sábado, 7 de dezembro de 2024

O Fefaetiapá® - Eduardo Affonso

O Globo

Ministério da Saúde tomou para si o encargo de propagar picaretagens etimológicas, a título de luta antirracista

Já deveria estar no calendário de eventos da Embratur: em fevereiro (ou março) tem carnaval; em abril, a Alvorada de São Jorge, em Quintino; em junho, o Festival Folclórico de Parintins e o São-João de Campina Grande; em outubro, a Oktoberfest e, em novembro, o Festival de Falsas Etimologias.

Normalmente bancado com verbas públicas, o Fefaetiapá® (Festival de Falsas Etimologias que Assola o País) celebra a disseminação e consolidação das FNBs (Fake News do Bem), um tipo de desinformação inclusiva, empática, que goza de imunidade. Não está na mira do STF, não precisa ser removida das redes sociais e recebe o selo de garantia de ministérios públicos, universidades federais, tribunais de Justiça.

Neste ano, foi o Ministério da Saúde. Talvez por não precisar se preocupar com gerenciamento de vacinas, epidemia de dengue, doenças dizimando ianomâmis, falta de medicamentos contra o câncer de mama ou aumento dos casos de aids, o MS tomou para si o encargo de propagar picaretagens etimológicas, a título de luta antirracista. É que deve ser muito mais fácil proteger o cidadão de termos como “inhaca” do que contra o bacilo de Koch (65,2% dos casos de tuberculose no Brasil foram registrados na população negra, mas isso não deve ter nada a ver com desigualdade, racismo estrutural etc.).

Por que acreditar em Caldas Aulete, Aurélio, Houaiss, Michaelis, Priberam e Antenor Nascentes (que atestam que inhaca vem do tupi yákwa e significa odoroso, sem relação com preconceito ou ilhas moçambicanas) se o delírio decolonialista de reescrever a História (e a língua) é mais sedutor?

Aliás, se quisessem focar em termos efetivamente originários do escravismo, poderiam tentar cancelar o uso de “carimbo”, “chimarrão” e “estou ferrado”. Mas isso demandaria pesquisa e uma briga feia com burocratas, gaúchos e contribuintes em geral. Não vale a pena.

Na edição 2025 do Fefaetiapá®, outros ministérios cuja verba foi cortada (como o da Educação, que perdeu R$ 1,6 bi) e que não têm problemas para resolver (os alunos do ensino básico sabem tabuada, a evasão escolar é ínfima, as universidades têm vasta produção acadêmica) poderão, quem sabe, lançar mais cartilhas.

Em prol da renovação, sugiro que deixem de lado criados-mudos, empregadas domésticas e dar com o pau (que já deram o que tinham que dar) e invistam em novas lorotas. Por exemplo:

“Saudações rubro-negras”: racista por ser a forma como os senhores de engenho do Amapá se dirigiam aos afrodescendentes que retornavam, ensanguentados, depois de passar o dia cortando cana;

“Deu pau no HD”: racista porque os agadês seriam valentes habitantes do litoral de Uganda, frequentemente vítimas de espancamento antes de ser embarcados à força para as colônias das potências neoliberais;

“Senha inválida. Tente novamente”: Racista porque... bem, é só botar a imaginação para funcionar. Se faltar criatividade, faça um workshop com quem inventou que havia racismo em “feito nas coxas”, “buraco negro” e “esclarecer”.

(O Fefaetiapá® é uma homenagem a Stanislaw Ponte Preta, autor do genial “Samba do crioulo doido” — que de racista nunca teve nada. Era, ao contrário, uma crítica à imposição de temas históricos para os sambas de enredo. Um manifesto inteligente e libertário, coisa que nenhuma dessas cartilhas consegue ser.)


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