domingo, 19 de julho de 2026

Aventureiros e larápios, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Livro traz perfil de 15 pessoas responsáveis por quebras espetaculares de mercados

Há desde visionários que agiram com boa-fé até facínoras que recorreram a métodos mafiosos

Os manuais de direito penal asseguram que não existe estelionato ou fraude culposos. Não é possível aplicar um golpe "sem querer". A própria definição do crime já exige a intenção de cometê-lo. Mas "Aventureiros e Larápios", de Roberto Teixeira da Costa e Fábio Pahim Jr., mostra que o mundo tende a ser mais complicado do que querem nossas teorias.

O livro traz o perfil de 15 personagens que quebraram os mercados. Alguns, os aventureiros, eram visionários que cometeram erros de boa-fé e tentaram sair honradamente da encrenca. Um bom exemplo é Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá. Apesar da espetacular falência, deixou um legado positivo para o país.

Outros, os larápios, eram bandidos desde criancinhas. Parecem já ter entrado nos negócios com a intenção de separar criminosamente investidores de seu dinheiro. Daniel Vorcaro ainda não foi julgado, mas é sério candidato a integrar nessa lista. Há vários outros, porém, que parecem ter começado suas transações munidos das melhores intenções, mas, à medida que foram colhendo insucessos, tentaram encobrir os erros, muitas vezes fruto de megalomania, recorrendo a delinquências. Edemar Cid Ferreira, do banco Santos, pode ser um desses casos.

Os 15 perfis compõem uma fauna exuberante, que inclui, além dos já citados, Bernard Madoff, Eike Batista, Naji Nahas, Elizabeth Holmes, entre vários outros. Gostei particularmente da história de Artur Virgílio Alves Reis, que não conhecia. No início do século 20, ele criou um esquema de falsificação de notas de escudos portugueses que pode ter chegado a 2,6% do PIB e levou o sistema financeiro lusitano ao colapso. Reis, mesmo derrotado, fazia boas perguntas: se o Banco de Portugal podia emitir dinheiro sem muito controle, por que outros não poderiam fazer o mesmo? Antecipou em um século o pessoal das criptomoedas.

Em comum, a grande maioria dos perfilados tem a mania de grandeza e um certo charme, que os leva a convencer os incautos. E por vezes eles são as primeiras vítimas de suas fabulações.

 

 

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