Folha de S. Paulo
Ficção de Margaret Atwood ganha veracidade na
trama político-social dos EUA; alvo inicial é o voto feminino
O mais grave é que as próprias mulheres
possam concordar com essa autodestruição da liberdade
"O Conto da Aia", uma das ficções mais influentes da literatura distópica contemporânea, é, em princípio, uma crítica de Margaret Atwood aos regimes totalitários, com foco no controle político sobre o corpo feminino, na perda dos direitos civis e na dominação religiosa. A história: na República de Gilead, teocracia que substituiu o governo americano após um golpe, uma grave crise de fertilidade obriga mulheres férteis a se tornarem "aias", reprodutoras de membros da elite dirigente.
Mas a literatura, como a ironia, se perfaz na
escuta. Intenção crítica pode ser interpretada às avessas, a depender do
contexto receptivo. Da leitura, escrita e audiovisual dessa distopia parecem
aflorar no imaginário
da direita dos EUA significações até então submersas na esfera do não-dito,
do subconsciente. Embora oculto, esse nível de consciência abriga uma forma de
perceber e dar sentido às coisas. Não à toa, "O Conto da Aia" ganha
veracidade na trama político-social norte-americana, com irradiações na
sabujice misógina de extremistas sul-americanos.
O alvo
do ataque inicial é o voto feminino. Não mais um dos disparates
regurgitados por Trump, mas algo consistente no âmbito da Secretaria
de Defesa, comandada por Pete Hegseth: a abolição da emenda 19 à
Constituição dos EUA, um dos baluartes dos direitos políticos e da luta pela
igualdade de gênero. Ventríloquo do pastor Doug Wilson, voz extrema da direita
cristã, Hegseth não tem pejo em afirmar que mulheres não deveriam votar. Fica
assim explicada a origem da frase de Paulo Figueiredo, guru e cabo eleitoral de
Flávio Bolsonaro, homiziado nos EUA: "mulheres votam mal, especialmente as
solteiras".
O mais grave de toda essa situação é que as
próprias mulheres possam concordar com essa bárbara autodestruição da
liberdade: viável é a hipótese de que a insatisfação com a condição feminina
leve à autopunição.
O fenômeno já tinha sido observado por Erich
Fromm no auge do fascismo europeu ao assinalar que "alguns indivíduos só
ficam verdadeiramente felizes quando podem assujeitar-se e submeter-se a uma
autoridade, e tanto mais quanto é ela mais severa e cruel" (em
"Estudos sobre a autoridade e a família", 1936). De fato, esposas de
direita têm-se disposto a abrir mão do livre sufrágio em favor dos maridos, que
então votariam pela família. Bíblias em punho, mas aderentes à sura 4:34 do
Alcorão: "Os homens são superiores às mulheres porque Deus favoreceu uns
em relação a outros".
Caberia a uma sociopsicanálise avaliar o grau
de transformação psicótica implicada na incorporação individual de uma estrutura
autoritária. À sociopolítica cabe, entretanto, ponderar sobre um brutalismo que
conjuga, no modo colonial, masculinidade e racismo. Misoginia é
uma variante do ódio racial. Não que sejam fortes as suas possibilidades de
abolir conquistas civis. Disso bem sabe a ultradireita, por ora focada na
mensagem sádica de que mulheres são apenas seres carnais a serviço do
patriarcado branco. "O Conto da Aia" é mera antecipação do recado num
país em que a infertilidade é problema real.

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