CartaCapital
Na encíclica Magnifica Humanitas, Leão XIV
alerta para os perigos da tecnologia
Cometo a ousadia de abrir este modesto artigo com um trecho da encíclica Magnifica Humanitas do papa Leão XIV. “A tecnologia”, diz o texto, “pode curar, conectar, educar, cuidar da casa comum; mas também pode dividir, descartar, gerar novas injustiças. Na teoria, em si mesma, ela não é uma solução para os problemas da humanidade, assim como não é, em si mesma, um mal; todavia, na prática, não é neutra, pois tem o rosto daqueles que a concebem, financiam, regulam e utilizam. Por isso, a primeira escolha não é entre um ‘sim’ ou um ‘não’ à tecnologia, mas entre edificar Babel ou reconstruir Jerusalém: entre um poder que pretende dominar o céu e um povo que, unido na presença de Deus, começa o trabalho de reerguer os muros da convivência fraterna.”
A peça continua: “Evitemos, portanto, a
‘síndrome de Babel’; a idolatria do lucro, que sacrifica os mais fracos; a
uniformidade, que anula as diferenças; a pretensão de uma linguagem única –
mesmo digital – dedicada a traduzir tudo em dados e desempenhos, inclusive o
mistério da pessoa. Este é o risco da desumanização, construir o futuro
excluindo Deus e reduzindo o outro a um meio; uma tentação tão antiga e tão
nova que hoje também assume uma faceta técnica”.
Peço desculpas ao leitor pela longa citação,
mas entendo que esse trecho da encíclica é fundamental para avançar na
compreensão do espírito do cristianismo. Espírito que se manifestou nas
encíclicas Rerum Novarum de Leão XII, Mater et Magistra de João XXIII, Populorum
Progressio e Gaudium et Spes de Paulo VI e a Exortação Evangelii Gaudium do
papa Francisco.
Paulo VI escreveu: “Hoje há a possibilidade
de libertar muitos homens da miséria da ignorância, é dever muito próprio do
nosso tempo, principalmente para os cristãos, trabalhar energicamente para que,
tanto no campo econômico quanto no político, no nacional como no internacional,
se estabeleçam os princípios fundamentais segundo os quais se reconheça e se
atue em toda a parte efetivamente o direito de todos à cultura correspondente à
dignidade humana, sem discriminação de raça, sexo, nação, religião ou situação
social. Pelo que a todos se deve suficiente abundância dos bens culturais,
sobretudo daqueles que constituem a chamada educação de base, a fim de que
muitos, por causa do analfabetismo e da privação duma atividade responsável,
não se vejam impedidos de contribuir para o bem comum de modo verdadeiramente
humano”.
Na Pacem in Terris, João XXIII anotou: “O
progresso da ciência e as invenções da técnica evidenciam que reina uma ordem
maravilhosa nos seres vivos e nas forças da natureza. Testemunham, outrossim, a
dignidade do homem capaz de desvendar essa ordem e de produzir os meios
adequados para dominar essas forças, canalizando-as em seu proveito”.
Em 2013, o papa Francisco ofereceu aos
cristãos a Primeira Exortação Apostólica Evangelii Gaudium. Assim como as
encíclicas Rerum Novarum de Leão XIII, Mater et Magistra e Pacem in Terris de
João XXIII, a exortação apostólica de Francisco abordava as vicissitudes e
esperanças da vida cristã no mundo contemporâneo. Também em 2013, o pontífice
lamentou o espírito desse mundo que reduz o homem “a uma única das suas
necessidades: o consumo, e, pior ainda, o ser humano é considerado também um
bem de consumo que pode ser utilizado e jogado fora”. Inversamente, “a
solidariedade, o tesouro do pobre, é considerada contraprodutiva, contrária à
racionalidade financeira e econômica”. Isto se deve “a ideologias promotoras da
autonomia absoluta dos mercados e da especulação financeira, que negam o
direito de controle dos Estados”.
“Evitemos (…) o risco da desumanização”,
afirma o texto
Em 2015, durante audiência no Vaticano, o
papa disse que “o dinheiro é o esterco do diabo”, acrescentando que, quando o
capital se torna um ídolo, ele “comanda as escolhas do homem”. Aprisionado nas
engrenagens impessoais da economia sem alma, o homem sem escolhas entrega seu
destino ao diabo e a seus estercos.
Na edição de 17 de maio de 2018, o Osservatore
Romano registra a divulgação do documento Oeconomicae et Pecuniariae
Quaestiones elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Na introdução, o
texto revela seu propósito de avaliar a supremacia dos mercados financeiros –
os estercos do diabo – e suas consequências na vida de homens e mulheres que
habitam o mundo dos vivos. “A recente crise financeira poderia ter sido uma
ocasião para desenvolver uma nova economia mais atenta aos princípios éticos e
para uma nova regulamentação da atividade financeira, neutralizando os aspectos
predatórios e especulativos, e valorizando o serviço à economia real.”
Está em jogo o autêntico bem-estar da maior
parte dos homens e das mulheres do nosso planeta, que correm o risco de ser
confinados de maneira crescente sempre mais às margens, senão de serem
“excluídos e descartados do progresso… se queremos o bem real para os homens, o
dinheiro deve servir e não governar!”
Em entrevista sobre seu filme Satyricon,
Federico Fellini desvelou a alma que se escondia nos rostos de seus
personagens. As máscaras se debatiam entre o tédio das concupiscências e as
angústias da desesperança. Para o grande Federico, o filme escancarava “a
nostalgia do Cristo que ainda não havia chegado”.
Os homens e as mulheres estão habituados a
falar descuidadamente da herança judaico-cristã como se seus valores estivessem
desde sempre incrustados na nossa natureza, se é que temos uma. O cristianismo
foi um divisor de águas na história da humanidade, movimento revolucionário,
nascido das crueldades e das sabedorias do mundo greco-romano. Não por acaso a
palavra de Cristo encontrou terreno fértil no espírito dos pobres, dos fracos,
dos escravos. Até a alforria do Édito de Milão, promulgado pelo imperador
Constantino, a igreja floresceu entre a vida nas catacumbas e as perseguições
sanguinárias como as de Nero e Diocleciano.
No medievo, a Igreja transformou-se numa
imponente hierarquia e os poderes do mundo material frequentemente atropelaram
as palavras dos evangelhos. Não vou aborrecer os leitores com relatos das
crises que pontilharam a história da Igreja, eivada de cismas e heresias,
dividida pela Reforma, maculada pela Inquisição, atormentada por Copérnico e Galileu.
Tal como nas personagens do Satyricon, percebo nos católicos de hoje a
nostalgia do Cristo que não voltou. Mas, creia-me, o leitor, ele esteve entre
nós encarnado na simplicidade e na sabedoria camponesas de João XXIII, que, no
seu projeto do Concílio Vaticano II, falou por meio das encíclicas papais. •
Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

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