Folha de S. Paulo
Livro traz perfil de 15 pessoas responsáveis
por quebras espetaculares de mercados
Há desde visionários que agiram com boa-fé
até facínoras que recorreram a métodos mafiosos
Os manuais de direito penal asseguram que não
existe estelionato
ou fraude culposos. Não é possível aplicar um golpe "sem
querer". A própria definição do crime já exige a intenção de cometê-lo.
Mas "Aventureiros e Larápios", de Roberto Teixeira da Costa e Fábio
Pahim Jr., mostra que o mundo tende a ser mais complicado do que querem nossas
teorias.
O livro traz o perfil de 15 personagens que quebraram os mercados. Alguns, os aventureiros, eram visionários que cometeram erros de boa-fé e tentaram sair honradamente da encrenca. Um bom exemplo é Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Apesar da espetacular falência, deixou um legado positivo para o país.
Outros, os larápios, eram bandidos desde
criancinhas. Parecem já ter entrado nos negócios com a intenção de separar
criminosamente investidores de seu dinheiro. Daniel
Vorcaro ainda não foi julgado, mas é sério candidato a integrar
nessa lista. Há vários outros, porém, que parecem ter começado suas transações
munidos das melhores intenções, mas, à medida que foram colhendo insucessos,
tentaram encobrir os erros, muitas vezes fruto de megalomania, recorrendo a
delinquências. Edemar Cid Ferreira, do banco Santos,
pode ser um desses casos.
Os 15 perfis compõem uma fauna exuberante,
que inclui, além dos já citados, Bernard Madoff, Eike Batista, Naji Nahas,
Elizabeth Holmes, entre vários outros. Gostei particularmente da história de
Artur Virgílio Alves Reis, que não conhecia. No início do século 20, ele criou
um esquema de falsificação de notas de escudos portugueses que pode ter chegado
a 2,6% do PIB e levou o sistema financeiro lusitano ao colapso. Reis, mesmo
derrotado, fazia boas perguntas: se o Banco de Portugal podia emitir dinheiro
sem muito controle, por que outros não poderiam fazer o mesmo? Antecipou em um
século o pessoal das criptomoedas.
Em comum, a grande maioria dos perfilados tem
a mania de grandeza e um certo charme, que os leva a convencer os incautos. E
por vezes eles são as primeiras vítimas de suas fabulações.
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