segunda-feira, 8 de junho de 2026

.A nobreza dos novos imaginários, por Preto Zezé

O Globo

Sem negar a história, a novela apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos

Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.

Faço essa reflexão porque ela ajuda a olhar para a televisão brasileira. Durante décadas, a teledramaturgia ajudou a construir o imaginário nacional e também refletiu os limites de cada época. A presença negra existia, mas muitas vezes condicionada a lugares estreitos. O problema nunca foram o humor, o romance ou os personagens populares. O problema era a limitação das possibilidades. Personagens negros podiam emocionar, divertir e marcar gerações, mas raramente ocupavam a complexidade reservada aos protagonistas.

Reconhecer esse passado não significa negar a importância da televisão brasileira. Significa compreender o caminho que nos trouxe até aqui e perceber que mudanças importantes têm acontecido. É por isso que “A nobreza do amor” merece atenção. Sua relevância não está apenas em colocar uma princesa africana no centro da trama, mas em registrar uma mudança de tempo.

O aspecto mais interessante da obra é ampliar o repertório simbólico oferecido ao público. Os personagens negros aparecem associados ao amor, à beleza, ao poder, à estratégia política, aos sonhos e aos dilemas universais da condição humana. Durante muito tempo, a discussão foi garantir presença. Agora começamos a discutir amplitude e complexidade.

A novela não faz da pluralidade apenas um tema. Aparece na própria criação, no encontro entre pesquisa histórica, referências da diáspora africana, dramaturgia popular, estética contemporânea e diferentes formas de interpretar a experiência negra. A história não ignora desigualdades nem conflitos históricos. Apenas recusa a ideia de que esses sejam os únicos lugares possíveis para seus personagens.

Há também um aspecto que merece destaque. E aqui nem falo apenas do elenco, que reúne novos e já consolidados talentos. A riqueza da obra está no encontro de diferentes saberes, experiências e repertórios. Muitas das melhores narrativas surgem quando trajetórias diferentes colaboram sem que uma precise apagar a outra. A pluralidade fortalece a criação.

Essa mudança aparece na maneira como a África é apresentada. Por muito tempo, a imagem do continente oferecida ao público brasileiro esteve associada quase sempre à escravidão, à pobreza ou aos conflitos. “A nobreza do amor” amplia essa lente. Sem negar a história, apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos.

Isso importa porque imaginários têm consequências concretas. Uma sociedade também se transforma pelas histórias que conta sobre si mesma e pelas possibilidades que aprende a enxergar.

As novelas sempre foram um espelho do país. Mas alguns espelhos fazem mais que refletir. Talvez a verdadeira nobreza dessa história esteja aí: ampliar possibilidades, renovar imaginários e mostrar um Brasil mais complexo e mais interessante do que aquele que aprendemos a enxergar durante muito tempo.

 

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