sexta-feira, 5 de junho de 2026

Tempo fechado nas relações EUA–Brasil, por Fernando Gabeira

O Estado de S. Paulo

Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes e trabalhar com a hipótese de que os EUA já não serão o mesmo parceiro do passado

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington – a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25% – têm de ser analisadas com frieza. No mesmo dia em que Jamieson Greer, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Quando entram em ebulição, as relações Brasil–Estados Unidos não influenciam apenas a economia. Elas passam a ser a agenda principal das eleições. Durante algum tempo, parecia aos candidatos que a proximidade com Donald Trump era um trunfo eleitoral. Agora, pelo menos um deles, Lula, terá de se distanciar e retomar o tom crítico que sempre teve em relação ao presidente norte-americano.

A classificação das organizações brasileiras como terroristas estava sendo combatida como ameaça à soberania nacional. Mas tudo isso é um pouco vago para a população mais pobre, sobretudo a que vive nas áreas ocupadas pelo crime. Tem-se debatido tudo, se a medida favorece Flávio ou Lula, que impacto terá no sistema financeiro, só não se debate um tema essencial: que diferença terá para os que vivem sobre o jugo do crime organizado? Nenhuma. A própria ideia de asfixiá-lo economicamente não leva em conta que o lucro hoje é obtido mais pelo controle do território do que pelo tráfico. Eles vendem gás, detêm o transporte alternativo, exploram o “gatonet” – instalação clandestina para captar a TV a cabo –, cobram taxa de proteção e até constroem prédios. Podem sobreviver mesmo sob asfixia financeira tradicional. Esses aspectos são pouco debatidos porque não queremos encarar a falência do Estado nas periferias. Mesmo se os Estados Unidos quisessem resolver a questão, iriam fracassar se usassem apenas uma solução militar. Fracassaram em inúmeras guerras assimétricas, daí a novidade na Venezuela: uma ação de comando e controle do petróleo, que era seu objetivo máximo. Também o era no Iraque, mas fizeram uma guerra desastrosa.

O argumento de que o Pix estava ameaçado acabou ganhando força com a decisão americana. Baseados na seção 301 de sua lei comercial, os americanos investem contra o Pix, afirmando que o sistema montado pelo Brasil é desleal com os concorrentes. O Pix é tão bem-sucedido, tão entranhado no cotidiano brasileiro, que, mesmo com mudanças, dificilmente perderá sua posição dominante.

Mas todo esse debate vai convergir na campanha nacional para a defesa do nacionalismo. A expressão traidores da Pátria já foi usada contra Flávio e a família Bolsonaro. Enquanto o debate se limitava ao tema do crime organizado, a direita respondia com a acusação de que Lula protegia os criminosos.

O tema econômico agora vai dominar a discussão. Não há argumento que se sustente se não for em defesa do Brasil e da condenação do tarifaço. Lula recebeu de novo um presente político que subestimou acertadamente apostando na negociação. Mas os americanos decidiram antes mesmo do prazo acordado na visita a Washington.

Isso mostra que as negociações devem prosseguir, mas não são mais o único caminho. Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes, enfim, trabalhar com a hipótese de que os Estados Unidos já não serão o mesmo parceiro do passado.

Há tempo para definir uma nova estratégia contando com a possibilidade de um novo mandato. Certamente, essa medida vai aproximar mais o Brasil da China, mas o País não pode perder a perspectiva de autonomia e de equilíbrio nas relações com os Estados Unidos, apesar da passagem catastrófica de Trump. Uma campanha eleitoral nem sempre é o momento para debater esses temas. As acusações recíprocas predominam sobre o diálogo. Mas é tempo de o Brasil ter uma visão estratégica de longo prazo, baseada em nossas riquezas naturais, na transição energética, no desenvolvimento sustentável e no papel de líder mundial na questão ecológica. Quando se sabe claramente o que se quer a longo prazo, esses sobressaltos na política externa ficam mais fáceis de ser absorvidos sem grandes traumas. E não existe disputa para saber quem é mais próximo de um presidente tóxico como Trump. Fica-se mais perto desse termo abstrato chamado soberania nacional. O mesmo vale para a questão de segurança pública. Se estivéssemos endereçando o problema adequadamente, reconquistando centímetro por centímetro o território ocupado, a classificação americana seria apenas um exercício retórico.

Mesmo assim, nossos argumentos são ótimos. Os americanos reclamam, por exemplo, que o Pix esmaga os concorrentes. Na minha pesquisa preliminar, não encontrei um único concorrente que ofereça os serviços de pagamento gratuitos. Quem sabe não evoluam para isso, se um dos seus objetivos principais não for apenas acumular dados? A experiência brasileira é superior. A única forma inteligente de rivalizar com ela é imitá-la. Na minha experiência, também se lucra com a humildade. A Suécia criou um número pessoal, cada um tem o seu no sistema administrativo. A Índia fez o mesmo e hoje economiza milhões de dólares nos pagamentos de ajuda social.

 

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