Folha de S. Paulo
Não por inocência nem coincidência governo
Trump permitiu o uso político/eleitoral da decisão sobre facções
O gesto mostra que a química entre Trump e
Lula tem limite e esbarra na preferência ideológica da Casa Branca
É inegável: o governo Donald Trump pôs
um trunfo nas mãos de Flávio
Bolsonaro (PL) e acrescentou um fato
à foto no salão oval da Casa Branca. Ajudou o senador a mudar o rumo da prosa
do caso Master, permitindo que ele ligasse o pedido feito dois dias antes
à decisão de
definir PCC e CV como organizações terroristas.
Não há como separar o gesto do contexto eleitoral nem fugir da constatação de que o Departamento de Estado sinalizou que a química entre Trump e o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) tem limite. O debate não foi gratuitamente capturado pelos políticos porque, dado o momento e a forma, a política está no centro da questão.
Se não se configura uma interferência
clássica do governo americano no processo eleitoral brasileiro, dá margem à
interpretação de que há nítida preferência em Washington. Ou Trump, Marco Rubio
e companhia seriam meros inocentes úteis no plano bolsonarista de constranger o
presidente Lula em
sua jornada pela reeleição? Definitivamente, não é caso de inocência.
Difícil também aceitar que tenha sido
coincidência. Três semanas antes, Trump havia estado com Lula e, ao não abordar
o tema, dado ele a oportunidade de se jactar da esperteza de tampouco ter
tocado no assunto em três horas de conversa.
Veríamos depois que a omissão deixou o petista
vendido na situação. Nesse meio tempo o preposto de Jair Bolsonaro (PL) na
corrida presidencial se enrolou na rede de falcatruas de Daniel Vorcaro, foi
chamado para um encontro na Casa Branca no qual enfatizou o pedido para o
enquadramento das facções e, em seguida, vem a decisão que pôs Flávio Bolsonaro
na condição de interlocutor influente.
A maré pode virar se a mudança de status
jurídico não alterar o cotidiano das áreas dominadas ou se houver danos à
economia devido a ingerência indevida dos EUA por aqui.
Ainda assim, a reação baseada na defesa da
soberania, como foi no tarifaço, parece insuficiente, porque a população cobra
respostas na segurança pública que o governo não conseguiu dar.

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