O Globo
Fantasiado de lixeira, candidato de protesto
ameaça derrotar líder da ultradireita populista
Nesta segunda-feira, Andy Burnham cruzará os
portões do Palácio de Buckingham para uma audiência com o rei. Charles III vai
perguntar se o novo líder do Partido Trabalhista aceita formar um governo em
seu nome. O rito se repete há mais de três séculos — mas nunca foi encenado
tantas vezes em tão pouco tempo.
Ex-prefeito de Manchester, Burnham se tornará o sétimo primeiro-ministro britânico em uma década. A instabilidade começou quando a população da ilha foi às urnas e tomou uma decisão estúpida: abandonar a União Europeia.
O Brexit deixou o Reino Unido mais pobre,
mais isolado e mais difícil de governar. Em outubro de 2022, o tabloide Daily
Star abriu uma transmissão ao vivo para saber quem duraria mais: o gabinete de
Liz Truss ou uma folha de alface. A verdura venceu a conservadora, que caiu em
apenas 49 dias.
Em julho de 2024, os trabalhistas conseguiram
voltar ao poder, depois de 14 anos na oposição. Keir Starmer assumiu
com uma supermaioria, mas logo passou a bater recordes de impopularidade.
Deixará o poder em baixa, destronado pelos próprios colegas de sigla.
Burnham, o novo primeiro-ministro, promete
mudanças. Sua plataforma sugere uma guinada à esquerda: combate ao aumento do
custo de vida, resgate da assistência social, investimentos para solucionar a
crise de moradia popular.
Visto com desconfiança pela elite financeira
de Londres, ele afirmou na sexta-feira que não vai aumentar impostos e será um
“líder pró-mercado”. Mas fez questão de condenar as “quatro décadas de
neoliberalismo” que cortaram gastos sociais e desindustrializaram o país,
deixando ruína e ressentimento na região em que nasceu.
Em decadência desde o reinado de Margaret
Thatcher, o norte da Inglaterra votou em peso pelo Brexit no referendo de junho
de 2016. Acreditou que romper com a União Europeia seria uma solução mágica
para reverter o declínio econômico. A promessa era furada, mas seus porta-vozes
não saíram de cena.
A ultradireita populista lidera as pesquisas
para a próxima eleição geral, em 2029. O Partido Reforma aparece à frente de
conservadores e trabalhistas, que se revezam em Downing Street há mais de um
século. Burnham precisará enfrentá-lo sem cair em suas armadilhas. O novo
primeiro-ministro sempre criticou o Brexit, mas avisa que não pretende reabrir
o debate. A ver se conseguirá tourear o assunto por muito tempo.
O líder do Reforma está diante de um desafio
mais peculiar. Em manobra para mostrar força após uma série de escândalos,
Nigel Farage renunciou ao Parlamento e se candidatou a reocupar a própria
cadeira. Agora corre o risco de ser derrotado por uma piada: o candidato de
protesto Conde Cara de Lixeira (Count
Binface).
O personagem do comediante Jonathan Harvey
promete tabelar o preço do sorvete, banir o VAR do futebol e nacionalizar a
cantora Adele. Sem tirar a fantasia, ridicularizou a pose antissistema de
Farage e ameaça varrê-lo de Westminster. O reino pode não ser mais o mesmo, mas
o humor britânico continua em dia.

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