Por Jeniffer Gularte e Sérgio Roxo – O Globo
Texto afirma que ação de opositores é 'deplorável' e feita por 'falsos patriotas'
O governo Lula afirmou em nota que rejeita
qualquer "interferência" e que a soberania é "inegociável"
após os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o
Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. O texto traz ataques à família
Bolsonaro e diz que a medida foi tomada após uma "manipulação
política" feita por "falsos patriotas, envolvidos com o crime
organizado". O próprio presidente também se manifestou em discurso nesta
manhã afirmou que as facções são "terroristas
para os brasileiros e não como Trump quer".
O governo era contra a medida, que foi tomada dois dias após o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência, se reunir com o presidente Donald Trump na Casa Branca. Flávio e aliados comemoraram a iniciativa de Trump.
"A segurança da nossa população é
importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam
confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime
organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos
brasileiros", diz a nota do Planalto.
O texto lembra ainda a ação do ex-deputado
federal Eduardo Bolsonaro e aliados quando o governo americano impôs o tarifaço
a produtos brasileiros.
"É deplorável que mais uma vez
integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender
intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou
tantos danos ao nosso país", diz a nota.
O comunicado ressalta ainda projetos do
governo na área da segurança, como a Lei Antifacção, aprovada no Congresso. Uma
das preocupações do Planalto é evitar que a crítica à medida adotada pelos EUA
soe como um discurso que "protege bandidos", já que a esquerda
historicamente é vista como mais leniente com o combate ao crime do que a
direita. O governo aponta ainda possíveis riscos para o funcionamento do Pix,
sem apresentar detalhes.
"Aprovamos recentemente uma lei de
combate às facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a
maior prevista em toda a legislação brasileira. O Governo do Brasil conduz o
programa “Brasil contra o Crime Organizado”, que combate as facções e milícias
desde o seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima", ressalta a
nota.
Leia a íntegra
O Brasil é uma nação soberana que tem travado
combate permanente contra o Primeiro Comando da Capital (PCC), o Comando
Vermelho (CV) e as demais facções e milícias que praticam o terrorismo nos
territórios em que vivem milhões de famílias. Enfrentar essas organizações
criminosas com firmeza é, e continuará sendo, prioridade do Estado brasileiro.
O terror causado por essas organizações em
comunidades busca obter lucro através do crime, especialmente pelo tráfico de
drogas e armas, e não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos
ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional.
A segurança da nossa população é importante
demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir
esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que
pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros.
É deplorável que mais uma vez integrantes da
família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção
estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao
nosso país.
Aprovamos recentemente uma lei de combate às
facções e milícias com penas que chegam a até 80 anos de prisão – a maior
prevista em toda a legislação brasileira. O Governo do Brasil conduz o programa
“Brasil contra o Crime Organizado”, que combate as facções e milícias desde o
seu braço armado nas esquinas até o seu andar de cima.
O crime organizado não respeita fronteiras e
seu combate exige ação conjunta. Construímos, ao longo de décadas, parcerias
com vários países, inclusive com os Estados Unidos. O Brasil apresentou em 16
de abril deste ano, ao Departamento de Estado dos EUA, uma proposta focada na
inteligência e na cooperação internacional que inclui ampliação dos controles
sobre a lavagem de dinheiro praticada no exterior e sobre o tráfico de armas
enviadas ao Brasil.
Qualquer colaboração internacional para o
combate às facções será bem-vinda. Seguimos dispostos a construir soluções
conjuntas benéficas aos países envolvidos. Mas não aceitaremos o uso de medidas
arbitrárias vindas do estrangeiro como pretexto para atacar a nossa soberania e
a nossa economia.
Medidas unilaterais, não negociadas, podem
enfraquecer o combate aos criminosos e gerar ações que colocam em risco a vida
das pessoas que nada têm a ver com o crime. Podem reduzir a capacidade de
compartilhamento de informações entre as polícias. Podem afetar nosso sistema
financeiro e inovações nacionais como o PIX, que incomodam interesses
estrangeiros.
Em resumo, trata-se de possível retrocesso no
combate ao crime, risco à vida das pessoas e prejuízos econômicos ao país.
A soberania nacional é inegociável. O Brasil
rejeita qualquer forma de interferência externa em seus assuntos internos. Quem
define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os
brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança."
A estratégia do governo
Como mostrou O GLOBO, o governo havia
decidido insistir no tema soberania em resposta.
O caminho é visto como uma forma de se
contrapor a Flávio , pré-candidato a presidente, que comemorou a decisão,
tomada dois dias depois de sua visita a Trump.
Assim como feito na época da decretação do
tarifaço em julho do ano passado, Lula e seus aliados planejavam frisar que a
família Bolsonaro trabalha contra os interesses do país, já que a classificação
das facções como grupos terroristas pode prejudicar empresas brasileiras.
A amplitude da medida pode ter impactos no
mercado financeiro, pela possibilidade de sanções diante da infiltração do
crime organizado em setores formais da economia, e nas relações diplomáticas os
dois países, uma vez que os EUA já usaram o combate ao “narcoterrorismo” como
justificativa para ações militares fora do seu território.
Depois do encontro de Lula com Trump no dia
8, o governo brasileiro considerava que a possibilidade de classificação do PCC
e do CV não estava na perspectiva imediata dos americanos. Por causa do clima
amistoso entre os dois presidentes, a expectativa era que um anúncio desse tipo
não ocorresse. Assim, o Planalto foi pego de surpresa com a decisão de
quinta-feira do Departamento de Estado dos EUA.
Na semana passada, em entrevista ao GLOBO, o ministro Wellington Lima e Silva havia dito que não via possibilidade de a medida ser adotada em um “horizonte próximo”.

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