quarta-feira, 3 de junho de 2026

Candidatos sem Defesa, por Marcelo Godoy

O Estado de S. Paulo

Enquanto Lula bloqueia gastos da Defesa e Flávio tenta se blindar, os demais silenciam

O Brasil é um país diferente. Em nenhum lugar o ministro da Defesa diz que a Nação está indefesa sem que uma tempestade desate no Parlamento. Pois José Múcio disse isso a um grupo de empresários em evento fechado, promovido pela Seta, e nada aconteceu. É como se Múcio fosse o major Giovanni Drogo à espera de tártaros que nunca aparecem diante da Fortaleza Bastiani. Ou como se o Atlântico de um lado e a Amazônia do outro fossem o deserto onde os militares passam suas vidas à espera do inimigo que não se mostra.

Como no romance de Dino Buzzati, Múcio começou a ver luzes se aproximando da Ridotta Nuova, a fortificação mais além da Bastiani. E elas vinham do norte. No começo apareciam em alguma estrada na fronteira com a Venezuela; depois, deslocaram-se mais ao norte ainda e, desde que Trump assumiu o poder, surgem no céu e no mar.

Pois, no dia seguinte ao desabafo de Múcio, os americanos resolveram pôr o PCC e o CV em sua lista de organizações terroristas. E o que fez o governo do pré-candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva? Ele congelou, no dia seguinte, R$ 4,4 bilhões em gastos militares, o maior corte entre os ministérios. “Num país que precisa de remédio, de livro, de comida, de habitação, que precisa de tantas coisas, nenhum presidente tem a coragem de dizer: ‘Eu vou tirar dinheiro daqui e colocar em defesa’. Por isso, defendo a previsibilidade orçamentária”, disse Múcio. Sem ela, caças, submarinos e artilharia e drones modernos ficam apenas nos planos.

Lula sabia que ia contrariar os militares e, por isso, a direção da pasta dos Direitos Humanos esteve ausente da cerimônia da Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos, que, por seis votos a um, atribuiu ao regime militar a responsabilidade pela morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek. Foi sexta-feira, dia do bloqueio das verbas. O evento foi rápido e quase sem divulgação. Tudo para não afrontar ainda mais os militares.

E qual a reação dos demais pré-candidatos ao bloqueio das verbas? Nenhuma. Além de bajular Trump, Flávio Bolsonaro tem uma única preocupação: fingir ser normal receber milhões de um banqueiro responsável pela maior fraude da história do País e mandar esses recursos a um fundo no exterior, mantendo em segredo a origem da fortuna. Já os demais pré-candidatos quase sempre tratam apenas da Segurança Pública.

Diante da ausência de debate entre eles sobre a Defesa nacional, Múcio concluiu: “Não pode continuar desse jeito. Nossa munição é para 30 dias. Não temos munição para brigar com eles aí. Isso é grave, e a sociedade precisa saber. Se alguém nos invadir, a melhor maneira de se defender é abrir a porta”.

 

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