sexta-feira, 5 de junho de 2026

Gente grande ainda acredita que a crise do petróleo vai ser feia, por Vinicius Torres Freire

Folha de S. Paulo

Guerra e suas consequências econômicas vão sumindo do notíciário, mas ainda são veneno

OCDE, FMI, OMC, Banco Mundial e negociantes de petróleo alertam para baixa de estoques

Na segunda-feira, terão passado cem dias desde que começou a guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã. Os mortos mereceram pouca atenção desde o início da desgraça, mas por algum tempo o choque econômico era assunto. Agora, resiste em governos, rodas de economistas e similares. A história vai sumindo do noticiário.

Um choque estaria nos espiando escondido, na próxima esquina? Grandes empresas negociadoras de petróleo têm dito por estes dias que a calmaria relativa abafa alertas de risco de escassez depois de junho, caso o estreito de Ormuz continue praticamente fechado.

Nesta semana, a OCDE fez mais um daqueles alertas com base no "se" (se for ruim, vai ser ruim). Se o conflito continuar até o final do ano, o crescimento da economia mundial baixaria a 2,1% —neste século, seria um ritmo superior apenas àquele registrado nas crises de 2009 (por causa do desastre financeiro de 2008) ou de 2020 (início da pandemia), o que é sério. Por ora, a OCDE prevê crescimento de 2,8% neste 2026 (ante 3,4% em 2025) se a produção no Golfo começar a se recuperar neste mês e se o tráfego por Ormuz voltar ao normal.

Na semana passada, FMI, Banco Mundial, Organização Mundial do Comércio e Agência Internacional de Energia alertaram em comunicado conjunto que os estoques de petróleo caem rapidamente. Que o problema seria agravado pela temporada de verão e de consumo alto de combustível no mundo rico do Norte. Que, no mundo mais pobre, a coisa já está feia, com crise alimentar à vista. Países de África e Ásia já padecem com a crise, mas ninguém liga para isso ou para o Sudão do Sul ou para o Congo ou até Gaza.

Em março, Fatih Birol, diretor-geral da Agência Internacional de Energia, dizia que a guerra "estava criando uma grande crise de energia ... a maior interrupção de fornecimento na história do mercado global de petróleo". Choque houve, mas pode parecer que não, pela falta de evidências pirotécnicas de abalo econômico maior.

Os mercados financeiros americanos deram pouca bola para as consequências econômicas da guerra. Parecem acreditar que em breve Donald Trump vai limpar a sujeira que fez. A crise seria passageira, com alcance limitado até pelo fato de a economia precisar agora de menos petróleo para produzir a mesma quantidade de PIB. De resto, quem liga para uma inflaçãozinha, meio ponto a mais de juros e para algo tão primitivo quanto petróleo quando há trilhões de dólares e poder a ganhar com a IA?

A economia americana vai adiante por causa do investimento em inteligência artificial e pelo consumo de famílias enriquecidas pela alta das ações das "magníficas", "big techs". Afora IA, porém, o PIB dos EUA está lerdo e malparado; o salário médio perde para a inflação. O efeito maior da guerra aparece no prestígio de Trump, nas mínimas.

O choque de oferta é grande. O mundo deixou de contar com um suprimento equivalente a 13% do total de petróleo consumido diariamente (é a diferença entre a quantidade de produto que deixou de sair do Golfo e a compensação derivada de liberação de estoques, baixa de consumo na Ásia e produção maior no Ocidente). Nesta quinta (4), o barril ainda custava 25% mais do que na média de fevereiro.

A economia mundial continua a ser envenenada aos poucos pela guerra, com mais inflação e juros (Brasil inclusive). Problema é saber se haverá asfixia súbita, como se lê nos alertas dos últimos dias.

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