domingo, 31 de maio de 2026

Esculpindo palavras, por Ivan Alves Filho*

Jane Austen, Albert Camus, Franz Kafka, Machado de Assis, Tolstói e Jack London são autores celebrados não só pela qualidade de seus escritos como também pela maneira pela qual os iniciam. Impactantes, saborosas. Com esses escritores, aprendemos que as palavras, sem as frases, nada significam de fato. Ou seja, cabe às frases dar um sentido a elas. As frases, esses coletivos das palavras. E o escritor sempre se apresenta como alguém que se vale dessas ferramentas todas, como um artesão das letras. 

Os gramáticos nos ensinam que as frases nada mais são do que "um conceito da camada morfossintática de análise". Certamente estão imbuídos de razão. Mas, há uma certa frieza nesta definição, convenhamos. Daí eu preferir me valer de frases que escapam a qualquer explicação lógica, digamos assim, mas que falam diretamente ao coração de cada um de nós. Um exemplo: "Amai-vos uns aos outros". Outro: "Proletários de todos os países, uni-vos!". Mais um: "Eu tenho um sonho."

Muitas vezes, frases compõem, também, aforismos e, estes, por seu turno, têm um valor ou um sabor filosófico. São quando as frases parecem adquirir autonomia em relação às próprias palavras, parecendo escapar delas, capengando em uma letra só. A tal ponto que até esquecemos da presença das palavras em determinadas construções. Grandes pensadores recorreram aos aforismos ao longo da História. Com efeito, valendo-se de textos curtos, quase sempre irônicos, esses moralistas nos convidaram a refletir sobre a vida, suas alegrias e também seus impasses. De Hipócrates a François de la Rochefoucauld e destes a William Shakespeare e Friedrich Nietzsche, os aforismos têm, ainda, uma função didática, isto é, nos ensinam a viver. No Brasil, tivemos alguns grandes escritores que se dedicaram aos aforismos, com doses certeiras de humor. São eles: Aparício Torelly, Paulo Mendes Campos, Nelson Rodrigues e Millôr Fernandes. Para mim, verdadeiros filósofos, no sentido de que revelavam em suas obras uma grande preocupação e proximidade com a vida cotidiana, e não apenas com o recurso a sofisticados conceitos. Praticam uma filosofia mais solta ou menos rígida. 

A esses nomes se agrega agora o de Cristovam Buarque, alguém que vive praticamente para nos lembrar o valor da Educação em nossa formação, tamanho seu amor pela escola - um vocábulo que, em grego, simboliza o momento voltado para a reflexão e a conversa. A rigor, scholé é um parente próximo da filosofia. E aqui estamos de volta ao caráter didático e reflexivo do aforismo. 

Estou perdido, mas ainda sonho, este o título do último livro de Cristovam Buarque, um digno sucessor dos educadores Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro. O livro é saboroso e eu o recomendo a todos que apreciam a reflexão e a elegância textual. Como se trata de um livro de frases, conforme o seu próprio subtítulo o indica, eis algumas delas: "mais bela que a perfeição é a aventura de procurá-la", "borboletas são flores viajeiras", "deixarei o mundo tão igual quanto o deserto depois dos passos de um caminhante", "cada pergunta morre ao encontrar sua resposta", "difícil entender  o presente que já é passado", "meu único otimismo é pensar que talvez esteja errado em meu pessimismo", "sou ateu para não culpar Deus",  "não é democrática a sociedade que proíbe escolas privadas; nem a que precisa delas", "chamam de esquecimento ao cansaço que as lembranças sentem", "há tantas legalidades indecentes quanto ilegalidades decentes", "criar armas requer muita racionalidade e nenhuma inteligência", "não quero tempo livre, quero meu tempo ocupado com a vida que desejo levar", "não há duas democracias iguais, nem duas ditaduras diferentes". 

Tiradas filosóficas e pedagógicas, observações calcadas no dia a dia, poesia tomando a forma de um só verso e voando fora da letra, tudo que sei é que essas frases traduzem a própria natureza de Cristovam Buarque. Ou seja, são forjadas em palavras que tomam a forma de sonhos. 

*Ivan Alves Filho, historiador

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