O conflito entre o novo e o velho,
modernidade e tradição, estabilidade e disrupção, não é novidade e se renova
sempre. Às vezes, assusta e preocupa. O movimento operário inglês, no início do
século XIX, liderado pelo Ludismo, invadia fábricas para quebrar máquinas e
teares, emblemáticos da primeira fase da Revolução Industrial, em protesto contra
o desemprego tecnológico e as péssimas condições de trabalho.
A história do desenvolvimento humano se
assemelha à imagem cunhada pelo economista austríaco Joseph Schumpeter de que o
motor das transformações seria a “destruição criativa”, definidora dos
sucessivos ciclos econômicos. O novo sempre gera ansiedade e apreensão. É o
medo em relação à seleção natural darwinista, com a sobrevivência dos mais
aptos e a exclusão daqueles que não se adaptam às inovações.
O domínio do fogo, a invenção da roda, a
máquina a vapor, o telégrafo, o motor à combustão, as ferrovias, a luz
elétrica, a telefonia, o domínio da química, a indústria automobilística, a
aviação, a energia nuclear, a internet, entre outras inovações, determinaram o
aumento da produtividade da economia, a criação de novos negócios e a melhoria
da qualidade de vida.
A Inteligência Artificial é a bola da vez. A
dimensão ainda não completa de seus impactos e das transformações velozes e
profundas que estão por vir deixam mil interrogações no ar. Algumas projeções
são assustadoras. Os efeitos de qualquer inovação revolucionária são sempre
contraditórios. Teremos máquinas e robôs inteligentes e autônomos? Quais são os
padrões morais e éticos que os orientarão? A IA tanto poderá garantir um salto
educacional, como servir ao crime organizado. Poderá ser um grande avanço
cultural, mas também sofisticar as armas e a guerra.
Em boa hora, o Papa Leão XIV lançou a
Encíclica Magnifica Humanitas sobre o momento em que vivemos e os seus desafios.
“Não significa renunciar à tecnologia, mas impedir que ela domine o ser
humano”. Combatendo o monopólio das grandes plataformas sobre algoritmos e
paradigmas tecnológicos. Incorporando a diversidade de culturas e de formas de
vida. Gerando códigos éticos para apropriação das inovações derivadas da IA.
Aliviando o ser humano de trabalhos e tarefas pesadas, repetitivas e perigosas,
mas com atenção às vítimas inevitáveis do “desemprego tecnológico”.
Nossa atual dependência do mundo digital
chega a ser doentia e preocupante. Assusta-me no aeroporto, na praia, nos
restaurantes ou na academia de ginástica, o fenômeno da hiperconectividade. Não
se abandona a tela do celular nem por um minuto sequer. Não contemplamos mais a
vida e a natureza. Não guardamos espaço
para a reflexão e a imaginação. O espaço de diálogo e convívio é cada vez
menor. O avanço da IA vai aguçar esses traços.
Não estou pedindo um “Ludismo” pós-moderno,
simplesmente que ouçamos as ponderações de Leão XIV e sua Encíclica.

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