O Estado de S. Paulo
Coordenador do programa de Lula, ex-presidente da Petrobras cita controle de capitais e é enquadrado
A disputa pelos rumos de um eventual quarto
mandato do presidente Lula tem provocado atritos na cúpula da campanha petista.
As principais divergências estão na seara econômica e há mal-estar no PT e na
Fazenda com declarações de José Sérgio Gabrielli, ex-presidente da Petrobras e
coordenador do programa de governo de Lula.
Na sexta-feira, por exemplo, Gabrielli se reuniu com representantes do mercado financeiro, em São Paulo, e defendeu o controle de capitais, além do aumento do salário mínimo para estimular a saída dos beneficiários do Bolsa Família.
Nada que o PT não pregasse antes, mas que,
numa campanha agressiva como a atual, se tornou um “sincericídio”. Não é só:
serviu para deixar a Faria Lima – mesmo aquele pedaço que rejeita a candidatura
de Flávio Bolsonaro (PL) – com a pulga cada vez mais atrás da orelha.
Antes desse encontro, Gabrielli já havia
destacado, em entrevistas, temas incômodos para a Fazenda, como a necessidade
de mudanças no arcabouço fiscal para ampliar investimentos e gastos sociais.
Fernando Haddad, candidato do PT ao governo
de São Paulo e ex-ministro da Fazenda, não gostou dessa abordagem.
Dario Durigan, atual titular da pasta, também
não. Durigan, aliás, terá várias reuniões com o mercado nos próximos dias.
De qualquer forma, após o ruído com a Faria
Lima, o Palácio do Planalto enquadrou o expresidente da Petrobras. Procurado,
ele não quis se manifestar.
“Nós não precisamos de uma nova Carta ao Povo
Brasileiro”, disse à coluna o advogado Marco Aurélio de Carvalho, coordenador
da campanha de Lula em São Paulo, numa referência ao documento lançado pelo
então candidato do PT, em 2002, para garantir que não era um bichopapão e
acalmar o mercado.
Questionado sobre a queda de braço nas
fileiras do PT, Marco Aurélio afirmou que Lula não tem porta-voz e só ele fala
sobre o seu programa. “Mas nós não daremos um cavalo de pau na economia nem
faremos nada pirotécnico”, observou o advogado, que também coordena o grupo
Prerrogativas.
O embate na cúpula do PT sobre a condução da
economia não é de hoje. No primeiro mandato de Lula ficaram famosas as
alfinetadas entre José Dirceu, então ministro da Casa Civil, e Antônio Palocci,
à época titular da Fazenda. Em 2023, com Gleisi Hoffmann à frente do PT, o
partido batizou o arcabouço de “austericídio fiscal”.
Nos bastidores, o coro que faz mais barulho no PT ainda assina embaixo dessa avaliação. Mas o Planalto editou a medida provisória do silêncio e nada disso aparecerá na plataforma de Lula. Se o presidente for reeleito, aí, sim, a briga terá novos capítulos. Todos com desfecho imprevisível.

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