sábado, 6 de junho de 2026

Por amizade, por Carlos Andreazza

O Estado de S. Paulo

Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...

Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?

Será o caso de lembrar que os senhores que comandam as instituições portas de entrada para o acordo, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, sentaram-se à mesa do clube do uísque londrino de Vorcaro, em abril de 2024, com os delatáveis Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Hugo Motta estava lá. Clube do uísque vorcárico cuja versão nova-iorquina, de maio daquele ano, teria Ciro Nogueira, Cláudio Castro e o onipresente Motta.

(Será o caso de lembrar a mensagem de Vorcaro à noiva, em março de 2025, poucos dias antes do anúncio do memorando de entendimento para a compra do Master pelo BRB: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”.)

Confrarias que tanto impõem nomes incontornáveis, cujas ausências em propostas de delação redefiniriam o conceito de escárnio, quanto explicam a essência peculiar da colaboração premiada à brasileira. Colaboração premiada à brasileira, exposta no contrato firmado por Mauro Cid, cuja delação foi reformada até entregar – não será crença inverossímil – o que Xandão queria. Ninguém – da inteligência jurídica influente – reclamou; ninguém, entre os virtuosos defensores monopolistas do estado democrático de direito. Era um golpista, afinal.

Com Vorcaro, consideradas as relações do sujeito em (a partir de) Brasília e a natureza de seus golpes (cuja prosperidade dependeu desses relacionamentos), as reações são diferentes, em disputa o controle sobre a delação seletiva do cara; sobre a capacidade de lhe denunciar a delação seletiva. Dado – admitido – que a delação será seletiva, lançada está a campanha por não estar nela; no que formará a plantação na imprensa de ministros do Supremo preocupados com a carga pública para que o banqueiro entregue ministros do Supremo.

Disputa-se o benefício da mentira. O benefício de fazer prevalecer o texto segundo o qual a invisibilidade do “elefante pintado de azul” (apud Flávio Dino), que engordava charutando pela Praça dos Três Poderes, derivaria da incompetência dos fiscais – e não de estarem todas as turmas sobre o bicho Master.

Para (por ora) a tranquilidade geral do sistema de poder no Brasil, Vorcaro, amante do cinema e da hotelaria nacionais, parece insistir – no que seria mais uma oferta de acordo – na tese de que distribuía milhões a autoridades, com ou sem contrato, “por amizade”. Os gonets querem acreditar.

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