sexta-feira, 5 de junho de 2026

Assimétrico sim, mas por que? por Pablo Ortellado

O Globo

A saída para a crise é torná-las mais plurais e discutir amplamente orientações normativas, buscando um nível maior de consenso social antes de passarmos a impor regras

Tornou-se lugar-comum em meios de esquerda dizer que a polarização política “não existe” — ou, se existe, que é “assimétrica”. O argumento é que, nos últimos anos, a esquerda não foi para a extrema-esquerda, mas para a centro-esquerda, enquanto a direita se moveu para a extrema direita. Não cabe, desse ponto de vista, falar em polarização. Ou deveríamos chamar essa polarização de “assimétrica”, já que um lado está no meio, o outro no extremo.

O argumento chama a atenção para um fato: enquanto a referência estabelecida da direita é hoje o bolsonarismo, tido como ultraconservador e com posições antidemocráticas, a referência da esquerda é o PT, visto como partido moderado e democrático. O equivalente do bolsonarismo na esquerda, em termos de distância do centro, seriam partidos muito pequenos como UP, PCB ou PSTU.

Alguns conservadores divergem dessa leitura e dizem que a política do PT não se tornou extrema apenas porque as propostas do partido sempre foram contidas pelo Congresso. Progressistas respondem lembrando que, em cinco diferentes governos petistas, nunca a democracia brasileira foi posta em risco por ação da esquerda.

Seja como for, esquecemos de perguntar: por que a direita se tornou radical? O que aconteceu para que a expressão de referência da direita deixasse de ser a moderada aliança PSDB-PFL dos anos 1990, 2000 e início dos 2010 e passasse a ser o bolsonarismo radical do final dos anos 2010 em diante?

Os conservadores não escondem o que acreditam ser o motivo. Alegam que se sentem sufocados por regras de discurso “politicamente corretas”, que tornam deslizes banais motivos para graves acusações de misoginia, homofobia ou racismo. Dizem que sua visão de mundo e seu modo de ser não são tolerados pelos progressistas, que criminalizam suas condutas e aplicam regras muito adversas nas instituições que controlam, como universidades, organizações culturais, meios de comunicação de massa e Justiça. Em resumo, dizem que não têm espaço.

O progressismo responde que os conservadores não têm espaço porque estão fora das normas civilizadas, delimitadas pelos direitos humanos. Aí, a meu ver, reside a natureza do conflito. Os conservadores veem como as instituições os excluem, se revoltam e se radicalizam. Quanto mais radical a revolta dos conservadores, mais motivos o progressismo vê para deixá-los de fora, num ciclo vicioso e perigoso.

O progressismo enxerga o conservadorismo como reação, atraso e desrespeito a regras de direitos humanos duramente estabelecidas; os conservadores veem os progressistas como tiranos ditatoriais que impõem regras identitárias ridículas e absurdas a uma nação que não partilha seus valores.

Como nenhum lado vê o outro como legítimo, não sente que precisa responder aos questionamentos. Os progressistas não acham que precisam rever suas orientações normativas buscando maior consenso social; conservadores não acham que precisam moderar sua reação para limitá-la ao jogo da democracia liberal. E, assim, pouco a pouco, vamos afundando.

Esse ciclo precisa ser rompido. Meu apelo, como progressista, é que façamos o primeiro gesto — porque alguém precisa começar. Não resgataremos o convívio democrático se insistirmos no debate estéril sobre quem começou ou de quem é a culpa pela crise. Além do mais, temos a responsabilidade que advém da maior influência que exercemos em certas instituições.

A saída para a crise é tornar nossas instituições mais plurais e discutir amplamente orientações normativas, buscando um nível maior de consenso social antes de passarmos a impor regras. Precisamos criar um ambiente em que os conservadores se vejam como parte do jogo e, como resposta, se desradicalizem.

Ao excluir conservadores das instituições em nome de valores democráticos, alimentamos involuntariamente o ciclo que ameaça a própria democracia. Isso não significa tolerar golpismo, violência política ou discriminação, mas reconhecer que uma democracia não se sustenta quando parcelas expressivas deixam de ver suas instituições como legítimas. Precisamos perseguir um consenso social mais amplo, capaz de incluir adversários sem normalizar ataques às normas democráticas. Numa democracia, a única vitória legítima é aquela conquistada pela persuasão.

 

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