Folha de S. Paulo
Indignação contra artigo de Bolsonaro é
reflexo do sentimento de pureza, um dos seis ingredientes de nossos mapas
ético-ideológicos
O psicólogo Jonathan Haidt, que hoje faz
sucesso liderando um movimento para banir crianças e adolescentes das redes
sociais, propõe que a ideologia seja decomposta em seis dimensões, às quais
corresponderiam seis sentimentos morais básicos: proteção, justiça, liberdade,
lealdade, autoridade e pureza.
Eles constituiriam uma espécie de tabela periódica do instinto moral. O mapa ético-ideológico de cada indivíduo seria uma combinação de diferentes proporções desses ingredientes.
O esquerdista típico pontua alto em proteção
e justiça, mas não chega a zerar nos outros tópicos. Já os conservadores
costumam aparecer num blend mais ecumênico.
Interessa-me hoje a pureza. Acho que é esse o
sentimento que alimenta a indignação de parte dos leitores da Folha pela
publicação de um artigo de Jair
Bolsonaro. A divulgação do texto de um notório golpista degradaria a
santidade da democracia. Degradação (ou contaminação) é o sentimento antípoda
ao da pureza.
É interessante notar que houve reação
semelhante da outra tribo quando a Folha publicou uma entrevista
com Lula enquanto
ele ainda estava na cadeia. A queixa então era contra dar voz a um condenado
pela Justiça.
Esses posicionamentos me parecem
excessivamente religiosos. O pressuposto do jornalismo, talvez empiricamente
equivocado, é o de que na outra ponta existe um sujeito autônomo. Jornais
publicam de tudo e os leitores tiram suas próprias conclusões.
Eu, por exemplo, terminei a leitura do artigo
de Bolsonaro ainda mais convencido de que ele é um oportunista meio mitômano
obcecado por voltar ao poder. Imagino que muitos, talvez até a maioria dos
leitores, tenham chegado a juízos parecidos. E não vejo como tais conclusões
possam debilitar a democracia.
Pelo contrário, se vamos enfrentar novas
investidas da extrema direita, tanto nas urnas como na defesa das instituições,
é objetivamente importante saber o que ele prega para vislumbrar suas ideias e
planos. Não é escondendo seu pensamento a pretexto de preservar uma pureza
democrática meio mágica que nos posicionaremos para essa tarefa.
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