sábado, 6 de junho de 2026

O que a mídia pensa | Editoriais / Opiniões

Há saídas para Brasil enfrentar tarifas americanas

Por O Globo

Além de ampliar lista de exceções, país pode diversificar exportações para China e, sobretudo, Europa

Não há como menosprezar o impacto da investida tarifária disparada pelos Estados Unidos na direção do Brasil. Se vingarem as duas ondas — a primeira derivada de uma investigação específica de práticas comerciais brasileiras, a segunda com base em acusações de uso de trabalho forçado dirigidas a 60 países —, produtos brasileiros serão submetidos a taxas de até 37,5% para entrar no mercado americano. Mas também não se deve menosprezar a capacidade de adaptação da economia brasileira para mitigar os efeitos dessas medidas. Há duas vias de escape às tarifas, e ambas vêm sendo desbravadas.

A primeira via é a lista de exceções aberta pelo próprio governo americano na investigação que recomenda as tarifas, incluindo commodities como carne e café, além de dezenas de outros produtos que interessa aos Estados Unidos continuar comprando do Brasil — na prática, as tarifas mais elevadas recaem sobre algo como um quinto das exportações brasileiras, a maioria industriais. Enquanto essa lista não estiver fechada, os negociadores do Itamaraty e grupos empresariais farão todo tipo de pressão para ampliá-la. Os americanos já se disseram abertos e poderão ceder em vários mercados.

A segunda via de escape é a mais relevante. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou que, se os Estados Unidos não quiserem comprar do Brasil, venderemos para outros países. Na prática, é o que já vem acontecendo. Enquanto as exportações para os americanos caíram 16% no ano passado (de R$ 16,6 bilhões para R$ 14 bilhões), as vendas aos chineses cresceram 22% (de R$ 37,9 bilhões para R$ 46,2 bilhões). A participação chinesa no total de importações de produtos brasileiros cresceu de 28% para 31%, enquanto a americana caiu de 12% para 9%. Já diminuiu, portanto, a importância do mercado americano para os exportadores brasileiros.

A maior oportunidade de diversificação parece estar não apenas na China, mas sobretudo na União Europeia (UE), cuja participação nas compras do Brasil caiu de 15% para 14,7%, embora em valor elas tenham subido, de R$ 20,4 bilhões para R$ 21,8 bilhões. Com o distanciamento dos Estados Unidos da Europa, abalando a aliança atlântica, surgiu uma oportunidade de aproximação com o Brasil. Ela ganha força com o acordo comercial Mercosul-UE, que entrou em vigor no início de maio, mesmo parcialmente.

Os benefícios para a economia brasileira serão enormes. Além de ampliar o mercado de exportação, o tratado beneficia o país ao expor setores industriais e de serviços à competição externa. Uma vez consolidado, o bloco comercial reunirá 720 milhões de habitantes, pouco mais que o dobro da população americana, com PIB conjunto de US$ 22 trilhões, menor que o americano e pouco maior que o da China.

No período de 27 anos em que o acordo foi negociado, a agropecuária brasileira deu um salto, a ponto de passar a ser temida pelo setor agrícola europeu. Da mesma forma, setores industriais e de serviços no Mercosul temem empresas europeias. Ambos os lados ganharão com a competição mútua. O Brasil precisa aproveitar para se modernizar e extirpar bolsões de ineficiência que persistem na economia. Se o mercado americano se fecha, o europeu se abre, e o chinês continuará ávido por produtos brasileiros. Não há, portanto, nenhum motivo para pânico com as tarifas americanas.

Investigação sobre venda de sentenças no Judiciário deve prosseguir até o fim

Por O Globo

Zanin fez bem em prorrogar prazo de inquérito que apura esquema envolvendo Justiça local e STJ

Foi acertada a decisão do ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal (STF), de manter na Corte inquéritos que apuram venda de sentenças judiciais e de prorrogar o prazo das investigações. Na última semana de maio, a Procuradoria-Geral da República (PGR) denunciou nove suspeitos, sob a acusação de acesso indevido e venda de decisões no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Há mais a apurar. Como alguns alvos investigados têm direito a foro especial por prerrogativa de função, Zanin manteve parte dos inquéritos no STF. Ele enviou outros inquéritos sobre irregularidades em Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Tocantins a tribunais de instância inferior.

No dia 5 de dezembro de 2023, o advogado Roberto Zampieri foi morto a tiros em frente a seu escritório em Cuiabá. No celular dele, os policiais encontraram registros de negociações sobre a venda de decisões judiciais em diversos tribunais. De lá para cá, a Polícia Federal (PF) deflagrou operações que resultaram em mandados de busca e apreensão para apurar a suspeita de crimes como formação de organização criminosa, corrupção, violação de sigilo funcional e lavagem de dinheiro. Zampieri, como as investigações revelaram depois, era cliente de esquemas em tribunais locais e de um com atuação no STJ.

O trabalho policial colheu indícios e provas contundentes sobre acesso antecipado a minutas de voto, influência na distribuição de processos e atuação coordenada para dirigir resultados. De acordo com relatório da PF, entre 2019 e 2023 funcionou um “mercado paralelo de influência” no STJ com a atuação de três núcleos: servidores do tribunal, advogados, intermediários e empresários, sobretudo do setor agroindustrial.

Entre os denunciados pela PGR estão Daimler Campos, ex-chefe de gabinete da ministra Isabel Gallotti, e Márcio Toledo Pinto, ex-técnico judiciário do STJ que atuou no gabinete da ministra Nancy Andrighi. “O desenvolvimento das apurações afastou qualquer elemento de vinculação subjetiva das referidas autoridades aos fatos examinados”, afirmou o procurador-geral da República, Paulo Gonet. Em manifestação que acompanhou a denúncia, Gonet disse não haver referência aos nomes das ministras. Embora não haja indício de envolvimento delas, outros integrantes do Judiciário ainda estão no radar da polícia.

As investigações sobre venda de sentenças judiciais precisam prosseguir e ser aprofundadas. Nada pode ser mais prejudicial à imagem da Justiça brasileira do que a proteção a altas autoridades envolvidas em crimes ou irregularidades. Não pode pairar nenhuma dúvida sobre a idoneidade de quem tem a responsabilidade de tomar decisões judiciais. Além de investigar, denunciar e julgar os acusados, é preciso tomar medidas para evitar que novas máfias tomem conta de tribunais em Brasília e no resto do país.

Má gestão eleva a conta de luz

Por Folha de S. Paulo

Governo Lula e Congresso criam quase R$ 1 tri em novos custos a serem repassados às tarifas até 2050

Ministério de Minas e Energia contesta, alegando que benefícios não foram computados; país aproveita mal sua matriz energética limpa

O sistema elétrico brasileiro vive um crescente desequilíbrio. Em vez de planejamento de longo prazo, o que prevalece é uma sucessão de decisões tecnicamente frágeis e rendição política a interesses setoriais, com custos crescentes para os consumidores.

Levantamento da Frente Nacional dos Consumidores de Energia estima que o governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e a atual legislatura já contraíram quase R$ 1 trilhão em custos adicionais que serão repassados à tarifa até 2050.

A maior fatia, de R$ 546 bilhões, vem do recente Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap). Somam-se a isso despesas extras como os R$ 197 bilhões inseridos pelo Congresso Nacional sob pressão de lobbies no marco das eólicas offshore e as prorrogações de incentivos a fontes renováveis.

O Ministério de Minas e Energia contesta a metodologia do cálculo, alegando que benefícios não foram computados. Mesmo com ressalvas, não há dúvida de que se acelera a tendência de aumento dos custos de energia.

A Conta de Desenvolvimento Energético, fundo com subsídios para políticas públicas no setor, chegou a cerca de R$ 50 bilhões no ano passado. O impacto não se limita ao consumidor residencial, afetando também a competitividade, sobretudo da indústria.

Um dos sintomas mais graves da desorganização é o crescimento descontrolado da geração solar distribuída. Com estímulos criados quando a tecnologia era cara, o Brasil ultrapassou 60 GW de geração solar, a maior parte em unidades de pequeno porte.

À diferença das usinas centralizadas, controladas pelo Operador Nacional do Sistema (ONS), essa energia é injetada diretamente nas redes de distribuição.

O descompasso entre oferta e demanda ao longo do dia, quando a geração solar é abundante, resulta no chamado "curtailment" —o corte forçado para não desestabilizar o sistema. Em 2025, essas medidas chegaram a 20% da oferta renovável potencial, ante apenas 3,3% em 2023, causando prejuízos para geradores.

Quando não há geração dessas fontes, o sistema fica dependente de usinas térmicas, mais caras.
Foi para enfrentar o desequilíbrio entre oferta intermitente e pico noturno que o governo realizou o LRCap. O certame contratou quase 19 GW de potência para os momentos críticos.

Adiado por anos, o leilão inicial teve preço-teto considerado insuficiente. Em 72 horas, o ministério alterou os parâmetros e elevou os limites em até 100%, ocasionando contestações jurídicas.

Ou os critérios técnicos foram mal definidos desde o início, revelando falha de planejamento, ou o governo cedeu a pressões de interessados. Nenhuma das hipóteses inspira confiança.

O Brasil tem uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta, mas transforma essa vantagem em vulnerabilidade por má gestão. Será preciso modernizar redes de transmissão e distribuição e racionalizar subsídios que já cumpriram seu papel.

Águas subterrâneas em risco no Brasil

Por Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra que, em alguma regiões do país, os aquíferos não conseguem repor seus estoques

Secas agravadas pela mudança climática, atividade agropecuária e desmatamento estão relacionados à baixa recarga do recurso natural

O Brasil tem o maior volume de água doce renovável do planeta, mas essa abundância se dá em conjunto com vulnerabilidades regionais e não torna o país imune aos efeitos do aquecimento global e de atividades produtivas.

A imensa parte da riqueza hídrica do país fica escondida. Cerca de 95% da sua água está em aquíferos (reservatórios naturais subterrâneos), e estima-se que esse estoque responda por 55% da demanda nacional.

O problema é que, como vem ocorrendo em escala global, já há regiões no Brasil que não conseguem repor essa água subterrânea. É o que mostra artigo publicado, nesta semana, por cinco pesquisadores brasileiros no periódico Science Advances.

Segundo o estudo, a altura média da recarga das águas subterrâneas no país em zonas de afloramento, entre 2002 e 2023, foi de 223 mm por ano, o que representa 12% da precipitação média anual (o quanto choveu por ano).

Na amazônia, mais úmida, há áreas em que a recarga vai de 300 mm a 800 mm. Já no Nordeste, de 0 até 100 mm, e no Centro-Oeste, de 100 mm a 300 mm.

Outro indicador relevante é a tendência de alta ou de redução da recarga ano a ano. Em zonas robustas do Centro-Oeste e do Sudeste, com ramificações que sobem até o Norte, verificam-se as categorias forte (−3,6 a −0,9 mm/ano²) e moderada (−0,9 a −0,25 mm/ano²) de queda.

Áreas e aquíferos com diminuição persistente coincidem com a expansão da agropecuária e estiagens recorrentes, que se agravam com a crise do clima.

Árvores reduzem a força de precipitações, e raízes abrem canais no solo. Assim, o desmatamento impacta a absorção da água das chuvas, que acaba sendo arrastada, em vez de penetrar lentamente no solo até os aquíferos.

Base de uma parcela expressiva das riquezas produzidas no país, o setor agropecuário, que depende de água em larga escala, deve combinar modelos de irrigação sustentável e eficiente com diversificação de culturas mais resistentes ao clima seco.

Além disso, governos precisam monitorar continuamente os aquíferos para proteger as áreas de recarga sensíveis de extrações desmedidas, promover reflorestamento e conter derrubadas para favorecer infiltração da chuva e combater poluição que contamina reservatórios. A recarga gerenciada de aquíferos, para complementar a natural, pode ser avaliada em alguns casos aplicáveis.

São ações necessárias para que o Brasil preserve esse recurso vital que, apesar de abundante em seu território, é finito.

A soberania sequestrada

Por O Estado de S. Paulo

Trump e a família Bolsonaro entregaram a Lula a pauta da soberania como trunfo eleitoral, e certamente o PT vai caracterizar todo opositor do governo como entreguista

O presidente dos EUA, Donald Trump, e o clã Bolsonaro vêm prestando ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ao PT um serviço político de valor inestimável: devolveram à campanha presidencial deste ano a palavra “soberania”, que não faz muito tempo ajudou o presidente a recuperar um pouco sua popularidade e que os petistas, por isso mesmo, estavam ansiosos para resgatar.

Primeiro veio a classificação de facções criminosas como organizações terroristas, anunciada logo após a visita do candidato Flávio Bolsonaro à Casa Branca e que, segundo os petistas, abrirá caminho para ações americanas no Brasil. Em seguida, veio a ameaça dos EUA de impor novas tarifas sobre produtos nacionais e, supremo pecado, contra o Pix – inovação pública que se tornou parte da vida dos brasileiros de todas as ideologias e que incomoda os administradores americanos de cartões de crédito.

Pouco importa que as ações dos EUA sejam pautadas exclusivamente pelos interesses internos de Trump e que os esforços da família Bolsonaro para influenciar a Casa Branca a tomar decisões contra o Brasil, na expectativa de que prejudicassem Lula, são praticamente irrelevantes. O que importa, do ponto de vista da campanha eleitoral, é que Lula e os morubixabas petistas mais uma vez ganharam a chance de posar como defensores da soberania nacional diante de uma ingerência estrangeira. Não é pouco para um governo de resultados modestos e de uma candidatura, a de Lula, que nada tem a oferecer ao País.

Eis a armadilha brasileira. De um lado, o patriotismo de fancaria dos Bolsonaro, cuja devoção a Trump tornou-se disposição servil de buscar em Washington aquilo que não consegue obter nas instituições brasileiras. Não raro, integrantes do bolsonarismo tratam tarifas, sanções ou gestos de pressão contra o Brasil como vitórias de seu campo político, deixando de agir como oposição a Lula para se comportar como despachantes de interesses estrangeiros. De outro lado, há a transformação da soberania em ativo de campanha, como se o demiurgo petista fosse o único capaz de responder à altura ao imperialismo trumpista combinado à vassalagem bolsonarista.

É claro que não se pode permitir que o cálculo político de um governo estrangeiro redefina, segundo seus próprios interesses, os termos de um problema brasileiro. Mas isso não torna Lula proprietário do tema. A soberania nacional não pertence ao PT, à esquerda, à direita nem a qualquer governante de turno. Pertence ao Estado brasileiro e à sociedade que ele representa. O fato de Trump e os Bolsonaro terem aberto uma avenida política ao lulopetismo não obriga o País a aceitar que Lula desfile sozinho por ela, como se todo crítico de seu governo fosse cúmplice do entreguismo bolsonarista.

Convém separar o dever republicano da conveniência lulopetista. Defender o Brasil de pressões externas é obrigação de qualquer presidente, mas não se pode confundir soberania com licença para bravatas diplomáticas, protecionismo improvisado, estatismo anacrônico ou blindagem ideológica de um governo medíocre. Tampouco se deve permitir que a crítica legítima ao servilismo bolsonarista interdite o debate sobre os erros de Lula, sua política externa errática, sua dificuldade de modernizar a economia e sua incapacidade de apresentar uma política robusta de segurança pública.

Registre-se, porém, que há um limite eleitoral que Lula e o PT conhecem. Soberania é palavra nobre, mas vaga. Mobiliza sentimentos legítimos de dignidade nacional, porém não organiza sozinha as preocupações imediatas de quem enfrenta inflação de alimentos, insegurança, serviços públicos ruins, baixa renda e descrença na política. Para o eleitor comum, o tema só ganhará densidade se traduzido em consequências concretas: empregos preservados, exportações defendidas, empresas competitivas, crime enfrentado, fronteiras vigiadas, tecnologia protegida, instituições respeitadas e governo capaz de negociar com firmeza.

O Brasil tem o dever de reagir a qualquer tentativa de coerção estrangeira. Mas terá fracassado se essa reação servir apenas para alimentar a campanha de Lula ou encobrir a falta de projeto de seu governo. Soberania não é comício, nem salvo-conduto para populismo.

O desamparo das meninas estupradas

Por O Estado de S. Paulo

Resolução do Conanda que se intrometeu na esfera legislativa no caso de aborto legal em menores de 14 anos foi corretamente derrubada pelo Congresso, mas pelas razões erradas

A votação relâmpago que derrubou no Senado a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre o atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual expôs, mais uma vez, a incapacidade do debate público brasileiro de tratar o aborto legal como uma questão de saúde pública, proteção da infância e segurança jurídica.

Desde o princípio havia questionamentos legítimos sobre os limites jurídicos e institucionais da resolução. O texto determinava, por exemplo, que o aborto legal pudesse ser realizado sem a autorização dos pais da menina quando um profissional de saúde entendesse que ela tinha capacidade para tomar essa decisão e que a presença dos responsáveis poderia causar danos físicos, mentais ou sociais. O Conanda claramente avançou sobre competências do Congresso e relativizou o poder familiar previsto no Código Civil, razão pela qual os representantes do próprio governo Lula votaram contra sua aprovação no conselho. Não se tratava, portanto, de uma objeção exclusivamente conservadora. Os críticos argumentavam que uma resolução administrativa não poderia afastar, ainda que em situações excepcionais, regras previstas em lei nem transferir para profissionais de saúde decisões que envolvem direitos e responsabilidades atribuídos aos responsáveis legais.

Foi justamente esse ponto que transformou a resolução em alvo preferencial de parlamentares conservadores e abriu espaço para uma reação política que rapidamente ultrapassaria os limites da discussão jurídica. A fala da senadora Doutora Eudócia (PSDB-AL) após a votação evidenciou essa transformação. Ao comemorar a derrubada da resolução “para não favorecer a questão do aborto”, a parlamentar mostrou que o debate já não girava em torno dos vícios do texto, mas de uma disputa mais ampla sobre o próprio aborto legal. A derrubada de uma resolução administrativa passava a ser celebrada como vitória simbólica de uma causa que vai muito além dela.

A votação acabou incorporada a uma narrativa mais ampla segundo a qual seria possível frear avanços relacionados ao aborto legal, previsto no Código Penal desde 1940.

O aspecto mais perverso dessa dinâmica é que ela se desenrola enquanto a violência sexual contra crianças e adolescentes continua avançando de forma alarmante. Em audiência na Câmara dos Deputados nesta semana, a delegada da Polícia Federal Rafaella Parca lembrou que ocorre um estupro a cada seis minutos no Brasil. Segundo especialistas que participaram do debate, a maioria das vítimas de crimes sexuais são meninas entre 6 e 14 anos de idade.

Nesse contexto, a polarização produz consequências concretas. Profissionais de saúde continuam sujeitos a interpretações divergentes, serviços públicos adotam protocolos distintos e meninas vítimas de estupro seguem enfrentando obstáculos para acessar um direito previsto em lei há mais de oito décadas. O resultado é insegurança para quem atende, incerteza para quem precisa decidir e dificuldades adicionais para quem já chega aos serviços públicos em situação de extrema vulnerabilidade.

A resolução do Conanda continha problemas reais e merecia questionamentos. A reação conservadora, porém, rapidamente transformou esses problemas em mais um capítulo da disputa permanente em torno do aborto. No fim, permanecem sem resposta as questões que realmente importam: como garantir segurança jurídica aos profissionais de saúde, uniformidade aos serviços públicos e proteção efetiva às crianças vítimas de violência sexual.

Enquanto militantes dos dois lados seguem disputando vitórias simbólicas, o Brasil continua sem construir um marco estável, juridicamente seguro e politicamente sustentável para atender crianças vítimas de violência sexual. São elas, e não os grupos mobilizados nas redes sociais, nos plenários ou nas manifestações de rua, que continuam pagando o preço da incapacidade nacional de discutir o tema com serenidade e responsabilidade.

A ciência da segurança

Por O Estado de S. Paulo

Numa bem-vinda iniciativa, a Fapesp vai financiar projetos de pesquisa contra o crime

A Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) lançou uma ousada agenda, a ser implementada de 2026 a 2028. A ideia é destinar R$ 400 milhões para iniciativas disruptivas, complementando o orçamento de R$ 2 bilhões anuais já reservados aos projetos financiados regularmente. Serão custeadas propostas consideradas estratégicas para os desafios do século 21 em sete eixos: biotecnologia, transição energética, biodiversidade e segurança alimentar, transição digital e inteligência artificial, tecnologias quânticas, saúde humana e animal e violência e segurança pública.

É digna de elogio a decisão da Fapesp de financiar projetos de pesquisa de impacto com o intuito de apresentar soluções científicas para o problema da criminalidade no País. Eleger a violência e a segurança pública como um tema estratégico mostra a sintonia da agência com as demandas da sociedade brasileira. Segundo a mais recente pesquisa Genial/Quaest, a violência é atualmente a principal preocupação para 31% dos entrevistados, seguida por corrupção, com 18% das menções – dois temas do mundo do crime.

Como afirmou Marco Antonio Zago, presidente da Fapesp, em artigo publicado recentemente no Estadão (Ciência de resultados), a violência e a segurança pública não devem ser enfrentadas apenas como uma questão policial ou política, mas também como um desafio científico. Tem razão Zago, pois, tratada nos últimos anos no Brasil como um problema estritamente policial ou político, a criminalidade não recebeu respostas suficientes para contê-la. Pelo contrário: o crime organizado só avançou e, por isso, tem assustado tanto a sociedade. Essa escalada só explicita o fracasso do populismo penal, que defende sobretudo operações policiais violentas e o endurecimento das penas.

O crime organizado representa um perigo concreto à sociedade e à economia formal. Cada vez mais parecidas com as máfias, as facções criminosas se infiltram em negócios lícitos e na política, ameaçando os cidadãos, a democracia e o Estado brasileiro, que já ganha contornos de narcoestado. Por isso, o enfrentamento da criminalidade em São Paulo e em todo o Brasil com o apoio da ciência é um alento.

A ciência demanda testes de hipóteses, produção de dados, métodos analíticos e uso de tecnologias, como a inteligência artificial, entre outras ferramentas. Com o financiamento da Fapesp, as melhores cabeças do Brasil, de diferentes áreas do conhecimento, vão estimular o debate sobre a violência e a segurança pública e podem impulsionar a propositura de respostas efetivas.

A Fapesp já financiou ações que hoje são sucesso, como os programas Genoma, os Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão e inúmeras startups. A ciência agora também estará a serviço da formulação de políticas públicas de segurança baseadas em evidências – ou seja, eficazes e principalmente voltadas para o bem-estar dos cidadãos. Não restam dúvidas de que uma sociedade pacificada é um ambiente mais seguro e próspero para a inovação, o desenvolvimento econômico e a transformação social.

Sem retrocessos na proteção de crianças e adolescentes

Por Correio Braziliense

Se delegacias, conselhos tutelares, escolas, centros de saúde e casas legislativas não são — ou deixaram de ser — percebidos como locais de proteção aos menores de idade, há um retrocesso em curso que precisa ser parado

Um dos avanços civilizatórios da Idade Moderna é a mudança de perspectiva em relação à infância. Tratadas como adultos em miniatura, as crianças passaram a ser compreendidas em suas particularidades, culminando, ao longo dos anos, na criação de marcos protetivos. Notícias da última semana,  porém, evidenciam que os balizadores legais não impedem recuos pelo lado de cá. 

Em sessão remota relâmpago, que durou menos de dois minutos, o Senado Federal aprovou na terça-feira um projeto de decreto legislativo (PDL) que derruba uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) relacionada ao acesso de crianças e adolescentes vítimas de violência sexual ao aborto legal. Em termos práticos, podem deixar de valer orientações sobre o atendimento a essas meninas, abrindo brechas para divergências na assistência e até mesmo para que o procedimento previsto em lei não seja realizado.

A ideia de que é preciso criar condições para que os algozes de crianças e adolescentes sejam identificados e punidos é argumento adotado tanto pelos defensores quanto pelos críticos do PDL. Não poderia ser diferente, sobretudo quando se sabe que os criminosos geralmente estão próximos às vítimas. Dos 51.677 casos de estupros de crianças com até 13 anos registrados no país em 2024, 69% ocorreram dentro de casa, sendo que 63% dos criminosos era um familiar e 29%, um conhecido, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

Não há dúvidas também de que essa é uma chaga nacional. De 2013 a 2023, foram registrados mais de 232 mil nascimentos de bebês de mães com até 14 anos no país. Só em  2023, o Ministério da Saúde contabilizou quase 14 mil, e apenas 154 meninas tiveram acesso ao aborto legal. Um problema com essas proporções exige análise responsável para a implementação de qualquer mudança que vise melhorar o seu enfrentamento. Não parece ser o caso do projeto que aguarda promulgação do Congresso para entrar em vigor. A contestação no Judiciário é, inclusive, dada como certa.

No dia seguinte à polêmica votação do Senado, tomou o noticiário a história de uma família em Santa Catarina que manteve em casa, durante 14 meses, uma mulher de 37 anos que fingia ter 12 e estar fugindo de maus-tratos, incluindo abusos sexuais. Espera-se que a investigação policial esclareça como se deu o que tem sido inicialmente apontado como um "sequestro emocional" das vítimas. Mas surpreende o fato de órgãos de proteção a crianças e adolescentes não terem sido acionados diante do relato ouvido, ainda que ele seja inverídico. A descoberta de que o mesmo roteiro se deu em outros estados torna a situação ainda mais preocupante.

Se delegacias, conselhos tutelares, escolas, centros de saúde e casas legislativas não são — ou deixaram de ser — percebidos como locais de proteção aos menores de idade, há um retrocesso em curso que precisa ser parado. Não se pode recorrer a soluções domésticas ou motivadas por interesses ideológicos  para desrespeitos a um dever legalmente entendido como compartilhado. É obrigação do Estado, da família e da sociedade seguir os ritos oficializados todas as vezes em que houver risco ou violação de direitos de crianças e adolescentes. E mais: atualizar e aperfeiçoar esses protocolos sem criar ou retomar ameaças.

Falta de limites no Fundo Eleitoral

Por O Povo (CE)

Receber volumosos recursos dos cofres públicos sem esforço algum leva a uma acomodação, pois os partidos não precisam mobilizar a militância e simpatizantes para conseguir doações, sabendo que as verbas para a campanha já estão garantidas

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) divulgou os valores que serão destinados aos partidos referentes ao Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC) para as eleições de 2026.

Conhecido como Fundo Eleitoral, o FEFC vai destinar R$ 4,9 bilhões a 30 legendas com estatuto registrado no TSE, segundo critérios como número de deputados na Câmara Federal e a votação obtida no último pleito.

De acordo com esses parâmetros, o Partido Liberal (PL) receberá o maior volume de recursos, R$ 881,6 milhões. Na última posição está a Unidade Popular (UP), com R$ 3,3 milhões.

O Partido dos Trabalhadores (PT) ocupa o segundo lugar na fila do recebimento de verbas, com R$ 615,4 milhões. União Brasil (UB) vem em seguida, com R$ 526,2 milhões. Juntando os três partidos mais bem aquinhoados, eles recolhem 40% do total das verbas do fundo.

Instituído em 2017, o financiamento público das campanhas eleitorais substituiu as doações de empresas a candidatos e partidos, que estavam proibidas. Ressalte-se, porém, que o sistema não constitui um mal em si mesmo, como argumentam alguns de seus críticos.

No entanto, é preciso reconhecer que o excessivo volume de recursos estatais destinados aos partidos, via fundo eleitoral, constitui-se em uma excrescência, concentrando um desproporcional poder nas mãos das direções partidárias que controlam esses recursos. Além disso, receber volumosos recursos sem esforço algum leva a uma acomodação, pois os partidos não precisam mobilizar a militância e simpatizantes para conseguir doações, sabendo que as verbas para a campanha já estão garantidas.

Em ritmo crescente, os partidos foram avançando cada vez mais nos cofres públicos, rejeitando redução dos valores e derrubando vetos presidenciais que visavam limitar a expansão das verbas eleitorais. Além disso, o Congresso continua a aprovar leis que visam fo favorecimento dos partidos políticos, dando o mau exemplo da legislação em causa própria.

A cada disputa, os parlamentares arrumam um jeito de promover uma "minirreforma eleitoral" na medida dos interesses de ocasião. A mudança mais recente, aprovada na Câmara, foi reduzir as multas aplicadas a candidatos por desaprovação de contas. Pela regra atual, a multa pode chegar a 20% do valor considerado irregular. No entanto, o projeto estabelece teto de R$ 30 mil para as multas, com parcelamento da dívida em até 15 anos, entre outras benesses. Ou seja, um incentivo à prática de irregularidades.

É ainda preciso lembrar que, além do FEFC, as legendas dispõem do Fundo Partidário, para manter suas atividades regulares. O valor que terão em caixa este ano chega a R$ 1 bilhão. Por essas e por outras é que o Congresso Brasileiro é considerado o segundo mais caro do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos.

A situação deveria levar o Congresso Nacional a uma reflexão, mas é forçoso dizer que essa é uma esperança vã. 

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