O Globo
A saída para a crise é torná-las mais plurais
e discutir amplamente orientações normativas, buscando um nível maior de
consenso social antes de passarmos a impor regras
Tornou-se lugar-comum em meios de esquerda
dizer que a polarização política “não existe” — ou, se existe, que é
“assimétrica”. O argumento é que, nos últimos anos, a esquerda não foi para a
extrema-esquerda, mas para a centro-esquerda, enquanto a direita se moveu para
a extrema direita. Não cabe, desse ponto de vista, falar em polarização. Ou
deveríamos chamar essa polarização de “assimétrica”, já que um lado está no
meio, o outro no extremo.
O argumento chama a atenção para um fato: enquanto a referência estabelecida da direita é hoje o bolsonarismo, tido como ultraconservador e com posições antidemocráticas, a referência da esquerda é o PT, visto como partido moderado e democrático. O equivalente do bolsonarismo na esquerda, em termos de distância do centro, seriam partidos muito pequenos como UP, PCB ou PSTU.
Alguns conservadores divergem dessa leitura e
dizem que a política do PT não se tornou extrema apenas porque as propostas do
partido sempre foram contidas pelo Congresso. Progressistas respondem lembrando
que, em cinco diferentes governos petistas, nunca a democracia brasileira foi
posta em risco por ação da esquerda.
Seja como for, esquecemos de perguntar: por
que a direita se tornou radical? O que aconteceu para que a expressão de
referência da direita deixasse de ser a moderada aliança PSDB-PFL dos anos
1990, 2000 e início dos 2010 e passasse a ser o bolsonarismo radical do final
dos anos 2010 em diante?
Os conservadores não escondem o que acreditam
ser o motivo. Alegam que se sentem sufocados por regras de discurso
“politicamente corretas”, que tornam deslizes banais motivos para graves
acusações de misoginia, homofobia ou racismo. Dizem que sua visão de mundo e
seu modo de ser não são tolerados pelos progressistas, que criminalizam suas
condutas e aplicam regras muito adversas nas instituições que controlam, como
universidades, organizações culturais, meios de comunicação de massa e Justiça.
Em resumo, dizem que não têm espaço.
O progressismo responde que os conservadores
não têm espaço porque estão fora das normas civilizadas, delimitadas pelos
direitos humanos. Aí, a meu ver, reside a natureza do conflito. Os
conservadores veem como as instituições os excluem, se revoltam e se
radicalizam. Quanto mais radical a revolta dos conservadores, mais motivos o
progressismo vê para deixá-los de fora, num ciclo vicioso e perigoso.
O progressismo enxerga o conservadorismo como
reação, atraso e desrespeito a regras de direitos humanos duramente
estabelecidas; os conservadores veem os progressistas como tiranos ditatoriais
que impõem regras identitárias ridículas e absurdas a uma nação que não
partilha seus valores.
Como nenhum lado vê o outro como legítimo,
não sente que precisa responder aos questionamentos. Os progressistas não acham
que precisam rever suas orientações normativas buscando maior consenso social;
conservadores não acham que precisam moderar sua reação para limitá-la ao jogo
da democracia liberal. E, assim, pouco a pouco, vamos afundando.
Esse ciclo precisa ser rompido. Meu apelo,
como progressista, é que façamos o primeiro gesto — porque alguém precisa
começar. Não resgataremos o convívio democrático se insistirmos no debate
estéril sobre quem começou ou de quem é a culpa pela crise. Além do mais, temos
a responsabilidade que advém da maior influência que exercemos em certas
instituições.
A saída para a crise é tornar nossas
instituições mais plurais e discutir amplamente orientações normativas,
buscando um nível maior de consenso social antes de passarmos a impor regras.
Precisamos criar um ambiente em que os conservadores se vejam como parte do
jogo e, como resposta, se desradicalizem.
Ao excluir conservadores das instituições em
nome de valores democráticos, alimentamos involuntariamente o ciclo que ameaça
a própria democracia. Isso não significa tolerar golpismo, violência política
ou discriminação, mas reconhecer que uma democracia não se sustenta quando
parcelas expressivas deixam de ver suas instituições como legítimas. Precisamos
perseguir um consenso social mais amplo, capaz de incluir adversários sem
normalizar ataques às normas democráticas. Numa democracia, a única vitória
legítima é aquela conquistada pela persuasão.

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