sábado, 7 de dezembro de 2024

A esquerda perdeu? - Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Apesar de insucessos eleitorais, esquerda parece ter triunfado ao emplacar teses que se tornaram o pensamento convencional

Há uma espécie de consenso de que a esquerda está em crise. Ela ainda obtém vitórias eleitorais em alguns países, como o Uruguai e o México, mas experimentou recentes reveses em vários outros, como Estados Unidos e Argentina. A esquerda estaria com dificuldades para adaptar seu discurso para os tempos atuais.

Não discordo da necessidade de atualização da pauta, mas receio que o quadro seja mais complexo. Dependendo da medida escolhida, dá para dizer que a esquerda triunfou.

Quem me chamou atenção para isso foi José Eli da Veiga, que me mandou uma interessante discussão entre o cientista político francês Vincent Tiberj e o ex-ministro da Educação Jean-Michel Blanquer travada nas páginas do Le Monde.

Resumindo bastante o longo texto, embora os eleitores estejam votando cada vez mais em partidos de direita e mesmo de extrema direita, pesquisas de opinião mostram que os cidadãos abraçaram várias teses da esquerda, como a da igualdade entre homens e mulheres, do direito a casamento para homossexuais, a rejeição à pena de morte e até mesmo a abertura à imigração.

Em 1992, 44% dos franceses concordavam com a ideia de que imigração é "uma fonte de enriquecimento cultural". Em 2022, apesar dos avanços da direita xenófoba, esse número subira para 73,5%.

Esse tipo de paradoxo não está restrito à França. Não faz tanto tempo atrás, casamentos interraciais eram vistos como imorais por grande parte da população e quem dissesse que lugar de mulher é a cozinha não seria tomado por reacionário ou louco.

Penso que o relativo sucesso ideológico da esquerda é parte da explicação para seus insucessos eleitorais. Depois que suas ideias se tornaram o pensamento convencional, os partidos ficaram sem novas propostas com apelo geral para apresentar. E parecer parado no tempo não é bom para partidos, em particular para partidos de esquerda que se pretendem as engrenagens da mudança.

A direita soube ocupar esse vácuo. É a extrema direita que vem hoje com o discurso da ruptura, que ecoa entre jovens e grupos demográficos que se sentem abandonados.

 

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