Correio Braziliense
A ofensiva tarifária pode resultar em
dividendos eleitorais para Lula, ao acender a centelha nacionalista. E provoca
dúvidas se trará vantagens a Flávio Bolsonaro
O novo desgaste diplomático entre Brasil e Estados Unidos tem o agravante de estar contaminado pela corrida eleitoral. Inevitavelmente, as negociações entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca sofrerão interferência do acirramento da disputa entre o presidente Lula e seu adversário Flávio Bolsonaro. O possível aumento de 25% nas tarifas comerciais contra produtos brasileiros significará mais trabalho para a diplomacia brasileira, mas, eventualmente, pode resultar em dividendos para Lula na batalha das urnas, ao acender a centelha nacionalista. Para o senador, recém-chegado de uma visita aos Estados Unidos, há dúvidas se esse novo capítulo representará alguma vantagem.
Desde o ano passado, o Brasil tenta reverter
os efeitos do primeiro tarifaço imposto pelo governo Trump. No encontro
presidencial ocorrido no início de maio, em Washington, Lula afirmou que havia
combinado com o republicano um prazo de 30 dias para os dois países apararem as
arestas comerciais. O prazo terminaria nesta primeira semana de junho, mas o
governo Trump se antecipou. E, mais uma vez, frustrou as expectativas quanto a
uma aproximação entre Brasília e Washington.
Se as recomendações do escritório de comércio
norte-americano se confirmarem, o governo brasileiro entrará no período
eleitoral com a tarefa de reverter a ofensiva tarifária. É provável que a
resolução do impasse exija um novo encontro entre Lula e Trump. O próprio
presidente brasileiro deixou claro, ontem, que pretende manter um canal direto
com seu colega na Casa Branca, de modo a evitar a interferência de outros
expoentes do governo norte-americano, como o secretário de Estado, Marco Rubio.
Também será preciso repetir a estratégia que reverteu os efeitos do tarifaço de
2025, afastando a influência do clã Bolsonaro da cúpula da Casa Branca. Na
ótica do governo brasileiro, como assinalado na nota oficial de ontem, a
investida trumpista tem clara ingerência da família do ex-presidente.
Para a administração petista, a crise
tarifária vem se somar ao embaraço da semana passada, relativo à segurança
pública. A decisão dos EUA de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e
o Comando Vermelho (CV) como facções terroristas, reacendeu o debate sobre o
enfrentamento ao crime organizado no Brasil. Nesse tema, a polarização ficou
evidente. Enquanto o governo Lula ressaltou as operações contra as atividades
ilícitas das facções, a exemplo da Operação Carbono Oculto, Flávio e outros
pré-candidatos de direita insistiram em afirmar que há terrorismo, sim, no
Brasil e outras alegações bizarras, como a de que Lula faria "lobby"
para os criminosos.
No caso do tarifaço, a queda de braço que se
anuncia entre o Brasil e os EUA pode beneficiar o petista. Basta lembrar o que
aconteceu em 2025. No ano passado, o tarifaço praticamente formou uma
unanimidade nacional em defesa do Pix e das exportações brasileiras. Meses
depois, revelou o profissionalismo da diplomacia brasileira e a habilidade do
vice-presidente e então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio,
Geraldo Alckmin. É razoável supor que esses atores retomarão o diálogo com os
interlocutores norte-americanos para neutralizar as recomendações do Escritório
de Comércio dos Estados Unidos (USTR).
No caso de Flávio, há um receio de que a
estratégia de recorrer novamente ao governo Trump produza um efeito contrário.
Não é por outra razão que o senador se apressou, ontem mesmo, em apresentar uma
carta enviada ao secretário Marco Rubio com um apelo para que os Estados Unidos
não punam as empresas brasileiras. Esse pedido será inócuo para o parlamentar
de oposição, pois as decisões do governo norte-americano, para o bem ou para o
mal, serão repercutidas, em primeiro lugar, pelo governo brasileiro. E Lula já
deu o tom: qualquer fracasso na relação entre Brasil e EUA será creditado à
família Bolsonaro. Não será tarefa fácil mudar essa percepção no eleitorado. As
próximas pesquisas de intenção de voto podem indicar algo nesse sentido.
Faltam quatro meses para a eleição. Nesse momento decisivo, o eleitor percebe dois movimentos muito claros. De um lado, o pré-candidato à reeleição procura mostrar as conquistas de sua administração e passar a ideia de continuidade e progresso. Do outro, a oposição radicaliza o discurso e tenta ações de impacto, com potencial de causar danos eleitorais ao governo. Em meio a esse cenário conturbado, o governo de Donald Trump é um fator desestabilizador. Se os EUA escolherem um lado na eleição, a disputa ficará ainda mais imprevisível.

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