sexta-feira, 24 de abril de 2026

Uma escada chamada Gilmar, por Bernardo Mello Franco

O Globo

Ameaça de processo ajuda pré-candidato do Novo a se apresentar como vítima

Romeu Zema iniciou uma cruzada contra o Supremo para tentar sair da rabeira da corrida presidencial. A tática ainda não produziu efeito nas pesquisas, mas acaba de ganhar um impulso inesperado.

No início da semana, Gilmar Mendes apresentou uma notícia-crime contra o ex-governador de Minas. Pediu que ele seja investigado no inquérito das fake news, conduzido pelo colega Alexandre de Moraes.

O supremo ministro se irritou com vídeos publicados nas redes de Zema. Numa das peças, fantoches satirizam o envolvimento de juízes da Corte, chamados de “intocáveis”, com o escândalo do Banco Master.

Em entrevista à TV Globo, Gilmar acusou o ex-governador de “sapatear” sobre a crise de imagem do Supremo. É verdade, mas a reação exagerada só ajuda o político do Partido Novo.

Ao ser ameaçado de processo pelo decano da Corte, Zema ganhou holofotes que jamais alcançaria por conta própria. Passou a se apresentar como vítima de perseguição judicial, tentativa de censura e abuso de poder.

A direita cerrou fileiras para apoiá-lo. Flávio Bolsonaro prestou solidariedade e aproveitou para criticar o “ativismo judicial”. O senador já batia no Supremo por causa da condenação do pai. Agora ganhou um pretexto para posar de defensor da liberdade de expressão.

Os ataques de Zema são tudo, menos espontâneos. Nos últimos dias, ele publicou mais de uma dezena de vídeos contra o Supremo, a maioria produzida com inteligência artificial. O objetivo é pegar carona na crise e se vender como candidato antissistema, que não teme peitar os poderosos.

Em outra frente, o ex-governador investe no figurino de homem simples, embora seja herdeiro de um dos maiores grupos empresariais de Minas. Ao debochar de seu jeitão caipira, Gilmar também dá gás a essa marquetagem.

Em campanha há oito meses, Zema segue empacado no pelotão dos nanicos. Oscila entre 3% e 4% das intenções de voto, desempenho pífio para quem governou o segundo estado mais populoso do país.

Ainda não está claro se ele quer mesmo a Presidência ou se busca um convite para a chapa do filho de Bolsonaro. Em qualquer cenário, a escada oferecida por Gilmar pode ajudá-lo.

 

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