O Povo (CE)
Por mais que a opinião pública esteja muito
firme no seu apoio ao meio de pagamento brasileiro, o simples fato de que um
expoente do bolsonarismo, filho de Jair Bolsonaro e irmão do pré-candidato, se
sinta autorizado a colocar a possibilidade na mesa deveria causar espanto
Depois do anúncio de mais um tarifaço e da
classificação de duas organizações criminosas brasileiras como
terroristas, temos um outro tema no centro das tensões entre Estados Unidos e
Brasil: o Pix. Os americanos já manifestam há algum tempo seu descontentamento
com o meio de pagamento que se popularizou por aqui: considerado uma ameaça ao
lucro das empresas de cartão de crédito, o Pix foi inserido por Donald Trump
num caldo confuso que envolve combate ao crime organizado e debate sobre equilíbrio
da balança comercial.
Que as medidas tenham sido anunciadas logo após a visita do senador Flávio Bolsonaro não é uma surpresa. A correlação entre visita e sanções é notória, e nem precisaríamos da foto publicada pelo próprio presidente americano no dia da revelação do tarifaço para perceber o esforço do bolsonarismo em instrumentalizar sanções para fins eleitorais.
Trago este tema mais uma vez ao leitor porque
ele nos permite ressaltar uma marca do comportamento político da
extrema-direita: sua habilidade para introduzir no debate público,
normalizando-os, absurdos que deveriam, de pronto, ser recusados por qualquer
mente mais razoável. O cavalo de Troia da vez é o Pix, uma criação
brasileira que entrou em vigor em 2020.
Como sistema de pagamentos instantâneos, o
Pix permite transferir dinheiro e fazer pagamentos em poucos segundos, sem
custo ao usuário, 24 horas por dia e sete dias por semana. É algo nosso,
prático, que funciona bem, não onera o brasileiro e que já responde por um
volume expressivo de movimentações. No segundo semestre de 2025, o Pix foi
utilizado em 54,7% de todas as transações de pagamento no País. Nós não
deveríamos abrir mão dele ou sequer discutir a possibilidade de negociá-lo.
Como país soberano, o Brasil tem autonomia para gerir o seu Sistema Financeiro
Nacional.
Durante a semana, Eduardo Bolsonaro publicou
vídeo em suas redes no qual sugere a possibilidade de negociação sobre o Pix,
ao mencionar um meio de pagamento privado disponível nos EUA, o Zelle.
Por mais que a opinião pública esteja muito firme no seu apoio ao meio de
pagamento brasileiro, o simples fato de que um expoente do bolsonarismo, filho
de Jair Bolsonaro e irmão do pré-candidato, se sinta autorizado a colocar a
possibilidade na mesa deveria causar espanto.
No fim, é mais uma evidência do quão frágil é
o patriotismo do grupo, da sua noção capenga de soberania. Na sua lógica,
vale qualquer coisa para eleger Flávio Bolsonaro, inclusive negociar uma
conquista que facilita a vida do brasileiro. É certo que na democracia o debate
público é aberto e admitimos divergências construtivas, o que não significa
ignorar limites e transigir com propostas manifestamente estapafúrdias.
*Professora de Direito da UFCE

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