O Globo
Parece que os problemas de fundo só aparecem
nos momentos de susto. E assim vamos levando, na mediocridade da renda média,
para menos
Não sei se prestaram atenção, mas o ambiente
econômico piorou nas últimas semanas. Há muitas causas para isso, mas a mais
importante é a percepção de que a inflação está
de novo em alta. E, se é assim, a taxa básica de juros não pode mais cair. Ou,
como dizem os economistas, reduziu-se o espaço para o Banco Central cortar a
Selic, atualmente no nível, elevado, de 14,5% ao ano.
A guerra no Oriente Médio é parte do problema. Petróleo mais caro, e bem mais caro, causa inflação no mundo todo, mas pegou a economia brasileira no contrapé. O ambiente parecia bem positivo: inflação em queda, crescimento do PIB, rendimentos do trabalho em alta, desemprego em baixa recorde, dólar comportado. Com o Banco Central cortando a taxa de juros, então, era um resultado dos sonhos. Desinflação com expansão econômica.
De todos esses fatores, o que mudou foi a
inflação corrente e projetada. Não é que tenha disparado. As projeções para
este ano, que estavam na casa dos 4%, passaram dos 5%. Está acima do teto da
meta, é verdade, mas a tendência de longo prazo continua sendo queda. Não pode
ser apenas essa a causa da piora no ambiente econômico que, na semana passada,
provocou alta dos juros nos mercados.
Talvez o quadro todo não estivesse assim tão
positivo. A economia brasileira mostra-se “resiliente” — é o que se lê em
praticamente todas as análises. Consegue manter-se em expansão mesmo com juros
nas alturas, tal é a explicação. Mas de quanto? O PIB brasileiro cresce 2% ao
ano, arredondando para cima, e deverá continuar assim por muitos anos à frente.
Não poucos economistas dizem que esse ritmo é o máximo possível.
É muito pouco. Pelas últimas projeções do
Fundo Monetário Internacional, o PIB global deverá crescer neste ano na faixa
de 3%. Os países emergentes — esses que querem ser ricos — crescem na média de
4% ao ano. O Brasil tem ficado para trás, perdendo a corrida do
desenvolvimento. Sabemos que os emergentes da Ásia têm crescido bem mais
rápido. A Índia avança ao ritmo de 6,5% ao ano.
Mesmo na América Latina, região
historicamente de baixo crescimento, o Brasil não se destaca. Ao contrário.
Sendo a maior economia desta parte do mundo, puxa a média para baixo.
Números de inflação saem todas as semanas.
Qualquer mudança chama a atenção, provoca debate. Inclusive na política. O
preço dos alimentos e combustíveis aparece nas pesquisas. O governo se apressa
em conceder “bondades” para combater os efeitos da carestia. Claro que se trata
de temas importantes, mas parece que nos acostumamos ao crescimento medíocre. E
esta é uma questão estrutural: por que o Brasil não consegue escapar da
“armadilha da renda média”? Por que não consegue disparar como os asiáticos?
Sabemos pelo menos algumas respostas. O
Brasil investe pouco. O governo, gastando mais de 90% de seu orçamento com
despesas correntes, salários e aposentadorias, simplesmente não tem dinheiro
para investir. E, gastando mais do que arrecada, acumula uma dívida que já
alcança os 80% do PIB, bem acima do média dos emergentes. É essa a principal
causa dos juros altos.
O setor privado tem dinheiro, mas funciona
atrapalhado por um sistema tributário custoso, além de legislações e
regulamentações que levantam obstáculos. Nesta era tecnológica, incluindo a
inteligência artificial, as empresas não conseguem mão de obra qualificada,
dado o péssimo sistema educacional público. Além disso, têm dificuldades para
importar tecnologias. Isso reduz a produtividade da economia — e elimina a
possibilidade de crescimento sustentado. Por aqui, só o agro tem seguidos
ganhos de produtividade.
Eis aí três temas cruciais, que não aparecem
no debate econômico e político. Mas que voltam à tona quando aparece algum
problema mais visível, como a alta inesperada na inflação. O ambiente econômico
de fato piorou nas últimas semanas. Mas a verdade é que já não estava bom.
Parece que os problemas de fundo só aparecem nos momentos de susto. E assim
vamos levando, na mediocridade da renda média, para menos.

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