terça-feira, 18 de outubro de 2022

Carlos Andreazza - Pintou um clima

O Globo

O clima: Ciro Nogueira e Sergio Moro unidos por Jair Bolsonaro na plateia do debate. Bonito. Unidos e atuantes. Ambos trabalhando por subsidiar o candidato. Que um já chamou de fascista. Que o outro acusou de interferir na autonomia da Polícia Federal; para então sua honra, na hipótese de que houvesse uma, ser enxovalhada pela máquina de moer do bolsonarismo.

Releve-se. Há que ganhar a vida, afinal.

Pintou um clima. Bolsonaro une, o cupido. Bolsonaro, o cupido, degenera. Nogueira e Moro, porém, já vieram prontos. Feitos um para o outro, os unidos pelas circunstâncias. Velho e novo senadores da República. Um, o ministro que botou Guedes no bolso e instaurou a PEC Kamikaze. O outro, o ex-ministro cuja farsa foi biombo para que, à sombra, ascendesse um Augusto Aras.

Nogueira e Moro. O orçamento secreto e o combate à corrupção. Unidos sob os escombros da imaginação moral, o orçamento secreto e o combate à corrupção. Dois homens objetivos. Um pela permanência; o outro pela existência. Nogueira e Moro. O orçamento secreto, um complexo esquema de corrupção, e o combate à corrupção, que o tempo exporia ser pura fachada para o exercício do antipetismo.

O antipetismo tem passado, é presente (aposta Bolsonaro) e terá — aposta Moro — futuro. Nogueira também aposta que orçamento secreto e antipetismo concorram decisivamente para a reeleição de um governo — de um arranjo — em cujo Tesouro dá as cartas. Todos arrumadinhos. Se aprontando para quê? Ganhar a vida.

O mito une. Uniu Nogueira e Moro. Bonito. O outrora parceiro do petismo, portanto inimigo de Moro, símbolo da mamata que a ascensão do mito fulminaria, e o justiceiro antipetista que, transformado em ministro, trairia o mito. Ambos anistiados. Como anistiados foram, pelas urnas, os crimes e os criminosos da pandemia. Como anestesiada vai uma sociedade que flexibiliza — que anistia — a fala de um senhor, presidente da República, que, pintando ou não o clima, esteve diante de meninas, de 14 ou 15 anos, que supunha prostituídas — e providência nenhuma tomou. Senão acusar os riscos de venezuelização do país. Esse é o clima. Vil. Bárbaro.

O bolsonarismo degenera. Mas só pode ser degenerado quem não é.

Ciro Nogueira e Sergio Moro, adultos, já chegaram feitos. Feitos um para o outro. O orçamento secreto, engenharia corruptiva; e uma modalidade de combate à corrupção — o lavajatismo, disfarce para o antipetismo — cuja prosperidade derivou da corrupção dos meios para condenar. Redimidos.

Não é irônico. É despedaçante. Nogueira, antigo alvo da Lava-Jato, e Moro, o juiz da Lava-Jato. Unidos pela causa. E em causa própria. Bonito.

Pintou um clima.

Tudo muito natural. Porque orçamento secreto e antipetismo são mesmo os anabolizantes da competitividade eleitoral de Bolsonaro em 2022.

O primeiro tem natureza estrutural, fundamento material de uma parceria bilionária, a sociedade com o consórcio parlamentar Lira/Nogueira/Costa Neto, que garantiu capilaridade ao presidente Brasil adentro. O outro, espiritual — o mais subestimado sentimento brasileiro, manifestação profunda que ora emerge, lembrança agoniante de que nada se aprendeu com 2018. É com que o presidente joga pela reeleição. Tem chances. E as chances passam por essa união, unidos Nogueira e Moro.

Moro, que antes dava pinta de combatente contra a corrupção, é hoje, a serviço de Bolsonaro, a encarnação do antipetismo; uma encarnação que admite o vale-tudo contra o inimigo. Por isso esteve com o presidente no debate: uma espécie de corpo-memória para atiçar a mobilização do sentimento antipetista, esse traiçoeiro.

Há que ganhar a vida.

Ministro do governo, o ex-juiz foi laranja, peça de propaganda mesmo, para que Bolsonaro desmobilizasse — desmontasse — o aparato estatal de combate à corrupção. Moro, o instrumentalizado, consistiu numa espécie de UPP, a polícia pacificadora que fantasiou, com muita fumaça, o fim do crime no Rio de Janeiro, enquanto Cabral e seus guardanapos passavam a boiada nos cofres públicos. Moro se deixa instrumentalizar. É um homem prático.

Pintou um clima. Ele voltou. Perguntou se podia entrar na casa. Entrou. Há que ganhar a vida.

Nogueira, que antes já era Nogueira, daí porque estivera com Lula, é hoje — senador tornado ministro — o mais musculoso elo da sociedade pactuada via orçamento secreto; uma obra-prima para a depauperação da República que teve o mito como criador. Por isso esteve com o presidente no debate: porque Bolsonaro, gestor do fim do combate à corrupção, é também o fundador — o pai — do orçamento secreto, donde bolsolão. Mostrei — expliquei — por que no artigo da semana passada. Nogueira é grato. Esteve com Lula, mas nunca foi tão feliz.

Pintou um clima. Moro voltou. Perguntou se podia entrar. Nogueira o recebeu. Eram uns 15 ou 20 ali. Há para todos ganharem a vida.

 

6 comentários:

Anônimo disse...

Andreazza, o ladrão é o Lula

Anônimo disse...

Bolsonaro, além de ladrão, é pedófilo.
"Não vamos deixar esquecer:

"Parei na esquina, tirei o capacete e olhei umas meninas, 3 ou 4, bonitas. De 14 ou 15 anos arrumadinhas em pleno sábado em uma comunidade. PINTOU UM CLIMA, voltei e perguntei : Posso entrar na sua casa?" (Jair Bolsonaro)"

Só quem tem afinidades com "o clima" pode apoiar isso!
Gado é gado.

Anônimo disse...

Magnífica coluna! Parabéns ao colunista e ao blog que divulga seu trabalho! São mesmo 3 canalhas, reunidos para compartilhar o PODER! Bolsonaro, o que sempre foi, agora até talvez PEDÓFILO... Nogueira, que foi de tudo um pouco e flutua (como cocô) junto do poder! E Moro, o juiz aparentemente justiceiro, mas que se mostrou totalmente parcial e corrupto, agora politiqueiro acima de tudo e tolerante a quase qualquer tipo de corrupção! E se Bolsonaro não é mesmo PEDÓFILO, então que explique exatamente o que aconteceu e que providências tomou pra ajudar as meninas venezuelanas! Na ausência disto, é PEDOFILIA de Jair Bolsonaro CENSURADA PELO TSE!

Anônimo disse...

E assim o mecanismo vai se firmando mais uma vez, só que agora é o do outro lado da moeda. E o Brasil vai mostrando que Homem por aqui é peça rara , no mais só os espertalhões costumeiros querendo enriquecer às custas do erário. O resto que se dane. Vergonha profunda desse país de malandros.

ADEMAR AMANCIO disse...

Estão todos querendo ganhar a vida,rs.

Anônimo disse...

Se esse miliciano, olhar psra minha neta com olho de peixe morto. Olho devorador. Eu vou presa, mas, esse porco fica sem os órgãos genitais. Mulher que se presa não vota em pedofilo.