo Luiz Inácio Lula da Silva. Peluso disse que João Paulo deve perder o mandato de deputado em razão da condenação. Oito ministros o condenaram pelo crime de corrupção passiva por ter recebido, quando presidia a Câmara, R$ 50 mil do "operador" do mensalão, Marcos Valério Fernandes de Souza.

O dinheiro sacado numa agência do Banco Rural pela mulher de João Paulo seria propina para que o então presidente da Câmara favorecesse uma empresa de Marcos Valério, interessado em firmar um contrato superior a R$ 10 milhões com a Casa. Os ministros condenaram o parlamentar por um dos crimes de peculato - apropriação do funcionário público de recursos em razão do cargo - pela execução desse contrato.

Peluso antecipou a dosimetria, que é o tamanho das penas que serão impostas a cada réu. Os demais ministros só definirão as penas no fim do julgamento. Peluso pediu a condenação de João Paulo a seis anos de reclusão em regime semiaberto, por corrupção passiva e peculato. Se também for culpado por lavagem de dinheiro - o placar está 5 a 4 pela condenação -, a pena ultrapassará nove anos e o deputado terá de cumpri-la em regime fechado.

Pelos cálculos de Peluso, Valério seria condenado apenas no primeiro item a 16 anos de reclusão em regime fechado. O empresário, seus sócios Ramon Hollerbach e Cristiano Paz, e o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato foram condenados pelos dez ministros que já votaram. Os três primeiros, por corrupção ativa e peculato e Pizzolato, por corrupção passiva, peculato e lavagem de dinheiro.

Valério, Hollerbach e Paz seriam condenados a 10 anos e 8 meses pelo voto de Peluso e Pizzolato, a 8 anos e 4 meses. A prescrição dos crimes será analisada ao fim do julgamento. O ex-ministro Luiz Gushiken foi absolvido.

Votos. Primeiro a votar ontem, Peluso disse que João Paulo jamais poderia ter recebido dinheiro do esquema de Marcos Valério. O ministro afirmou que reuniões foram realizadas entre o deputado e o empresário na residência oficial e na Câmara - uma delas na véspera do saque de R$ 50 mil. O parlamentar alegou que os dois se encontravam para discutir a situação política no País.

"Um político experimentado - jamais se chega por acaso à presidência da Câmara - teria que conversar com um publicitário sobre a situação política do País? O que estava por trás dessa aproximação e dessas gentilezas ao presidente da Câmara? Não se tratava de uma cortesia ou de um ato de elegância", discordou Peluso. "Apesar do esforço da defesa, a prova evidencia que o dinheiro não teve origem no PT. O valor saiu da conta da SMPB (agência de Marcos Valério)", afirmou o ministro Gilmar Mendes.

"A pergunta que fica é: a que se destinava esse pagamento (R$ 50 mil)? João Paulo disse que era para pagar pesquisas eleitorais. A alegação é absolutamente inverossímil", disse Peluso. "Se era dinheiro recebido do partido, de modo lícito, por que ele disse que a mulher teria ido ao banco para pagar fatura de televisão?", perguntou. Para o ministro, "o dinheiro evidentemente não era do PT".

O ministro Marco Aurélio Mello ressaltou que o destino do dinheiro fruto de corrupção é irrelevante. "Importa que tenha havido a satisfação à margem dos ditames legais", disse.

"Agentes públicos que se deixam corromper, qualquer que seja sua posição na hierarquia do poder, e particulares que corrompem servidores do Estado, quaisquer que sejam os meios empregados e as vantagens oferecidas, prometidas ou até entregues, são eles corruptos e corruptores, os profanadores da República", afirmou o decano do STF, Celso de Mello.

Peluso concluiu que houve desvio de recursos públicos do BB para abastecer o mensalão, ao analisar a acusação contra Pizzolato. Segundo o ministro, foi do fundo Visanet, do qual o BB era acionista, que saíram antecipações de créditos para as agências de Marcos Valério - o que configura peculato, segundo ele.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Petistas temem 'efeito dominó' após condenação

Preocupação da cúpula do partido e do governo Dilma é que derrota da tese do caixa 2 leve à condenação de Dirceu, Genoino e Delúbio

Vera Rosa

BRASÍLIA - A cúpula do PT e o governo da presidente Dilma Rousseff temem o "efeito dominó" da condenação do deputado João Paulo Cunha (PT-SP) no processo do mensalão. A preocupação é que, se for por terra o argumento do caixa 2 petista para alimentar campanhas políticas de aliados, ministros do Supremo Tribunal Federal passem a condenar todos os homens do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, entre eles José Dirceu.

Braço direito de Lula na Casa Civil, entre 2003 e 2005, Dirceu foi apontado pela Procuradoria-Geral da República como "chefe de organização criminosa" instalada no governo àquela época. Amigo do então presidente, João Paulo comandava a Câmara dos Deputados, José Genoino dirigia o PT e Delúbio Soares cuidava do cofre petista.

Em conversas reservadas, ministros de Dilma afirmam que uma eventual punição para o grupo de Lula - e principalmente para Dirceu, considerado "réu símbolo" do processo - representa a condenação moral do governo dele. No Palácio do Planalto, a estratégia consiste em manter a presidente distante do julgamento no Supremo, como se nada se passasse do outro lado da Praça dos Três Poderes com o partido dela.

Suplente. Na prática, porém, Dilma tem acompanhado tudo sobre as sessões no Supremo e mais de uma vez já confessou estar preocupada com Genoino, que é atualmente assessor do Ministério da Defesa. Se João Paulo perder o mandato de deputado, Genoino é o suplente na fila para assumir a cadeira dele na Câmara. Mas, caso seja condenado, pode não chegar lá. A situação aflige Dilma.

Polvo. Nesse cenário, há quem aposte que, com o grupo de Lula debilitado no PT, a presidente ganhará influência no partido depois das eleições municipais. Egressa do PDT, Dilma não tem trânsito entre as correntes petistas. No Rio Grande do Sul, onde iniciou sua trajetória política, ela é próxima da tendência Democracia Socialista (DS), que, no plano nacional, luta contra a hegemonia da corrente Construindo um Novo Brasil (CNB), de Lula e Dirceu.

"Eu não acredito no enfraquecimento da CNB. Eles são como polvo, que às vezes submerge e logo em seguida volta com força total", afirmou o líder do PT na Câmara, Jilmar Tatto (SP).

Integrante da tendência PT de Luta e de Massa, que se alia ao grupo de Dirceu na maioria das polêmicas, Tatto também não crê que Dilma queira se envolver no varejo da vida partidária nem promover uma reciclagem n a sigla. "Não existe o PT do Lula e o PT da Dilma", insistiu.

Defensor da anistia para José Dirceu na Câmara, o deputado Devanir Ribeiro (PT-SP) admite que os prejuízos com o julgamento do mensalão, nessa temporada de eleições, podem ser grandes. "Esse processo enfraquece o PT como um todo, é ruim para todos nós. Dilma, que não é de corrente A, B ou C, sabe disso", resumiu Devanir. "Eu só tenho a lamentar, e muito, a decisão do Supremo", emendou o deputado André Vargas (PR), secretário de Comunicação do PT.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Farsa desmontada - Merval Pereira

O julgamento do primeiro item do processo do mensalão trouxe definições importantes por parte do Supremo Tribunal Federal que terão repercussão não apenas nas questões jurídicas, mas também no plano político nacional.

As condenações por 10 a 0 até agora de Marcos Valério e seus sócios, de um lado, e do ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato, de outro, assim como a de João Paulo Cunha, até agora por 8 a 2, enterram definitivamente a teoria do caixa dois eleitoral, sacada da mente astuta de algum advogado medalhão - agora, o ex-ministro da Justiça Márcio Thomaz Bastos, a quem era atribuída a tese, passou a negá-la - e que serviu para o presidente Lula tentar reduzir os danos de seu partido, o PT.

O Supremo Tribunal Federal decidiu que houve desvio do dinheiro público para irrigar o valerioduto e, pela maioria dos votos, deixou claro que o crime de corrupção está definido nos autos, não importa o que foi feito com o dinheiro desviado, se pagamento de dívidas eleitorais ou doações benemerentes.

O ex-presidente Lula, que prometeu, ao sair do governo, se empenhar para desmontar o que chamou de "farsa do mensalão", agora está diante de uma verdade irrefutável: o STF, composto por uma maioria de juízes nomeados pelo PT, decidiu que o mensalão é uma triste verdade e, por contraponto, a tese do caixa dois eleitoral é que é a farsa.

Da maneira como está transcorrendo, esse julgamento vai se transformar em um novo balizamento para a atividade política, que estava acostumada à ilegalidade, como se ela fosse inevitável no sistema partidário tal como conhecemos hoje. E também estão sendo estabelecidos balizamentos para o exercício do serviço público.

Vai ser preciso mudar o comportamento dos políticos e de seus financiadores, até porque o perigo da punição exemplar está mais próximo do que jamais esteve. Os acusados das mesmas práticas no PSDB mineiro e no DEM de Brasília podem se preparar para o mesmo destino.

Hoje, com a tendência que vai se cristalizando no julgamento do mensalão, os indícios, as conexões entre os fatos ganharam relevância significativa, a tal ponto que passa a ser possível condenar alguém sem a utilização de gravações que podem ser impugnadas e até mesmo sem um ato de ofício formal.

O caso do ex-diretor do Dnit Luiz Pagot é emblemático. Ele confessou na CPI do Cachoeira que o tesoureiro da campanha da hoje presidente Dilma Rousseff lhe pediu uma relação dos empreiteiros que trabalhavam em obras do governo para pedir financiamento.

Ele mesmo chegou a arrecadar pessoalmente alguns milhões para a campanha de Dilma, o que, admitiu, não foi muito ético.

Pelo entendimento que vai se fazendo no julgamento do Supremo, essa atitude de um servidor público é suficiente para caracterizar peculato e corrupção passiva, mesmo que não se prove que houve beneficiamento aos empreiteiros doadores, mesmo que as doações tenham sido feitas legalmente. E até mesmo que não tenha havido beneficiamento algum.

O ministro Cezar Peluso foi claro em relação a João Paulo Cunha, ex-presidente da Câmara: "O delito está em pôr em risco o prestígio, a honorabilidade e a responsabilidade da função. Ainda que não tenha praticado nenhum ato de ofício, no curso da licitação, o denunciado não poderia, sem cometer crime de corrupção, ter aceitado esse dinheiro dos sócios da empresa que concorria à licitação".

O ministro Marco Aurélio Mello entrou em detalhes: "Assento que para a corrupção ativa, basta que se ofereça. Pode haver inclusive a recusa. (...) (basta que) se ofereça, se prometa vantagem. Vantagem visando, simplesmente visando, a prática de um ato pelo servidor". O "ato de ofício" seria um agravante do crime de corrupção.

O ministro Celso de Mello reforçou a tese: "Não há necessidade de que o ato de ofício seja praticado. (...) Se a vantagem indevida é oferecida na perspectiva em um ato de que possa vir a praticar".

Sintetizando o que parece ser o espírito a presidir esse julgamento do STF, o decano Celso de Mello definiu: "(...) corruptos e corruptores, (são) os profanadores da República, os subversivos da ordem institucional, os delinquentes marginais da ética do Poder, os infratores do erário, que portam o estigma da desonestidade. (...) E, por tais atos, devem ser punidos exemplarmente na forma da lei".

FONTE: O GLOBO

Constrangimento nacional - Eliane Cantanhêde

A despedida do ministro Cezar Peluso foi não apenas um bom e digno momento do julgamento do mensalão, mas também do próprio Supremo Tribunal Federal.

Peluso, com seus 45 anos de carreira no Judiciário, poupou-se de críticas inevitáveis se votasse em todo o processo antes da manifestação do relator e do revisor, que seria como usurpar a função de ambos. Votou só no primeiro capítulo.

Evitou falar em "juridiquês", livrou réus, advogados e telespectadores de arroubos de vaidade e produziu um voto claro, muito bem argumentado, que merece aplausos.

Confirmou, assim, a condenação de todos os réus do primeiro capítulo, exceto os já absolvidos pela Procuradoria-Geral da República. Estão já condenados, além do óbvio Marcos Valério e de seus sócios, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique

Pizzolato e o ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha (PT).

O ministro condenou João Paulo a seis anos em regime semiaberto e a perda de mandato, já que ele cometeu os crimes na condição de deputado federal. Sem contar que as punições já começaram, pois ele não tem a menor condição de manter sua candidatura a prefeito de Osasco (SP).

Os demais réus, evidentemente, estão de barbas de molho, pois o julgamento embicou para uma condenação generalizada. Até aqui, o revisor Ricardo Lewandowski e o ministro Dias Toffoli estão isolados.

Isso, porém, deve ser visto com frieza e serenidade. Não há motivo para comemoração e fogos de artifício quando um dos principais partidos do país -e mais, o partido que mobilizou a nação com o discurso da ética- chega ao banco dos réus e às portas da prisão.

Disse Peluso: "Nenhum juiz verdadeiramente digno de sua vocação condena ninguém por ódio. Nada me constrange mais do que condenar um réu em matéria penal". Estamos todos constrangidos. E tristes.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Lógica perversa - Dora Kramer

Não fosse de conhecimento público a falta de cerimônia com que o ex-presidente Lula e o PT tratam as instituições - para eles ferramentas de uso partidário - soariam inverídicas as notícias sobre o abatimento reinante naquelas hostes diante dos votos de ministros do Supremo Tribunal Federal indicados pelo grupo político há dez anos no poder.

A frustração decorreria principalmente da expectativa de que os ministros nomeados na era petista, notadamente Luiz Fux, Cármen Lúcia e Rosa Weber, votassem pela absolvição. Senão de todos, ao menos do deputado João Paulo Cunha, representante do partido no grupo de réus em julgamento no primeiro dos sete itens do roteiro desenhado pelo relator.

Integrante da leva de juízes indicados nas administrações Lula/Dilma, Joaquim Barbosa desde a aceitação da denúncia foi excluído da lista daqueles de quem se esperava retribuição.

Pelo que se viu de modo explícito na abordagem do ex-presidente ao ministro Gilmar Mendes no escritório do advogado Nelson Jobim e vê-se agora de maneira implícita nos queixumes de bastidor, o pressuposto era que a Corte Suprema poderia ser igualada em parâmetro de tratamento aos Poderes Executivo e Legislativo.

Aparelhada tanto quanto o primeiro e submetida a influências ao molde do segundo.

Por inúmeros que sejam os exemplos de que o PT não faz distinção conceitual ou factual entre governo, Estado e partido, considerando as três instâncias como um conjunto do qual automaticamente toma posse aquele que obtém mais votos na eleição, ainda assim espanta a decepção com a posição dos ministros no julgamento do mensalão.

Note-se: o dissabor não se relaciona com o mérito ou demérito do conteúdo das peças de defesa e de acusação. Prende-se simplesmente à esperança de que tendo sido a maioria da Corte indicada pelo líder do grupo ora na berlinda, essa supremacia se refletisse em absolvição majoritária dos réus.

Raciocínio institucionalmente torto, ofensivo e revelador da lógica perversa contida no esquema de manutenção de poder que o PT julgou-se autorizado a aplicar e a autonomia aliada à fundamentação dos magistrados tratam agora de derrubar.

Esses moços. Tramita sob a mais completa indiferença da Câmara e o vigilante lobby de juízes de primeira instância preocupados em não adiar seu acesso aos tribunais, proposta de alteração da data de aposentadoria compulsória para servidores públicos, de 70 para 75 anos.

É a chamada "PEC da bengala", nome pejorativo e em si incongruente em face da realidade de expectativa de vida cada vez mais longeva e da contribuição que homens e mulheres ainda podem dar ao País quando são obrigados a se retirar de cena muitas vezes no auge de sua capacidade intelectual e do conhecimento acumulado ao longo da vida.

A proposta de emenda constitucional foi apresentada há oito anos pelo senador Pedro Simon. Há seis foi aprovada no Senado e desde então aguarda o exame da Câmara.

Em várias situações de vácuo resultante da inoperância do Legislativo o Judiciário tem sido instado a resolver, mas esta, lamentavelmente, está exclusivamente nas mãos da leniência do Congresso.

Pior a emenda. Líder do PMDB e candidato a presidente da Câmara, o deputado Henrique Eduardo Alves (RN) atuou junto ao Tribunal de Contas da União como lobista de um de seus sócios em negócios potiguares, interessado no contrato de concessão de estrada federal, conforme revelou ontem o Estado.

Grave. Gravíssima, porém, a justificativa do deputado: "Só fiz um favor pessoal a um empresário meu amigo". Um retrato pronto e acabado da dolosa junção do público ao privado de que cuida o Supremo no momento.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Debate quase cifrado - Tereza Cruvinel

O que foi explicitado pelos que votaram ontem, e com mais ênfase pelo ministro Celso de Mello, foi a diferença entre responsabilidade subjetiva e responsabilidade objetiva

Três ministros dos "mais antigos", Celso de Mello, Marco Aurélio Mello e Gilmar Mendes, explicitaram ontem, com elegante sutileza, uma forte divergência doutrinária em relação aos três dos "mais novos" que votaram na sessão de segunda-feira: Rosa Weber, Luiz Fux e Cármem Lúcia. A divergência foi conceitual, ultrapassando o voto que os seis proferiram em relação ao chamado item 3, bastante semelhantes, salvo um peculato ou lavagem de dinheiro a menos aqui e ali. O que foi explicitado pelos que votaram ontem, e com mais ênfase pelo ministro Celso de Mello, foi a diferença entre responsabilidade subjetiva e responsabilidade objetiva. A primeira teoria, fundada na mais antiga tradição do direito democrático, sustenta a necessidade de prova para a condenação, cabendo ao acusador provar a acusação. Já a teoria da responsabilidade objetiva, que Celso de Mello associou aos Estados autoritários, afirmando que foi praticada no Brasil durante o Estado Novo, dispensa a prova, desde que as evidências e os danos decorrentes da ação e da omissão dos réus sejam suficientes para formar a convicção dos juízes. Para citar um teórico, vejamos o que escreve o professor Carlos Roberto Gonçalves: "Quando a culpa é presumida, (na responsabilidade subjetiva), inverte-se o ônus da prova. O autor da ação só precisa provar a ação ou a omissão, e o dano resultante da conduta do réu, porque sua culpa é presumida".

O voto de Celso de Mello é uma aula sobre a questão, embora apenas uma vez, salvo engano, ele pronunciou, e com sentido crítico, a expressão "responsabilidade objetiva". Tanto ele como Gilmar e Marco Aurélio, do alto de suas experiências, destacaram um procedimento relacionado com a diferença entre as duas correntes: o juiz deve basear sua decisão fundamentalmente nas provas colhidas em juízo, e nunca apenas em provas produzidas por inquérito parlamentar (CPI) ou policial. Marco Aurélio já havia enfatizado que "não compete ao réu demonstrar sua inocência, cabendo ao titular da ação, o Ministério Público, provar a acusação". Vale ainda reproduzir outra fala de Celso de Mello: "A exigência de comprovação plena dos elementos que dão suporte à acusação penal recai por inteiro sobre o Ministério Público. Essa imposição do ônus penal reflete uma expressiva garantia jurídica, que tutela e protege o próprio Estado, assegurando a liberdade que ele reconhece às pessoas. Por isso, os subsídios, ministrados pelas investigações policiais e pelos inquéritos parlamentares — sempre unilaterais e inquisitivos — não bastam, isoladamente, para justificar o ato de condenação penal".

Mas por que teriam dito tudo isso se votaram basicamente como Cármem Lúcia, Rosa Weber e Fux? Segundo advogados — não os de defesa, mas os observadores do julgamento, que se manifestam com a compreensível reserva —, os três veteranos buscaram explicitar essas diferenças conceituais porque os outros três, nos votos de segunda-feira, revelaram-se claramente adeptos da teoria da responsabilidade objetiva, que o Supremo adota em relação às falhas do Estado, mas não, ainda, em relação aos indivíduos, protegidos por garantias constitucionais. Se todo o tribunal fosse adepto dela, o resultado do julgamento já estaria determinado. Não teriam os ministros que buscar prova alguma nos autos.

Ainda que essa diferença teórica não tenha surtido efeito digno de nota em relação ao veredito de ontem, para pelo menos dois observadores do meio jurídico, os ministros garantistas miravam ontem, com suas doutrinações, as próximas etapas do processo. Especialmente os itens para os quais a acusação não apresentou provas consistentes, como a acusação de formação de quadrilha, que teria José Dirceu como mentor e chefe.

A teoria da responsabilidade objetiva foi condenada por muitos dos advogados de defesa. Márcio Thomaz Bastos afirmou que ela contraria o espírito da Constituição, para a qual todos são inocentes até prova em contrário, chamando-a de "direito do inimigo". Ela vem ganhando espaço no mundo: foi aplicada, por exemplo, aos prisioneiros de Guantánamo. Mas seria antigo esse "direito do inimigo", tendo vigido na Roma antiga quando, sem verificação de culpa, o suposto lesado podia castigar com igual dano o suspeito. Mais tarde veio a Lei de Aquilia, impondo a necessidade de apuração de culpa.

UnB, 50 anos

A Universidade de Brasília (UnB), criada por Darcy Ribeiro e Anísio Teixeira na quadra de esperança e mudança propiciada pela construção de Brasília e a modernização empreendida por JK, está completando 50 anos. O reitor José Geraldo de Sousa Júnior criou uma comissão, que inclui ex-professores e ex-alunos, para coordenar os atos de celebração. Ontem, a comissão reuniu-se pela segunda vez, estabelecendo como prioridade resgatar a memória da instituição, que, embora tão jovem, carrega fortes cicatrizes do período autoritário. Uma Comissão da Verdade, no âmbito universitário, tenta esclarecer, em parceria com a Comissão federal, o desaparecimento do líder estudantil Honestino Guimarães e as verdadeiras circunstâncias da morte de seu primeiro reitor, Anísio Teixeira. Afastado da reitoria pelo golpe de 1964, ele se exilou nos Estados Unidos, ensinou nas universidades de Columbia e da Califórnia. Voltou ao Brasil em 1966 e morreu em 1971, em circunstâncias misteriosas. Seu corpo foi achado dentro de um elevador, no Rio.

Militares premiados

O governo envia amanhã ao Congresso a proposta de Lei Orçamentária para 2013. Para os funcionários públicos que estão deixando a greve, estarão garantidos recursos suficientes para honrar a proposta de 15,8%, parcelados em três anos. Estarão também previstos aumentos para os militares, em índices diferenciados, segundo as carreiras. Os que ganham menos podem receber reajustes superiores a 20%. Eles estão exultantes com a possibilidade de participarem da Segurança da Copa 2014. A PF, desolada.

FONTE: CORREIO BRAZILIENSE

Um marco no caminho - Míriam Leitão

Quebrou-se a certeza da impunidade. O julgamento do mensalão pode ser a mais importante barreira ao agravamento da corrupção no Brasil. Ainda não se tem o fim do processo, não há penas para os que já estão condenados, mas a partir de agora ficará mais difícil a repetição dos mesmos comportamentos dos políticos e de seus nomeados para cargos de confiança.

Os costumes políticos no Brasil começaram a aceitar qualquer coisa, os limites éticos ficaram cada vez mais gasosos nos últimos anos, tudo se aceitava em nome do pagamento de custos de campanha. Não mais. As desculpas que o Brasil ouviu nos inúmeros escândalos desrespeitaram a inteligência coletiva. Do pagamento da TV por assinatura da mulher do ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha aos panetones do ex-governador do Distrito Federal José Roberto Arruda. Tudo os eleitores tiveram que engolir. Não mais.

No quesito "desculpas esfarrapadas", ouvimos todas. E ontem, no seu último voto no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Cezar Peluso desnudou algumas dessas explicações insustentáveis. Uma delas, a de que o dinheiro recebido pela mulher do deputado João Paulo Cunha era do PT e para pagar pesquisas eleitorais em Osasco. Se era do PT por que saiu da agência de publicidade contratada pela Câmara? Para que fazer pesquisa dois anos antes das eleições? E como pedir o dinheiro quase um ano depois de ele já ter sido concedido? Perguntas simples que desmascaram a segunda versão dada pelo ex-presidente da Câmara.

O peso deste julgamento marcará o Brasil. Aqui sempre se teve convicção de que a impunidade cercaria políticos, governantes, poderosos. É essa convicção que já está quebrada, mesmo antes do fim do processo, e isso servirá como fato dissuasório. Pensarão duas vezes os corruptos antes das suas transações.

Muitos escaparam neste mesmo caso, muitos escaparam em outros casos. Outros sequer foram apanhados. Mas uma enorme barreira foi levantada contra os desvios dos recursos públicos e um passo decisivo foi dado na travessia do caminho que levará o país a mais controle no uso do bem coletivo.

O ministro Gilmar Mendes perguntou-se o que pode ter acontecido ao Banco do Brasil. Tomara que nada mais tenha havido porque o que foi detectado neste processo foi o suficiente. Mas é bom lembrar que no começo do governo Lula foi criado o Banco Popular do Brasil, que teve vida curta, mas custou caro. Só no primeiro ano gastou mais com propaganda, R$ 24 milhões, do que realizou operações de crédito, R$ 21 milhões. O beneficiário foi o onipresente Marcos Valério porque a agência de publicidade da fracassada experiência foi a DNA Propaganda. A propósito: recebeu o contrato sem licitação.

Nada será resolvido milagrosamente, mas ministros estão firmando jurisprudência e fazendo história. A nota dissonante tem sido o ministro José Antonio Dias Toffoli. Foi constrangedora sua decisão de não se declarar impedido, já que impedido está. Quem defendeu alguém ou alguma causa não pode julgar. É simples assim. Toffoli é jovem e tem pela frente quase três décadas de assento garantido no Supremo. Sua decisão de votar é um erro que cria uma sombra sobre o futuro.

O ministro Celso de Mello explicou ontem que não se pode fazer o que nos últimos tempos estava se tornando natural: "Quem tem o poder do Estado em suas mãos não tem o direito de usá-lo em seu próprio benefício." O ministro Cezar Peluso, ao sair, ensinou, com voz mansa, que "juiz não condena por ódio", mas sim "reverencia a lei" e o faz para que o réu "se reconcilie com a sociedade". Melhor ficar com lições que engrandecem.

FONTE: O GLOBO

O réu ausente - Demétrio Magnoli

A tese da quadrilha, emanada da acusação e adotada pelo relator, ministro Joaquim Barbosa, orienta a maioria dos juízes do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do caso do mensalão. Metodologicamente, ela se manifesta no ordenamento das deliberações, que agrupa os réus segundo a lógica operacional seguida pela quadrilha. Substantivamente, transparece no conteúdo dos votos dos ministros, que estabelecem relações funcionais entre réus situados em posições distintas no esquema de divisão do trabalho da quadrilha. As exceções evidentes circunscrevem-se ao revisor, Ricardo Lewandowski, e a José Antônio Dias Toffoli, um ex-advogado do PT que, à época, negou a existência do mensalão, mas agora não se declarou impedido de participar do julgamento. O primeiro condenou os operadores financeiros, mas indicou uma inabalável disposição de absolver todo o núcleo político do sistema criminoso. O segundo é um homem com uma missão.

O relatório de "contraponto" do revisor, uma cachoeira interminável de palavras, consagrou-se precisamente à tentativa de implodir a tese principal da acusação. Sem a quadrilha a narrativa dos eventos criminosos perderia seus nexos de sentido. Como consequência, voluntariamente, a mais alta Corte vendaria seus próprios olhos, tornando-se refém das provas materiais flagrantes. Juízes desmoralizados proclamariam o império da desigualdade perante a lei, condenando figuras secundárias cujas mãos ainda estão sujas de graxa para absolverem, um a um, os pensadores políticos que coordenavam a orgia de desvio de recursos públicos. Esse caminho, o sendero de Lewandowski, felizmente não prosperou. Há um julgamento em curso, não uma farsa.

Uma quadrilha é uma organização, tanto quanto uma empresa. Nas organizações há uma relação inversa entre a posição hierárquica e a natureza material da função. Nos níveis mais elevados de direção o trabalho é altamente abstrato: análise estratégica, definição de metas de longo prazo, orientação geral de prioridades e rumos. Nessa esfera ninguém opera máquinas, emite ordens de pagamento ou assina relatórios gerenciais. Contudo as organizações se movem na direção e no ritmo ditados pelo círculo fechado de seus "intelectuais".

A narrativa da peça acusatória conta-nos que, na quadrilha do mensalão, um personagem concentrava as prerrogativas decisórias supremas. José Dirceu, explicou o procurador-geral da República, utilizava sua dupla autoridade, no governo e no PT, para mover as engrenagens da "fabricação" de dinheiro destinado a perpetuar um condomínio de poder. Previsivelmente, o "chefe da quadrilha" deixou apenas rastros muito tênues e indiretos de seus feitos. "O que vão querer em termos de provas? Uma carta? Uma confissão espontânea? É muito difícil. Você tem confissão espontânea de ladrão de galinha", constatou o juiz Marco Aurélio Mello em entrevista recente. O que decidirá o STF quando, ultrapassado o escalão dos chefes políticos acessórios, chegar à encruzilhada de Dirceu?

O inacreditável Toffoli explicitou seus critérios ao justificar o voto de absolvição sob o argumento de que "a defesa não precisa provar sua versão". Todos sabem que o ônus da prova de culpa cabe à acusação. Mas é óbvio até para leigos que, confrontada com evidências de culpabilidade, a defesa tem o dever de comprovar seus álibis. Na ponta oposta, o juiz Luiz Fux sustentou que, diante de "megacrimes" articulados por figuras poderosas, "indícios podem levar a conclusão segura e correta". A síntese de Fux descortina o método pelo qual, sem arranhar as garantias do Estado de Direito, é possível estender a aplicação da lei aos "fidalgos" da República.

Não é verdade, como alega a defesa do então ministro-chefe da Casa Civil, que nada se tem contra ele. A acusação apresentou uma longa série de provas circunstanciais do poder efetivo de Dirceu sobre os personagens cruciais para as operações da quadrilha. Mas, na ausência de uma improvável confissão esclarecedora de algum dos réus, os juízes terão de decidir, essencialmente, sobre "indícios": a lógica interna de uma narrativa. Eles podem escolher a conclusão inapelável derivada da tese da quadrilha e, sem o concurso de provas documentais, condenar o réu mais poderoso pela autoria intelectual dos inúmeros crimes tipificados. A alternativa seria recuar abruptamente em face do espectro da ousadia jurídica, absolver o símbolo do mensalão e legar à posteridade a história esdrúxula, risível e intragável de uma quadrilha carente de comando.

O enigma é, porém, ainda mais complexo. Como registrou o advogado de defesa do ex-deputado Roberto Jefferson, há um réu ausente, que atende pelo nome de Lula da Silva. Toda a trama dos crimes, tal como narrada pela acusação, flui na direção de um comando central. Dirceu, prova o procurador-geral, detinha autoridade política sobre os operadores cruciais do mensalão. Mas acima de Dirceu, no governo e no PT, encontrava-se Lula, "um sujeito safo" que "sempre se mostrou muito mais um chefe de governo do que chefe de Estado", nas palavras do mesmo Marco Aurélio. A peça acusatória, todavia, não menciona Lula, o beneficiário maior da teia de crimes que alimentavam um sistema de poder. A omissão abala sua estrutura lógica.

"Você acha que um sujeito safo como Lula não sabia?", perguntou Marco Aurélio, retoricamente, ao jornalista que o entrevistava. Ninguém acha - e existem diversos depoimentos que indicam a ciência plena do então presidente sobre o essencial da trama. O mesmo tipo de prova indireta, não documental, utilizada na incriminação de Dirceu poderia - e, logicamente, deveria - ter sido apresentada para pôr Lula no banco dos réus. Mas o procurador-geral escolheu traçar um círculo de ferro em torno de um homem que, coberto de motivos para isso, se acredita inimputável. A opção da acusação, derivada de uma perversa razão política, assombrará o País por longo tempo.

Sociólogo, doutor em Geografia Humana pela USP.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Coaf: Delta teve movimentação atípica de R$ 687,5 milhões

Construtora sustenta ter respostas, mas seu dono fica em silêncio na CPI

Vinicius Sassine, Ailton de Freitas

BRASÍLIA - O Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), vinculado ao Ministério da Fazenda, recebeu comunicados de movimentações atípicas de R$ 687,5 milhões nas contas bancárias da Delta Construções. As transações se referem aos últimos dez anos, a partir de 2003, e envolvem contas em 11 bancos, com movimentações em pelo menos 20 agências, a maioria no Rio de Janeiro, sede da empresa. Os comunicados ao Coaf não apontam ilegalidades, mas transações bancárias atípicas que, pela lei de lavagem de dinheiro, precisam ser informadas ao conselho constituído para investigar suspeitas dessa prática criminosa. O relatório referente à Delta, assinado pelo presidente do Coaf, Antonio Gustavo Rodrigues, foi remetido à CPI no início da semana. Ontem, o dono da empreiteira, Fernando Cavendish, compareceu à comissão e optou pelo silêncio.

O relatório do Coaf lista mais de 350 pessoas relacionadas às contas da Delta no Banco do Brasil. O documento detalha depósitos de R$ 27,5 milhões à Alberto & Pantoja Construções e de R$ 4 milhões à Brava Construções - duas das maiores empresas fantasmas montadas pelo grupo do bicheiro Carlinhos Cachoeira.

Diversos requerimentos de parlamentares de oposição e independentes pedem a quebra de sigilo de empresas fantasmas citadas no relatório. A Delta sustenta que responde a órgãos institucionais sobre questões levantadas pelo Coaf.

Fernando Cavendish chegou ao Congresso no início da sessão, às 10h30, e precisou esperar por seis horas e meia para depor. O presidente da comissão, senador Vital do Rêgo (PMDB-PB), inverteu a ordem dos depoentes e começou por Paulo Vieira Souza, ex-diretor da Dersa. Às 17 horas, Cavendish entrou no plenário da CPI. Vital do Rêgo chegou a propor uma reunião secreta para que o empresário colaborasse com as investigações.

- Por orientação do meu advogado, permaneço em silêncio - disse Cavendish, acompanhado de seu defensor jurídico.

O senador Álvaro Dias (PSDB-PR) o interpelou sobre uma gravação em que disse ser possível comprar um senador por R$ 6 milhões:

- Qual senador o senhor compraria com esse valor ou já comprou?

- Esse assunto, num momento oportuno, judicialmente, será respondido.

Dez minutos depois de iniciado o depoimento, Cavendish foi dispensado da sessão.

No relatório do Coaf encaminhado à CPI, são citados um saque e um depósito envolvendo a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). Em 13 de abril deste ano, houve um saque em espécie de R$ 546,7 mil numa agência bancária no Rio. No mesmo dia e no mesmo banco, mas em outra agência, o mesmo sacador depositou o valor na conta da Delta. De acordo com o presidente da Liesa, Jorge Castanheira, não houve saque da conta bancária, mas pagamento à empreiteira, contratada por R$ 22 milhões para reconstruir barracões destruídos pelo fogo na Cidade do Samba em 2011.

- Um dos pagamentos foi por carta de transferência, por TED (transferência eletrônica). O valor foi exatamente o apontado pelo Coaf - disse Castanheira.

FONTE: O GLOBO

Crime confesso

TALVEZ DEVIDO à absoluta atenção que se dá no país ao julgamento do mensalão, a passagem de Luiz Antônio Pagot pela CPI do Cachoeira não teve a repercussão devida.

ENTÃO, É preciso destacar que o ex-todo-poderoso diretor-geral do Dnit admitiu ter sido procurado por José de Filippi Junior, tesoureiro da candidata Dilma Rousseff, para ajudá-lo a arrecadar contribuição à campanha junto a empreiteiras contratadas para tocar obras públicas.

O CONTATO foi no gabinete de Pagot, num prédio público, portanto. E o diretor do departamento do Ministério dos Transportes disse ter ajudado Filippi, de que se arrependeu depois.

NÃO IMPORTA se as contribuições tenham sido legais, no "caixa um". Configurou-se um caso confesso de uso da máquina pública para abastecer os cofres da campanha da candidata oficial.

EM LINGUAGEM direta, um achaque.

FONTE: O GLOBO

Pesquisas: Recife, S. Paulo, Rio, BH, Curitiba e Porto Alegre

Geraldo: novo crescimento

Manoel Guimarães

Duas novas pesquisas de intenções de voto para o Recife, divulgadas ontem, confirmaram a polarização entre PT e PSB nesta eleição. Os levantamentos do Datafolha e do Vox Populi colocaram em empate técnico Geraldo Julio (PSB) e Humberto Costa (PT). O petista largou na frente na corrida pela PCR, mas, pela primeira vez, apareceu atrás de Geraldo, que começou como quarto colocado. A diferença, porém, está dentro da margem de erro. Os levantamentos também constataram a queda de Mendonça Filho (DEM) e o crescimento de Daniel Coelho (PSDB).

O Datafolha realizou 832 entrevistas entre a segunda-feira e ontem. Humberto e Geraldo apareceram com 29% das intenções de voto. No levantamento anterior, de 21 de julho, o petista tinha 35% e o socialista, 7%. Já Mendonça caiu de 22% na primeira pesquisa para 9% na atual, sendo ultrapassado por Geraldo e por Daniel. O tucano passou de 8% em julho para 12%. Entre os demais candidatos, Edna Costa (PPL) e Roberto Numeriano (PCB) obtiveram 1% cada, enquanto Jair Pedro (PSTU) não atingiu 1%. Brancos, nulos e nenhum somaram 10%, e 9% não souberam responder. Esteves Jacinto (PRTB) não foi relacionado na pesquisa porque sua candidatura foi impugnada no mês passado. A margem de erro é de 3%.

Ainda no Datafolha, Mendonça e Humberto ficaram empatados no quesito rejeição, com 29% cada. Geraldo foi o menos rejeitado (12%), seguido por Daniel (16%). Dentre os entrevistados pelo instituto, outros 26% afirmaram que não votariam em Edna Costa, 23% em Jair Pedro e 19% em Roberto Numeriano.

Já no primeiro levantamento do Vox Populi, foram 800 entrevistados entre os dias 25 a 27. Geraldo saiu na frente, com 31%, empatado tecnicamente com Humberto, que obteve 28%. Nesta pesquisa, Mendonça ficou com 11% e Daniel com 9%. Colocado como opção, Esteves atingiu 1%, mesmo percentual de Numeriano. Os índices de Jair Pedro e Edna Costa não chegaram a 1%. A margem de erro do Vox Populi é de 3,5%.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Russomanno lidera, Serra cai e Haddad sobe

Uma semana após o início da propaganda eleitoral, o candidato do PRB, Celso Russomanno, assumiu a liderança isolada na disputa pela prefeitura paulistana.

Ele manteve 31% das intenções de voto na pesquisa Datafolha. José Serra (PSDB) caiu cinco pontos percentuais e agora está com 22%. A rejeição ao candidato tucano saltou de 38% a 43%.

Russomanno vira líder isolado, Serra cai e Haddad sobe em SP

Bernardo Mello Franco

Rejeição de tucano vai a 43% depois de uma semana de propaganda na TV, mostra Datafolha

Candidato do PRB se mantém com 31% das intenções de voto; Serra cai cinco pontos, e Haddad ganha seis

O candidato do PRB, Celso Russomanno, assumiu a liderança isolada na disputa pela Prefeitura de São Paulo. Ele manteve 31% das intenções de voto depois de uma semana de horário eleitoral em rádio e TV, aponta o Datafolha.

José Serra, do PSDB, caiu cinco pontos percentuais e agora aparece em segundo lugar com 22%. Impulsionado pela presença do ex-presidente Lula em sua propaganda, Fernando Haddad, do PT, subiu seis pontos e ocupa a terceira posição com 14%.

A pesquisa mostra que a rejeição a Serra subiu cinco pontos e alcançou o maior índice desde o início da campanha: 43% dos eleitores dizem que não pretendem votar nele "de jeito nenhum".

Nas últimas eleições municipais em São Paulo, em 2004 e 2008, só o ex-prefeito Paulo Maluf (PP) superou este patamar de rejeição.

O índice de paulistanos que se recusam a votar nos rivais do tucano também cresceu, mas ainda é bem menor: 21% no caso de Haddad e 15% no de Russomanno.

As intenções de voto nos demais candidatos oscilaram dentro da margem de erro da pesquisa, que é de três pontos para mais ou para menos.

Gabriel Chalita (PMDB) agora tem 7%, e Soninha Francine (PPS), 4%. Paulinho da Força (PDT) aparece com 2%. Ana Luiza (PSTU) e Carlos Gianazzi (PSOL) têm 1%, e os demais não pontuaram. Brancos e nulos somam 10%, e os indecisos são 7%.

Surpresas

A estabilidade de Russomano contrariou as apostas das campanhas do PT e do PSDB, que contavam com sua queda assim que começasse o horário eleitoral -o tempo dele é de apenas 2min11s.

Há uma semana, o candidato do PRB já aparecia quatro pontos à frente de Serra (31% a 27%), mas os dois estavam tecnicamente empatados na frente. Com a queda do tucano, ele ganhou a liderança isolada sem melhorar seu próprio desempenho.

O tombo de Serra surpreendeu até os petistas, que não esperavam vê-lo com menos de 25% das intenções de voto. Há dois anos, a cidade deu a ele 40% dos votos para presidente no primeiro turno.

Entre os motivos mais citados para sua rejeição, estão a reprovação ao prefeito Gilberto Kassab (PSD) e o fato de ele ter renunciado à prefeitura após ter prometido cumprir todo o mandato e o desgaste com a derrota de 2010.

A alta de Haddad já era esperada com a exposição de Lula em seu programa eleitoral. Mesmo assim, os petistas contavam com uma subida mais modesta na primeira semana de propaganda na TV.

Mudanças

Os dados mostram que Haddad está superando o anonimato. Em uma semana, seu índice de conhecimento saltou de 64% para 75%.

Ele ganhou 19 pontos entre os eleitores que dizem preferir o PT, o que indica que a tarefa de identificá-lo com o partido está sendo cumprida.

No segmento que declara opção pelo PSDB, nova surpresa: Russomanno subiu 16 pontos e Serra, que é fundador do partido, despencou 15.

O tucano caiu em todas as faixas de escolaridade. Perdeu quatro pontos entre os eleitores com ensino fundamental, cinco entre os que concluíram o ensino médio e seis nos de nível superior.

Haddad subiu cinco, oito e cinco pontos em cada segmento, respectivamente. Russomanno se manteve estável em todas as faixas.

O candidato do PRB disse que os números mostram que sua campanha está no caminho certo e que vai manter a humildade. "Minha mãe sempre dizia: "Os humildes conquistarão a Terra"", afirmou.

Serra não quis comentar os dados. O coordenador de sua campanha, Edson Aparecido, procurou demonstrar tranquilidade. "A pesquisa ainda reflete o cenário anterior ao início do horário eleitoral. O jogo está só começando."

Haddad comemorou o desempenho. "Está dentro do planejado, estamos colhendo o que plantamos", disse. Ele também ironizou a queda de Serra. "Defendendo a taxa da Controlar e combatendo o Bilhete Único mensal, ele está pedindo para não ir para o segundo turno."

O Datafolha ouviu 1.069 eleitores entre os dias 28 e 29. O levantamento foi encomendado pela Folha e pela TV Globo.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Candidato de Campos dispara em Recife

Em 40 dias, Geraldo Julio (PSB) saltou de 7% para 29% e agora aparece empatado na frente com Humberto Costa (PT)

Geraldo Julio tem feito intensa campanha ao lado do governador Eduardo Campos; Costa aposta no apoio de Lula

RECIFE, SÃO PAULO - O candidato apoiado pelo governador de Pernambuco, Eduardo Campos (PSB), cresceu 22 pontos em pouco mais de um mês e empatou com o candidato do ex-presidente Lula na liderança da corrida pela Prefeitura de Recife.

Segundo o Datafolha, o ex-secretário do governo estadual Geraldo Julio (PSB) saltou de 7% para 29% desde a pesquisa de 19 e 20 de julho.

O petista Humberto Costa, que liderava com 35% das intenções de voto, oscilou negativamente para 29%, dentro do limite da margem de erro, que é de três pontos para mais ou para menos.

Mendonça Filho (DEM) caiu de 22% para 9%, figurando agora na quarta colocação. O tucano Daniel Coelho passou de 8% para 12% e aparece em terceiro.

No rádio e na TV, Humberto Costa explorou o apoio de Lula, enquanto Geraldo promoveu intensa campanha ao lado de Campos.

Ex-aliados, PT e PSB romperam no Recife após a crise provocada pelo veto da cúpula nacional petista à tentativa de reeleição do atual prefeito da cidade, João da Costa (PT).

O governador, que também é presidente nacional do PSB, alegou que a disputa interna levou o PT a perder a condição de liderar o processo sucessório.

Com isso, a disputa passou a ser marcada pelo embate entre Lula e Campos, que se distanciaram após a cisão entre as siglas na cidade e em outras capitais, como Belo Horizonte e Fortaleza.

Rejeição

Segundo a pesquisa, 29% dos eleitores dizem que não votariam em Mendonça (DEM) e em Humberto Costa (PT). Na pesquisa anterior, o democrata tinha 26% de rejeição, e o petista, 24%. Geraldo Julio reduziu sua rejeição, de 16% para 12%.

Quase desconhecido no início da disputa, Geraldo faz parte de uma coligação de 14 partidos, o que lhe garantiu mais de 12 minutos no programa eleitoral.

Faz ainda a campanha mais cara na cidade: arrecadou R$ 1,6 milhão no primeiro mês, mais do que o dobro do candidato do PT, que declarou receita de R$ 600 mil.

Além do carisma de Lula, Humberto Costa aposta na popularidade do vice da sua chapa, o ex-prefeito João Paulo (PT). O partido administra o município há 12 anos.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Paes mantém margem suficiente para reeleição no primeiro turno

Prefeito peemedebista tem 53%; Freixo, porém, sobe e vai a 13%

Italo Nogueira

RIO - Uma semana após o início do programa eleitoral, o prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), manteve a liderança nas intenções de voto na cidade, segundo pesquisa Datafolha divulgada ontem.

A distância para o principal rival, Marcelo Freixo (PSOL), caiu quatro pontos -a reeleição, porém, ainda ocorreria com folga no primeiro turno.

De acordo com a pesquisa, encomendada pela Folha em parceria com a TV Globo, Paes tem 53% das intenções de voto, contra 13% de Freixo.

Em seguida, vêm Rodrigo Maia (DEM), com 5%, e Otávio Leite (PV), com 3%. Os demais candidatos têm 1%.

Com o maior tempo de TV das capitais -mais de 16 dos 30 minutos do horário eleitoral-, Paes melhorou a avaliação de sua administração e reduziu seu índice de rejeição.

Segundo a pesquisa, 25% dos eleitores viram sua propaganda. Na TV, ele explora obras e o apoio de Lula.

Freixo e Maia, os segundos mais assistidos, atingiram 13%. De acordo com o Datafolha, 35% das pessoas declararam terem visto ao menos uma vez a propaganda eleitoral.

Freixo continua como o menos conhecido entre os principais candidatos. Sua taxa de conhecimento, porém, subiu de 50% para 62%.

A alta nas intenções de voto do socialista, que subiu três pontos, ocorreu principalmente entre quem tem de 16 a 24 anos, os que têm renda acima dos dez salários mínimos e as pessoas com ensino superior. Nos dois últimos grupos, há empate técnico com Paes.

A possibilidade de segundo turno, no entanto, depende ainda do crescimento dos demais candidatos. Maia tem com a maior rejeição (31%), seguido por Paes e Aspásia Camargo (PV), ambos com 17%.

O Datafolha entrevistou 944 pessoas entre os dias 28 e 29 de agosto. A pesquisa está registrada no TRE (Tribunal Regional Eleitoral) com o número RJ-00054/2012.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Em BH, Patrus reduz só um ponto da diferença em relação a Lacerda

Paulo Peixoto

BELO HORIZONTE - O prefeito Marcio Lacerda (PSB), que tenta a reeleição em Belo Horizonte, mantém ampla vantagem sobre o ex-ministro petista Patrus Ananias (PT), segundo o Datafolha.

Lacerda está 16 pontos percentuais à frente de Patrus, que não conseguiu reduzir mais a diferença mesmo com a presença do ex-presidente Lula na campanha -em julho, 17 pontos separavam os candidatos.

O prefeito tem 46% das intenções de voto, contra 30% do ex-ministro. Enquanto Lacerda oscilou dois pontos para cima, Patrus cresceu três e foi de 27% para 30%.

Segundo o Datafolha, 36% dos eleitores disseram ter assistido a pelo menos um programa eleitoral na TV. Sobre quem está se saindo melhor, 56% dos que assistiram apontam Lacerda e 28%, Patrus.

Nas intenções espontâneas de voto (em que o entrevistador não mostra o nome dos candidatos), Lacerda foi de 16% para 30%, enquanto Patrus subiu de 11% para 19%.

O eleitorado assiste a uma disputa cada vez mais acirrada entre Lacerda e o PT, que foram aliados por quatro anos. Patrus acusa o prefeito de ter optado pelo PSDB do senador Aécio Neves (MG), potencial rival da presidente Dilma Rousseff em 2014.

Lula embarcou na candidatura de Patrus -Dilma também, ainda que apenas nos bastidores.

O Datafolha ouviu 827 eleitores nos dias 28 e 29 de agosto. A pesquisa está registrada sob o número MG-00294/2012.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Com 27 %, Ratinho Junior e Luciano Ducci dividem o topo em Curitiba

Estelita Hass Carazzai

CURITIBA - Os candidatos Ratinho Junior (PSC) e Luciano Ducci (PSB) dividem a liderança na disputa pela Prefeitura de Curitiba, de acordo com pesquisa Datafolha realizada em parceria com a RPC TV.

Segundo o levantamento, Ratinho e Ducci têm 27% das intenções de voto cada um -na última pesquisa, no final de julho, eles tinham 27% e 23%, respectivamente.

Já Gustavo Fruet (PDT), apoiado pelo PT, oscilou negativamente, de 23% para 20% -em julho, o pedetista dividia o topo com Ratinho e Ducci.

O quarto colocado, Rafael Greca (PMDB), com 10% no Datafolha do mês passado, agora aparece com 8%.

A margem de erro da pesquisa é três pontos percentuais, para mais ou para menos. O Datafolha ouviu 832 eleitores, ontem e anteontem.

Atual prefeito, Ducci continua apostando no governador Beto Richa (PSDB) como principal cabo eleitoral.

Até agora, o governador apareceu em todos os programas do candidato, que tem o maior tempo de TV: 10min45s.

Já Ratinho Junior, desfruta da popularidade do pai, o apresentador de TV Ratinho. Na periferia, o candidato do PSC usa recursos como bonecos de rato gigantes e orelhas de Mickey. No horário eleitoral, procura se aproximar da classe média.

Entre os três principais postulantes a prefeito de Curitiba, Ducci tem a maior rejeição (21%), seguido por Ratinho Junior (18%) e Fruet (10%).

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Porto Alegre tem empate técnico entre Fortunati e Manuela D'Ávila

Felipe Bächtold

PORTO ALEGRE - Os adversários do prefeito de Porto Alegre, José Fortunati (PDT), ganharam espaço com o início da propaganda no rádio e na TV e reduziram a diferença em relação a ele na corrida eleitoral.

De acordo com pesquisa Datafolha realizada em parceria com a RBS, Fortunati, que perdeu dois pontos em relação à pesquisa anterior, realizada em julho.

O pedetista caiu de 38% para 36%, e agora está em um empate técnico com Manuela D"Ávila (PC do B), que passou de 30% para 32%.

O petista Adão Villaverde (PT), que aparecia com 3% em julho, agora tem 7%.

A margem de erro do levantamento do Datafolha é de três pontos percentuais, para mais ou para menos.

Na propaganda eleitoral, o PT, em desvantagem nas intenções de voto, passou a atacar os dois concorrentes que lideram a disputa.

Nesta semana, um apresentador do programa petista chamou Manuela de "celebridade". Já o atual prefeito da capital gaúcha foi rotulado de "paradão".

Fortunati tem mais tempo na TV do que seus concorrentes -até agora, se dedicou a apresentar sua biografia.

A pesquisa realizada ontem e anteontem também incluiu uma simulação de segundo turno, na qual Manuela e o atual prefeito aparecem empatados com 43% das intenções de voto cada um.

Para o levantamento, o Datafolha ouviu 827 eleitores de Porto Alegre.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Tarde e envergonhado - Sérgio C. Buarque

Durante décadas, o Partido dos Trabalhadores, na oposição e nas diversas campanhas eleitorais, demonizou a privatização de empresas públicas como uma perversa entrega do patrimônio nacional. Este discurso do PT atrapalhou a realização dos investimentos na infraestrutura, contribuindo para travar a economia e comprometer a competitividade econômica do Brasil, mais do que isso, formou na opinião pública brasileira uma visão distorcida das relações do Estado com o setor privado.

Agora, com enorme atraso, o governo do PT realiza uma ampla transferência de negócios públicos para o setor privado, e o faz em uma cerimônia festiva como se estivesse inventando uma nova e brilhante estratégia de desenvolvimento. Embora de forma tardia e ainda precisando ser testado nas licitações, o programa do governo prevê a concessão ao setor privado da exploração de 7.500 quilômetros de rodovias e 10 mil quilômetros de ferrovias com investimento privado de R$ 133 bilhões.

“Antes tarde do que nunca”, dirão alguns. Não, tarde é tarde mesmo e já deixou um passivo de estrangulamento na economia brasileira. O Brasil perdeu muito tempo na construção de uma economia competitiva para se projetar no mundo globalizado, as ferrovias, os portos, as estradas estão saturadas, degradadas e deficientes e mesmo que o plano do governo seja bem sucedido, ainda vamos precisar de vários anos para recuperar e ampliar o sistema logístico do Brasil. Perdemos o timing também porque, ao contrário do início da década passada, a situação atual é muito desfavorável em termos de liquidez e disposição ao risco para financiamento e investimentos de longo prazo de maturação.

E, no entanto, para que não pensem que seu governo se entregou de vez ao neoliberalismo, a Presidente Dilma fez um discurso – deselegante e envergonhado – para dizer que não estava privatizando. É claro que existe uma diferença entre concessão e privatização, mas ambas representam uma transferência da gestão dos serviços públicos para o setor privado, permitindo que as empresas obtenham lucros com a oferta e venda destes serviços. Nada demais, principalmente quando o Estado não tem recursos nem capacidade gerencial, e, claro, desde que os serviços sejam controlados pelas agências reguladores, aquelas pouco valorizadas pelo governo do PT. O setor privado vai investir R$ 133 bilhões passando a ser proprietário de parte da infraestrutura, e nas ferrovias, as empresas vão contar ainda com a garantia de compra do volume total de carga, mesmo que não haja demanda, negócio sem risco para o empreendedor que compre a concessão. Nada demais. Mas, companheiros, vamos falar claro e direto, sem vergonha ou maneirismos verbais: o Estado tem um papel central como provedor de serviços públicos para a sociedade, mas, vários destes serviços podem (e devem) ser oferecidos e geridos (melhor geridos) pelo setor privado. Sendo o provedor, o Estado não tem que ser o produtor e executor de tudo, nem pode. Felizmente.

Sérgio C. Buarque é economista e consultor

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

O BC independente? - Antônio Correa de Lacerda

Amanhã, 31 de agosto, completa um ano que o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central do Brasil (BC) surpreendeu muitos ao reduzir em 0,5 ponto porcentual a taxa básica de juros (Selic), então em 12,5% ao ano, dando início a um ciclo continuado de novas reduções que a trouxeram ao nível atual, de 7,5% ao ano. A decisão de então do Copom gerou muita controvérsia.

De um lado, economistas, contrários à medida, a julgavam descabida e de elevado risco. Para estes, o nível de inflação no País exigia taxas de juros ainda altas e a sua redução seria um risco para a estabilidade. Do outro lado, a minoria, via a decisão como tardia, ainda conservadora, mas acertada. Isso porque o País estava na contramão da tendência internacional, com taxas de juros muito altas e um espaço enorme para sua redução.

Decorrido o primeiro ano, o cenário previsto pelo BC, expresso nas Atas das reuniões do Copom, revelou-se mais acertado que o dos seus críticos. A deterioração decorrente da crise europeia e o baixo crescimento dos EUA foram impactantes para a desaceleração do crescimento econômico da China. O enfraquecimento da economia mundial gerou uma sobreoferta de produção e uma desinflação, especialmente nas commodities metálicas.

Vale destacar que os bancos centrais das economias centrais adotaram, desde o final de 2008, um movimento simultâneo de redução de suas taxas básicas de juros, ao mesmo tempo que ampliaram a liquidez nos mercados. Vivemos um longo ciclo de taxas de juros reais negativas. O Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA) já manifestou que não pretende alterar suas baixas taxas de juros pelo menos até 2014.

Há uma longa discussão sobre a chamada independência dos bancos centrais. Na visão ortodoxa, eles deveriam ter total autonomia diante dos governos. Trata-se de uma discussão um tanto defasada em relação à situação do mundo atual. O que tem ocorrido, na prática, é que os bancos centrais vêm atuando de forma coordenada com seus governos nacionais, assim como com seus equivalentes em outros países, visando a combater os efeitos da crise e evitar o seu agravamento.

Especialmente para os países em desenvolvimento, a passividade diante do quadro internacional ou uma interpretação equivocada dos sinais representaria custos onerosos sobre o nível de atividade, custo do financiamento da dívida pública e níveis reais de suas taxas de câmbio. Para o Brasil - que, em 2008, quando dos efeitos da crise do mercado subprime norte-americano, já havia cometido o erro de não baixar rapidamente as taxas de juros básicas, e pagou um alto preço por isso - era preciso, diante do agravamento da crise europeia em 2011, ousar com responsabilidade e agir. Isso, a despeito das resistências de alguns setores do mercado.

Daí a importância da autonomia e da independência do BC. Aqui, elas não estão relacionadas ao Executivo, mas às pressões do mercado. É preciso que as autoridades monetárias decidam e implementem as medidas de política econômica, tendo em vista o que é mais adequado para o conjunto da economia.

Outra mudança importante e bem-sucedida foi a da remuneração da caderneta de poupança, fator sempre apontado como impeditivo para a queda dos juros, que foi conduzida com competência e sem gerar quebras de contratos.

Porém ainda estamos longe de imaginar que a batalha chegou ao fim. Na verdade, ela só começou. Foi rompido um paradigma importante que permitiu ao Brasil atingir uma taxa básica real de juros mais próxima da média de países semelhantes. Houve progressos, mas é preciso avançar nas demais condições imprescindíveis para que os ganhos sejam perenes e sustentáveis no longo prazo. Entre outros desafios, temos de enfrentar a distorção representada pela indexação de contratos e tarifas. Um resquício do período de inflação crônica que precisa ser removido, pois também representa um limitador para a redução dos níveis inflacionários e, portanto, das taxas de juros.

FONTE: O ESTADO DE S. PAULO

Polêmica natimorta faz um ano - Vinicius Torres Freire

Em agosto de 2011, parecia o fim do mundo quando o BC passou a cortar juros contra a "opinião do mercado"

Amanhã faz um ano que o Banco Central do Brasil tirou do sério parte do pessoal do mercado financeiro.

Em agosto do ano passado o BC mudou abruptamente a direção da sua política de juros e começou a reduzir a Selic, então em 12,5% (que agora vai a menos de 8%). A inflação andava acima dos 7% (índice acumulado em 12 meses), a mais alta desde 2005.

Faltaria espaço nesta coluna para apresentar todas as críticas e insultos ao pessoal do BC, mas convém lembrar pelo menos que se dizia então:

1) Viria "descontrole inflacionário";

2) O Banco Central abdicara de sua já relativa autonomia e seguia ordens da presidente Dilma;

3) O BC fazia uma "aposta" de que a crise mundial pioraria o bastante para desacelerar a economia no Brasil também, contendo assim a inflação -para os críticos, o BC não deveria fazer "apostas" otimistas, mas jogar na retranca;

4) Começava a ser enterrado o regime de metas de inflação. Segundo tal linha de conduta, o BC deve se ater exclusivamente a levar a inflação para a meta (ora em 4,5%), utilizando apenas um instrumento (a taxa básica de juros de curto prazo, a Selic).

Não veio o "descontrole inflacionário". A inflação não caiu para os níveis imaginados pelo BC (uns 4,7% na metade deste ano), mas caiu quase dois pontos percentuais.

Não é possível provar que a direção do BC é imune a pressões diretas ou indiretas da presidente. Mas pelo menos neste último ano ficou cada vez mais evidente que a presente direção do BC pensa a política monetária de modo diferente.

Isto é, ficou claro que o corte de juros de agosto de 2011 (e os seguintes) não foram um raio num dia de céu azul (ou de trovoadas dilmianas), mas uma decisão coerente com outras intervenções do BC na economia, goste-se ou não dela. Para usar frase original, alguém poderá dizer que a política do atual BC é uma loucura, mas ela tem método.

O BC fez de fato a "aposta" de que a conjuntura internacional (PIBs lerdos e commodities mais comportadas) ajudaria a baixar a inflação no Brasil. Mas os BCs sempre fazem "apostas".

Os críticos reclamam mais do fato de que o BC usou termômetros e bolas de cristal menos ortodoxas, menos "técnicas" (a boa técnica seria usar os mesmos modelos do mercado, que, no entanto, agora presta mais atenção aos modelos do BC...).

De resto, caso a "aposta" fosse na direção do aperto de juros, o Brasil provavelmente teria desperdiçado ainda mais de sua capacidade produtiva. Quem se oferece para pagar a conta?

O regime de metas de inflação foi "enterrado"? Cortaram as pernas do "tripé" da "boa" política econômica (metas de inflação, câmbio flutuante e redução da dívida pública). Evidentemente, sim. O BC usa vários instrumentos a fim de controlar a inflação (ou leva mais fatores em conta quando precisa decidir sobre juros). O governo todo intervém no mercado de câmbio. E daí? O mundo inteiro está experimentando meios de sair do pantanal econômico-financeiro que explodiu em 2008 (mas vinha de longe).

Enfim, se fez muito barulho por pouco. Nossos problemas principais estão em outro lugar, no mundo real das empresas e do trabalho.

FONTE: FOLHA DE S. PAULO

Indústria pede socorro ao Brasil urbano

Marli Olmos

SÃO PAULO - Para a CNI, mobilidade caótica afeta o desenvolvimento do país, ao restringir fluxo de pessoas, bens e ideias e reduzir a produtividade, inovação e qualidade de vida

A Confederação Nacional da Indústria (CNI) acaba de concluir um extenso estudo sobre os efeitos provocados pelos problemas de mobilidade na produtividade do país. O setor está preocupado com o tempo que seus funcionários perdem para chegar nas fábricas e escritórios, os atrasos nas entregas nas mercadorias e o prejuízos à atividade intelectual, quase sempre concentrada nos centros urbanos. Trata-se, conclui a entidade, de uma perda na qualidade de vida para os 45% da população que vivem em 10 metrópoles brasileiras.

A direção da CNI acredita ter como fortes aliados dois importantes acontecimentos no país - a criação do PAC da Mobilidade, para o qual o governo federal reservou R$ 7 bilhões, e as eleições municipais. Seus dirigentes imaginam que essas duas forças ajudarão na mobilização que a entidade pretende comandar para suscitar um debate nacional.

O documento, que acaba de ser elaborado com a ajuda de dados da Associação Nacional dos Transporte Públicos (ANTP), arquitetos e urbanistas, será encaminhado à presidente Dilma Rousseff. Posteriormente, a ideia é envolver prefeitos, governadores, candidatos e outros agentes municipais, estaduais e federais no centro do debate público nacional.

O diretor de políticas e estratégia da CNI, José Augusto Coelho Fernandes, lembra que se por um lado as empresas se esmeram em desenvolver modernos sistemas de manufatura enxuta, como o chamado "just in time" (por meio do qual as peças de um determinado item chegam à fábrica no exato instante da sua produção), por outro ficam à mercê do que acontece nas ruas congestionadas, na tentativa de adivinhar o horário que sua mercadoria chegará ao destino final.

"Temos percebido que essa questão está fora dos centros de debates no país", afirma. "As dificuldades de mobilidade deixaram de ser problemas que envolvem somente São Paulo e Rio de Janeiro. Em cidades como Salvador, Recife e Manaus, que vivem situações do mesmo tipo, ninguém consegue marcar compromissos", completa.

Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Salvador, Brasília, Belém, Curitiba, Fortaleza, Goiânia, Manaus, Porto Alegre e Recife abrigam 45% da população urbana brasileira. Nas duas maiores, São Paulo e Rio de Janeiro, estão 20% dos que habitam o Brasil.

Segundo o estudo preparado pela CNI, cada morador dessas 12 metrópoles gasta, em média, uma hora e quatro minutos para fazer seus deslocamentos diários. Os problemas de locomoção têm se agravado, no entanto, nos municípios com mais de 500 mil habitantes. O trabalho da entidade que representa a indústria mostra que o tempo médio gasto em mobilidade nas regiões aumentou 20% entre 2003 e 2010, em função, principalmente, da expansão das cidades e do aumento das distâncias.

O documento sugere que " sob o prisma do desenvolvimento sustentado", é melhor crescer para dentro da metrópole e não mais expandi-la. "Reciclar o território é mais inteligente do que substituí-lo", destaca o estudo.

A análise sobre a qual os dirigentes da indústria passam a se concentrar servirá também para reorientar os investimentos do setor no país. "Os dados servirão também como fonte de teoria da qualidade das cidades", afirma Fernandes. Segundo ele, os atrativos de um município passarão a incluir o grau de desenvolvimento de um sistema de transporte, por exemplo.

Nessa linha, o trabalho que a CNI quer levar aos debates políticos enfatiza a necessidade de privilegiar projetos voltados ao transporte público, em redes de ligação de vários modais.

Para reforçar a defesa dos investimentos em transporte coletivo, o estudo da CNI cita que o morador de uma grande cidade gasta 2,93 minutos para percorrer 1 quilômetro em transporte coletivo. Um automóvel gasta 2,67 minutos para percorrer a mesma distância. Essa diferença, de segundos revela, segundo a entidade, que o ganho do transporte individual deixou de ser significativo em uma metrópole.

Desde a década de 1940, o Brasil urbano multiplicou sua população em 14 vezes, o que significa que 85% dos habitantes do país está nas cidades. Mas desde os anos 1960, a mobilidade nas grandes cidades brasileiras tem se baseado no modo rodoviário. A partir da década de 70, todos os sistemas de bondes começaram a ser desativados, o que deu lugar à hegemonia do transporte sobre rodas.

A proposta que a CNI destaca em sua pesquisa é a utilização do transporte coletivo de alto rendimento para os deslocamentos rotineiros. A integração de diversos modais, inclusive as viagens a pé é, segundo a entidade, uma forma de garantir a expansão econômica.

Dessa forma, a entidade que representa a indústria considera que o automóvel, que ganhou projeção "pela mágica do deslocamento imprevisível", revela-se agora como inadequado como "meio hegemônico de transporte motorizado nas cidades". "Na grande cidade contemporânea, os automóveis não podem mais ser protagonistas. Precisam ser coadjuvantes", destaca o estudo.

A CNI reconhece, no entanto, que "não será simples implantar ou mesmo propor uma alternativa ao atual modelo". Entre 2003 e 2010, o crescimento demográfico no Brasil alcançou de 13% enquanto o aumento da frota de veículos foi de 66%.

Fernandes lembra como cidades como Tóquio têm conseguido povoar o entorno de estações de trem e metrô com moradias, escritórios, shopping centers e demais estruturas necessárias para manter os habitantes próximos dos pontos de deslocamento. No Brasil do passado, por exemplo, a proximidade às estações de trem foi decisiva para a implantação de equipamentos comerciais e de serviços.

Para Fernandes, é urgente, por isso, que o país coloque na agenda de discussão política a necessidade de criar um sistema com multiplicidade de uso de modais e ampliação e facilidade de conexões. Este pode também ser um caminho, segundo a CNI, para cumprir os compromissos de sustentabilidade.

Fernandes lembra que muitas empresas têm enfrentado dificuldades na contratação de profissionais por conta da dificuldade na locomoção em determinada região. Isso acaba por prejudicar o desenvolvimento dos centros de pesquisa e a intelectualidade. "As megacidades serão o cenário concentrador da inovação nas próximas décadas", prevê o estudo da CNI. Segundo a entidade, ao contrário do que se pregava no passado, "os ganhos econômicos da metropolização são maiores do que os da descentralização urbana".

Com a concentração do uso do meio rodoviário, com foco no automóvel, os espaços urbanos para moradias se espalharam. A distância do local de trabalho que muitos passaram a enfrentar trouxe graves consequências a partir dos congestionamentos e falta de opções de transporte. Para o brasileiro das classes mais altas, que dirige o próprio automóvel, o tempo de deslocamento é cada vez maior e mais desconfortável. Quem pega ônibus enfrenta ainda mais problemas. Mas são as classes mais pobres que mais sofrem e que fizeram surgir o que a CNI chama de "cidade informal dos loteamentos e favelas". São as pessoas que preferem morar mal perto do trabalho do que ter de enfrentar a angústia diária do deslocamento.

FONTE: VALOR ECONÔMICO

Desemprego chega a 11,6% na RMR

Indicador apresenta elevação em relação ao mês anterior, que somou 10,9%. Por outro lado, é o menor percentual já verificado pela pesquisa para um mês de julho

O número de desempregados da Região Metropolitana do Recife (RMR) chegou a 206 mil pessoas em julho, 11 mil a mais que em junho. A taxa passou de 10,9% em junho para 11,6% mês passado. A RMR foi a única a registrar alta na taxa na comparação com as demais capitais analisadas pela Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). Os dados locais foram divulgados pela Agência Codepe-Fidem.

Na média das capitais, a taxa de desemprego manteve-se estável pelo quarto mês consecutivo, ficando em 10,7%. Fortaleza não teve variação (9,7%), assim como as demais regiões. O número de desocupados no País é estimado em 2,4 milhões de pessoas.

Apesar da alta de julho na RMR, o resultado foi o menor para julho desde o início da pesquisa, em 1997. Comparado a julho de 2011, foram geradas 94 mil ocupações.

Na variação mensal, os setores que apresentaram queda foram os de indústria de transformação (2,0%), comércio e reparação de veículos (3,7%) e serviços (0,6%), enquanto a construção civil manteve-se estável, com 129 mil ocupados.

Já no comparativo anual, a construção civil teve uma elevação significativa comparada aos demais setores, registrando aumento de 30,3%, enquanto comércio e reparação de veículos teve alta de 5,2%, seguido de serviços, com elevação de 5,1%. No ano, indústria de transformação teve queda de 1,3%.

O diretor de estudos e pesquisas socioeconômicas da Condepe-Fidem, Rodolfo Guimarães, aponta os fatores que influenciaram no resultado mensal, como as flutuações econômicas. O diretor explica, no entanto, que o resultado não vai mudar as tendências. “O recuo de vagas em julho se deve a questões como a sazonalidade, período logo após as comemorações de Dia das Mães, Semana Santa e São João, além da saída da população da Região Metropolitana por conta das férias do meio do ano.”

Na comparação entre julho deste ano e o mesmo mês do ano passado, a taxa de desemprego na RMR teve uma diminuição, passando de 13,7% para os atuais 11,6%. A queda deve-se à redução da taxa de desemprego aberto (queda de 9,0% para 7,6%) – contabilizando pessoal que procurou trabalho nos 30 dias anteriores à pesquisa e que não exerceram nenhuma atividade nos últimos sete dias da realização da entrevista – e do desemprego oculto (de 4,7% para 4,0%) – considerando as pessoas que realizaram algum trabalho remunerado de forma irregular, procuraram mudar de trabalho 30 dias antes da pesquisa ou mesmo que não procurou trabalho desestimuladas pelo mercado ou demais circunstâncias.

A PED é realizada no Distrito Federal e nas regiões metropolitanas de Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, São Paulo, Recife e Fortaleza pelo Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e a Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade). Em Pernambuco, a Agência Estadual de Planejamento e Pesquisas de Pernambuco (Condepe-Fidem) coordena a pesquisa.

FONTE: JORNAL DO COMMERCIO (PE)

Ana Costa - Semente do samba

A mata – Manuel Bandeira

A mata agita-se, revoluteia, contorce-se toda e sacode-se!
A mata hoje tem alguma coisa para dizer.
E ulula, e contorce-se toda, como a atriz de uma pantomima
trágica.
Cada galho rebelado
Inculca a mesma perdida ânsia.
Todos eles sabem o mesmo segredo pânico.
Ou então - é que pedem desesperadamente a mesma instante coisa.

Que saberá a mata? Que pedirá a mata?
Pedirá água?
Mas a água despenhou-se há pouco, fustigando-a, escorraçando-a,
saciando-a como aos alarves.

Pedirá o fogo para a purificação das necroses milenárias?
Ou não pede nada, e quer falar e não pode?
Ter surpreendido o segredo da terra pelos ouvidos finíssimos
das suas raízes?

A mata agita-se, revuloteia, controce-se toda e sacode-se!
A mata está hoje como uma multidão em delírio coletivo.

Só uma touça de bambus, à parte,
Balouça... levemente... levemente... levemente...
E parece sorrir do delírio geral.