segunda-feira, 8 de junho de 2026

O Brasil da renda média, para menos, por Carlos Alberto Sardenberg

O Globo

Parece que os problemas de fundo só aparecem nos momentos de susto. E assim vamos levando, na mediocridade da renda média, para menos

Não sei se prestaram atenção, mas o ambiente econômico piorou nas últimas semanas. Há muitas causas para isso, mas a mais importante é a percepção de que a inflação está de novo em alta. E, se é assim, a taxa básica de juros não pode mais cair. Ou, como dizem os economistas, reduziu-se o espaço para o Banco Central cortar a Selic, atualmente no nível, elevado, de 14,5% ao ano.

A guerra no Oriente Médio é parte do problema. Petróleo mais caro, e bem mais caro, causa inflação no mundo todo, mas pegou a economia brasileira no contrapé. O ambiente parecia bem positivo: inflação em queda, crescimento do PIB, rendimentos do trabalho em alta, desemprego em baixa recorde, dólar comportado. Com o Banco Central cortando a taxa de juros, então, era um resultado dos sonhos. Desinflação com expansão econômica.

De todos esses fatores, o que mudou foi a inflação corrente e projetada. Não é que tenha disparado. As projeções para este ano, que estavam na casa dos 4%, passaram dos 5%. Está acima do teto da meta, é verdade, mas a tendência de longo prazo continua sendo queda. Não pode ser apenas essa a causa da piora no ambiente econômico que, na semana passada, provocou alta dos juros nos mercados.

Talvez o quadro todo não estivesse assim tão positivo. A economia brasileira mostra-se “resiliente” — é o que se lê em praticamente todas as análises. Consegue manter-se em expansão mesmo com juros nas alturas, tal é a explicação. Mas de quanto? O PIB brasileiro cresce 2% ao ano, arredondando para cima, e deverá continuar assim por muitos anos à frente. Não poucos economistas dizem que esse ritmo é o máximo possível.

É muito pouco. Pelas últimas projeções do Fundo Monetário Internacional, o PIB global deverá crescer neste ano na faixa de 3%. Os países emergentes — esses que querem ser ricos — crescem na média de 4% ao ano. O Brasil tem ficado para trás, perdendo a corrida do desenvolvimento. Sabemos que os emergentes da Ásia têm crescido bem mais rápido. A Índia avança ao ritmo de 6,5% ao ano.

Mesmo na América Latina, região historicamente de baixo crescimento, o Brasil não se destaca. Ao contrário. Sendo a maior economia desta parte do mundo, puxa a média para baixo.

Números de inflação saem todas as semanas. Qualquer mudança chama a atenção, provoca debate. Inclusive na política. O preço dos alimentos e combustíveis aparece nas pesquisas. O governo se apressa em conceder “bondades” para combater os efeitos da carestia. Claro que se trata de temas importantes, mas parece que nos acostumamos ao crescimento medíocre. E esta é uma questão estrutural: por que o Brasil não consegue escapar da “armadilha da renda média”? Por que não consegue disparar como os asiáticos?

Sabemos pelo menos algumas respostas. O Brasil investe pouco. O governo, gastando mais de 90% de seu orçamento com despesas correntes, salários e aposentadorias, simplesmente não tem dinheiro para investir. E, gastando mais do que arrecada, acumula uma dívida que já alcança os 80% do PIB, bem acima do média dos emergentes. É essa a principal causa dos juros altos.

O setor privado tem dinheiro, mas funciona atrapalhado por um sistema tributário custoso, além de legislações e regulamentações que levantam obstáculos. Nesta era tecnológica, incluindo a inteligência artificial, as empresas não conseguem mão de obra qualificada, dado o péssimo sistema educacional público. Além disso, têm dificuldades para importar tecnologias. Isso reduz a produtividade da economia — e elimina a possibilidade de crescimento sustentado. Por aqui, só o agro tem seguidos ganhos de produtividade.

Eis aí três temas cruciais, que não aparecem no debate econômico e político. Mas que voltam à tona quando aparece algum problema mais visível, como a alta inesperada na inflação. O ambiente econômico de fato piorou nas últimas semanas. Mas a verdade é que já não estava bom. Parece que os problemas de fundo só aparecem nos momentos de susto. E assim vamos levando, na mediocridade da renda média, para menos.

 

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