sábado, 30 de maio de 2026

O desafio de pensar o futuro, por Marco Aurélio Nogueira*

O Estado de S. Paulo

O futuro depende de projetos bem concatenados e da gestação, nas sociedades, de ‘blocos históricos’

Sempre pedimos ao passado para nos ajudar a entender as agruras do presente. O passado determina muitas coisas. Modela experiências, individualidades e relacionamentos. Forma estruturas difíceis de serem modificadas. Condiciona não pela transmissão de “heranças malditas”, mas pelo que contém de tradições, valores e percursos reiterados. Carrega cultura no ventre. A história é sempre permanência e mudança, continuidade e descontinuidade.

O passado não nos domina. “Eu não vivo no passado, o passado vive em mim”, cantou Paulinho da Viola. Sua herança nos chega sem um testamento ou um roteiro a ser seguido. Não guia nossos passos, não diz o que devemos fazer com ele. A falta de clareza sobre o futuro é que nos leva a buscar explicações no passado.

Na vida concreta, vivemos sempre naquilo que Hannah Arendt chamou de “lacuna temporal entre o passado e o futuro”.

O passado é disputado. Luta-se para definir quem o interpreta e como faz isso. Alguns se valem de omissões e silêncios calculados, outros valorizam os “heróis da Pátria”. Há os que elogiam aspectos tenebrosos do passado, para tentar copiá-los. Outros falam em “forças do atraso” para qualificar aquilo que resiste ao progresso. E outros, ainda, adotam as próprias glórias passadas como marcas identitárias.

No Brasil, endeusar os anos de ditadura militar serve para defender a existência de um tempo pretérito em que todos teriam sido felizes e não sabiam. Nos EUA, Donald Trump usa o passado como arma política, empregando-o para ressignificar a história. Putin, na Rússia; Xi Jinping, na China; e Narendra Modi, na Índia, imaginam usar o passado para blindar seus poderes presentes e controlar o futuro.

Estudar o passado é essencial para que se compreendam as mudanças sociais, as estruturas de poder, as práticas, os hábitos, o jeito de ser, a linguagem. Explica, por exemplo, a condição dos negros, com seus antepassados escravos, e das mulheres, que ainda dialogam com a tradição machista e patriarcal que vigorou desde sempre.

Acontece que o passado não é um peso morto atado às pernas da sociedade. Não é um fardo que bloqueia o futuro. É uma força que se estende ao presente. Ele é processado, deglutido, incorporado no correr da história. Ele se consome dentro de si mesmo, “se acabando a cada minuto, mas sem acabar de se acabar nunca” (Gabriel García Márquez). Cada época traduz o passado conforme suas circunstâncias, seus valores e sentimentos, sua ideia de futuro.

Não temos como conceber o futuro por antecipação. Impossível saber se ele será melhor ou pior. Em nossa era de crises em alta e utopias progressistas em baixa, o futuro tornouse um cenário embaçado, visto como tendo mais perigos que esperança. Ficamos presos à sensação de viver um “presente eterno”, como se tivéssemos medo do futuro, como observou Elimar Nascimento na Revista Será? (15/5). Vivemos assustados e indignados, mas nossa indignação não encontra âncoras e diretrizes, nem gera construções e sujeitos coletivos.

Pensar o futuro é um desafio complexo. Não pode ser resolvido mediante uma bela ideia abstrata ou uma ideologia solta no espaço. O mundo não “caminha para” um lugar estabelecido. O pensamento linear, as causalidades simples e o mecanicismo não nos ajudam. Se for possível desenhar uma desejável progressão rumo ao futuro, precisaremos de exercícios dialógicos que cruzem visões distintas, recuperem o contraditório e leiam criticamente o presente e suas possibilidades.

O futuro depende de projetos bem concatenados e da gestação, nas sociedades, de “blocos históricos” que articulem interesses, deem suporte a políticas públicas progressistas, disseminem valores democráticos e apoiem governos que olhem para frente. Projetos que incluam sustentabilidade, distribuição de renda, energias renováveis, igualdade, segurança, gestão ambiental, justiça e educação de qualidade para todos.

Não temos isso no Brasil. Falta-nos uma governabilidade comprometida, distante da polarização tóxica, empenhada em melhorar a qualidade da política e formar lideranças que façam a mediação entre a sociedade e o Estado. Entre nós, as disputas políticas são medíocres, os consensos não se formam. E não surge ninguém – um partido, uma frente, um estadista, um leque de ideias – para sacudir a poeira e dar a volta por cima. Carecemos, em suma, de um “bloco histórico” com funções agregadoras e densidade ético-política.

Movimentos desse tipo não avançam no curto prazo. Pedem múltiplas articulações críticas para ligar interesses pessoais e interesse público, indivíduos e comunidade política, nações e mundo. Requerem abertura ao diálogo, aceitação do inusitado e interação reflexiva de uns com os outros.

Pensar o futuro só faz sentido a partir daí. É ocioso denunciar um amanhã que segue aberto. Também não dá para cultivar um otimismo ingênuo. Melhor é manter os olhos abertos para as possibilidades e as incertezas do presente, abraçando a esperança de que o humano continue a saber se reproduzir.

*Professor titular de Teoria Política da UNESP

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