Correio Braziliense
A retaliação de Trump pode
fortalecer uma narrativa nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os
juros, a qualidade dos serviços e a esperança continuarão orientando o voto
Quem quiser que se iluda, estamos diante de
um novo ciclo político de longa duração, no qual os velhos problemas do país já
não podem ser enfrentados da mesma forma, num contexto de crise da democracia
ocidental, revolução tecnológica e desestruturação dos pactos diplomáticos pós
Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o Brasil chega às eleições de
2026, com uma combinação complexa de problemas sociais e econômicos, de
radicalização política e de mudança da ordem internacional.
Ninguém pode desconsiderar que o nosso subdesenvolvimento, para usar uma expressão clássica, decorre da baixa produtividade, da desigualdade de oportunidades, da precariedade da educação básica, da expansão do crime organizado, dos deficits de saneamento e de habitação, do alto custo do capital e da fragilidade fiscal. Esse é o diagnóstico que alimenta o debate e divide opiniões por parte de quem busca soluções para o país em bases democráticas.
Ocorre que, agora, o Brasil enfrenta uma
ameaça externa inédita desde a redemocratização, na medida em que o governo
norte-americano de Donald Trump transformou tarifas comerciais e pressões
diplomáticas em instrumentos de interferência política, numa tentativa de
favorecer seus aliados ideológicos e influenciar as escolhas dos brasileiros.
Não se trata, portanto, apenas de decidir quem governará o país, mas de definir
como o Brasil defenderá sua democracia, sua economia e ocupará seu lugar numa
ordem mundial em transformação.
Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro
histórico fundamental, mas sua política externa passa por uma mudança de
paradigma. O movimento Maga (Make America Great Again) rompeu com aspectos
importantes da tradição liberal que orientou Washington no pós-guerra. Em lugar
da defesa das instituições multilaterais, da previsibilidade das alianças e da
abertura comercial, a Casa Branca opera uma diplomacia transacional,
nacionalista e protecionista na qual pontificam o histrionismo de Trump e os
interesses da plutocracia que hoje domina a política norte-americana.
Tarifas, sanções e ameaças são utilizadas
como instrumentos de pressão até mesmo contra países aliados estratégicos da
Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Agora, a aproximação entre o
movimento Maga e o clã Bolsonaro trouxe um elemento perigoso à disputa
brasileira: a tentativa de vincular interesses econômicos e estratégicos dos
Estados Unidos no Brasil ao resultado de nossa eleição. A resposta não pode ser
o velho antiamericanismo, mas exige a firme defesa da soberania.
Uma boa relação com os Estados Unidos não
significa obediência, sobretudo quando interesses eleitorais e comerciais de
uma corrente estrangeira se confundem com os de um grupo político brasileiro.
Sem embargo das críticas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não tem outra
opção a não ser negociar com firmeza, recorrer às instituições multilaterais,
proteger os setores atingidos e, simultaneamente, preservar os canais de
cooperação. Nossa política externa é de Estado, baseada nos interesses
permanentes do Brasil.
Direitos e deveres
Ao contrário de outros momentos de tensão com
os Estados Unidos, como aquele que resultou no golpe militar de 1964, o Brasil
tem relações comerciais muito mais diversificadas. Nosso comércio com os
Estados Unidos representa apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB), porém, é o
principal destino de nossos produtos industrializados. E também não podemos
cair na dependência de nosso maior parceiro comercial, a China, cuja capacidade
industrial excedente pressiona os produtores de outros países. O Brasil deve
ampliar acordos com União Europeia, Índia, Japão, Canadá, México, África,
Sudeste Asiático e Oriente Médio, sem abandonar Washington nem Pequim. Ou seja,
trata-se de construir novas alternativas e buscar ainda maior integração com a
economia mundial.
Nada disso, porém, no plano interno,
eliminará a insatisfação social e resolverá os problemas objetivos da
população. A retaliação de Trump pode fortalecer momentaneamente uma narrativa
nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os juros, a qualidade dos
serviços públicos e a esperança continuarão orientando o voto. A eleição não
será decidida apenas com denúncias do autoritarismo adversário. É preciso
demonstrar capacidade de entrega: segurança, educação, saúde, habitação,
mobilidade urbana, crescimento, inclusão social e instituições que funcionem.
Com a Constituição de 1988, o Sistema Único
de Saúde (SUS), a universalização da educação fundamental, o salário mínimo
valorizado, a transferência de renda, as ações afirmativas e a ampliação do
acesso à universidade transformaram a sociedade brasileira. Não podemos brigar
com os fatos. Os resultados insuficientes dessas políticas não são a prova de
que a inclusão social fracassou. Nem devemos tratar quatro décadas de
redemocratização como tempo perdido, apesar da descontinuidade administrativa e
das recidivas oligárquica e do patrimonialista. O desafio não é abandonar os
fundamentos da Constituição de 1988, mas atualizar os meios pelos quais se
pretende alcançar igualdade, liberdade e dignidade.
Entretanto, o Brasil realmente precisa reconciliar direitos coletivos com responsabilidade individual. A emancipação e a inclusão social devem oferecer condições para que cada cidadão desenvolva suas potencialidades e, ao mesmo tempo, responda por suas escolhas. O problema é que o mau exemplo vem de cima, devido à captura de instituições e políticas públicas por interesses privados, empresariais ou mesmo individuais. Vem daí, na verdade, a maior ameaça às nossas democracia e soberania. Basta ver as pesquisas sobre aprovação das principais instituições do país.

Um comentário:
Perfeito! Perfeito!! Simplesmente PERFEITO!!
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