quarta-feira, 3 de junho de 2026

Mentiras patriotas dos Bolsonaro tomam tiros na Segunda Guerra do Pix, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Flávio tentou ganhar pontos com foto de papagaio de pirata, mas foi pego no contrapé

Disputa político-eleitoral esconde discussão de efeitos econômicos de ameaças dos EUA

Os Bolsonaro acabaram do lado errado da Segunda Guerra do Pix, até por não terem escrúpulos, mentirem sem parar e não se importarem de explodir o que estiver no caminho deles até o poder ou na rota de fuga da polícia. Como jamais se sabe que tipo de informação sairá do filtro lunático, ignaro e odiento das redes sociais, é difícil dar chute informado sobre o efeito desta lambança dos Bolsonaro na eleição. Mas o risco aumentou.

Segunda Guerra: a direita propagandeava em janeiro de 2025 que Luiz Inácio Lula da Silva cobraria imposto sobre o pix, como se sabe. A campanha ajudou a ferir de modo duradouro a popularidade do presidente —inflação, bobagem fiscal e pânico financeiro ajudaram então a fazer o resto do serviço.

Lula viria a recuperar uns pontos de prestígio nas pesquisas a partir de julho de 2025, quando Eduardo Bolsonaro fez campanha para Donald Trump prejudicar empresas brasileiras, o "tarifaço", comemorado por Flávio. Pode dar errado de novo. Guerra do Pix serve de nome curto para uma disputa eleitoral que envolve ainda a bandeira verde-amarela: quem é patriota?

Flávio foi aos EUA pegar carona em medidas antibrasileiras do governo Trump. Fantasiou-se de inimigo do terror das facções PCC e CV, agora "terroristas", segundo os americanos. Quando tentava fugir da cena da sabotagem com um butim de campanha eleitoral, foi pego no contrapé pela ameaça de novo "tarifaço". Pior, a queixa contra o pix está logo no início da exposição de motivos do Representante Comercial dos EUA (USTR), cínica, mas que em parte não está errada, o que no caso é irrelevante. Para juntar lambança à picaretagem, Flávio disse nesta terça que "é mentira que o pix está ameaçado. Não tem absolutamente nada a ver o meio de pagamento com isso tudo". Se está ameaçado, sabe-se lá. Tudo é possível no mundo de Trump, menos a decência. Mas o pix está lá, no alto do livro de reclamações, por obra do lobby de "big techs" e de parte da finança dos EUA.

Como se não bastasse, Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA, chefe da política externa, disse ao Senado deles, também nesta terça, que o Brasil, assim como Cuba, Venezuela, Nicarágua e Colômbia, não é amigo dos EUA. De resto, Flávio veio a aparecer apenas agora naquela foto de papagaio de pirata com Trump, quando foi tratar de "terrorismo" e tentar disfarçar o escândalo de sua fraternidade com o Master Daniel Vorcaro.

O risco de danos para a economia brasileira e o sentido geral das ameaças americanas ficaram, neste primeiro momento, meio perdidos no tiroteio. Se substituir as tarifas vigentes, um tarifaço de 25% melhora a situação de empresas exportadoras, ora sujeitas a impostos maiores (40%, 50%), e o saldo comercial; se somado aos impostos de agora, é tiro na testa.

Ironias da situação também ficaram escondidas. Um dos pretextos da ameaça do USTR é a exportação brasileira de madeira, carne, soja e milho oriundos de área de desmatamento ilegal, queixa idêntica à da União Europeia. O agro se congratulou com a vitória de Bolsonaro Primeiro, o Golpista, e seu projeto de desmontar a legislação e a fiscalização ambientais. E então?

Por último, por ora, note-se que a ala trumpista liderada por Rubio, antiesquerdista ferrabrás, quer endurecer o jogo com o Brasil. Mostrou de novo que quer submissão, projeto geral de Trump; comércio é arma imperial explícita como não o era fazia um século.

 

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