sexta-feira, 5 de junho de 2026

Trump é pé-frio eleitoral, por Hélio Schwartsman

Folha de S. Paulo

Interferência em pleitos no exterior já levou a derrotas históricas de candidatos apoiados pela Casa Branca

Em eleições na América Latina, placar é um pouco mais favorável ao presidente norte-americano

Tratando-se de Donald Trump, presumir intenções e cálculo estratégico é um exercício arriscado. Não que ele não tenha preferências e objetivos políticos, mas nem sempre é capaz de hierarquizá-los e definir rotas coerentes para efetivá-los.

Embora Trump tenha desenvolvido um relacionamento até cordial com Lula, não há dúvida de que seu coração é bolsonarista. Tivemos uma prova disso na semana passada, quando o presidente americano não só recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca como também acedeu a seu pedido para classificar PCC e CV como organizações terroristas.

A questão das tarifas é mais complicada. Não dá para descartar que Trump tenha pretendido ajudar a família Bolsonaro com o timing dos anúncios, ainda não oficializados, de novas taxas para produtos brasileiros, mas não estou nem um pouco seguro em relação ao efeito real dessas medidas. É provável que elas mais prejudiquem eleitoralmente o clã golpista do que o beneficiem.

Acredito que esse seja um ponto cego do Agente Laranja. Sua visão de mundo é tão autocentrada que a hipótese de o planeta não se curvar a seus desejos nem lhe passa pela cabeça. Empiricamente, porém, ele é um pé-frio eleitoral. Nos pleitos estrangeiros em que se meteu, com declarações ou ações concretas, os candidatos e partidos por ele apoiados colecionaram mais reveses do que sucessos. Um caso emblemático recente é o do húngaro Viktor Orbán, derrotado em abril depois de 16 anos no poder.

A intromissão de Trump também foi decisiva para viradas eleitorais históricas dos trabalhistas no Canadá e na Austrália no ano passado e foi cofator para o triunfo de centristas na Groenlândia e na Romênia. Na Polônia, o candidato por ele apoiado se deu bem.

Na América Latina, o presidente americano se sai melhor, tendo obtido êxitos após forte interferência na Argentina e em Honduras. Seus candidatos também venceram no Chile e na Bolívia, mas aí seu apoio foi bem mais discreto.

 

 

 

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